António Monteiro: “O que mais me marcou foi o processo de paz de Angola”


Nasceu em Angola, na província do Bié, em Nova Sintra, hoje Catabola. Depois mudou-se para Luena. Há quantos anos não visita a sua terra natal?       

Nasci, de facto, em Nova Sintra, de onde saí muito cedo. Os encontros com conterrâneos ‘catabolenses’ só ocorreram, já no decurso da minha atividade profissional. No Luena vivi até aos 15 anos, altura em que vim estudar para Lisboa. Tenho, assim, uma ligação mais profunda com Moxico e a sua capital. Aí criei as primeiras amizades que marcaram a minha vida. Nunca mais voltei a Catabola e também com grande pena minha não visito a antiga Luena há anos.

Curiosamente, haveria de viver, profissionalmente, com muita intensidade o processo de independência de Angola, bem como a guerra civil. O que guarda desses períodos, em que conheceu muitos ‘atores’ do conflito?

Kinshasa, para onde parti em agosto em 1971, foi o meu primeiro posto diplomático. Dado o corte radical de relações entre África e Portugal, decretado anos antes pelo então OUA, havíamos chegado a um entendimento com o regime do Presidente Mobutu segundo o qual Portugal estabelecia uma secção de interesses na Embaixada de Espanha, ‘a Gestion des affaires portugaises aupres de l’ambassade d’Espagne’ ficando assim Madrid a dar cobertura diplomática tradicional a presença portuguesa em Kinshasa.

Não era um estatuto confortável nem, à partida, uma colocação prestigiosa para um jovem diplomata que começava o seu trabalho externo com um chapéu protetor espanhol. Mas rapidamente me dei conta dos pontos positivos de que beneficiámos. Não tendo acesso ao tradicional relacionamento com o Ministério dos Negócios Estrangeiros, o nosso principal contacto era a própria Presidência da República, nomeadamente com os seus principais conselheiros, como Jacques Bongoma e Berthelemi Bissengimana.

No mínimo, tínhamos acesso à informação privilegiada e a um nível de interlocução muito superior ao da maioria do campo diplomático acreditado em Kinshasa. Tínhamos também uma atividade mais intensa na ‘gestion des affaires portugaises’ do que a própria Embaixada de Espanha, com quem acabamos por ter apenas contatos episódicos. Certamente por razões de ordem prática não fomos obrigados a pedir passaportes espanhóis. E a manutenção dos passaportes diplomáticos portugueses foi um fator de tranquilidade para a nossa ‘Gestion’ apenas posto esporadicamente em causa, sem efeitos práticos, pela FNLA.

O 25 de abril teve rápidas consequências em Kinshasa. Libertos do ‘chapeu espanhol’ fui sucessivamente nomeado Consul, Consul Geral e Encarregado de Negócios. Mobutu desencadeou de imediato diligências e operações, todas com o mesmo desígnio: garantir uma influência hegemónica em Angola, de cujos fornecimentos o seu país dependia em parte, sobretudo depois do desastre econômico e social do processo de ‘Zairinização’ de 1973. Uma das suas principais preocupações foi colocar Kinshasa no centro de eventuais entendimentos entre os três movimentos de libertação de Angola, mesmo se à custa de uma subalternização do seu tradicional parceiro, a FNLA, de Holden Roberto. Esbarrou, no entanto, na antiga animosidade do MPLA de Agostinho Neto (procurando cativar Daniel Chipenda) e com o esforço primordial de Savimbi em consolidar a UNITA como a terceira força (ou o fiel da balança) no inevitável conflito angolano (tive longas conversas com Savimbi de passagem por Kinshasa nas suas idas aos encontros da Naukuru e de Mombassa). O período que mediou até a independência de Angola foi extremamente agitado, com o governo zairense a procurar pressionar Lisboa a alinhar com os seus objetivos. Fui expulso duas vezes em 1975, regressando ao Posto, em ambos os casos a pedido de Kinshasa. Da segunda vez, regressei ao Zaire com instruções do então ministro dos Negócios Estrangeiros, Melo Antunes: a primeira, comunicar ao Presidente Mobutu que Portugal se preparava para reconhecer o governo angolano de Agostinho Neto; o segundo, inteirar-me do que passava na fronteira Norte, onde havia notícia de graves abusos praticados pelas forças em fuga, zairenses e da FNLA, sobre as populações refugiadas e deslocadas. Assim fiz, numa audiência com Mobutu que se limitou a inquirir sobre a data do reconhecimento e a incentivar uma intervenção ativa da Embaixada portuguesa na questão dos refugiados. Quanto a estes, pedi ao Presidente um local seguro para o seu acolhimento em Kinshasa dado chegarem cada vez em maior número. Disse-lhe também que as minhas expulsões tinham causado a rotura do orçamento da Embaixada. Para surpresa minha, Mobutu respondeu que poderíamos preparar a sede do partido no poder, orgulho do Presidente, para receber os refugiados. E acrescentou que iria adiantar à embaixada um apoio financeiro para que pudéssemos começar a atuar de imediato. A minha última impressão nada tem a ver assim com ‘enfrentamentos com o Presidente’, mas sim com uma cooperação útil que permitiu, em certa medida, aliviar as consequências da derrocada zairense no Norte de Angola.

Chegou a ter, nesse tempo, conhecimento das idas de Putin a Moçambique?                         

Não. Prestei atenção a Putin apenas quando o meu colega russo na ONU, Sergey Lavrov, me confidenciou que iria a Moscovo e esperava ter oportunidade de conhecer o então primeiro-ministro, que era já apontado como possível sucessor de Yeltsin na Presidência russa.

Nos seus 42 anos de carreira, passou por diferentes momentos, como a guerra do Iraque, a independência de Timor-Leste, entre outros. Olhando para os conflitos do Médio Oriente e para a guerra da Rússia contra a Ucrânia, o que pensa que tem faltado para se alcançar a paz?                             

São situações muito diferentes. No Médio Oriente, persiste o incumprimento de uma decisão sancionada pela ONU praticamente quando da sua criação, prevendo dois Estados: Israel e Palestina. Qualquer solução terá de passar pelo reconhecimento mútuo entre árabes e israelitas dos 2 Estados com fronteiras seguras para Israel e viáveis, bem como internacionalmente aceites para a Palestina. Acresce  que será sempre necessário lidar com a ditadura teocrática que amordaça o Irão, privilegiando tanto quanto possível a via negocial já ensaiada no tempo de Obama, com vista ao controlo do programa Nuclear iraniano.

Quanto à agressão contra a Ucrânia, creio que só haverá paz quando Putin tiver de enfrentar a incapacidade de ganhar a guerra. Para isso é fundamental o apoio constante da União Europeia a Kiev. Tal passa pela coesão europeia, que terá de dar prioridade à necessidade de ultrapassar fatores de desagregação que a vêm ameaçando.

Já defendeu que sanções totais não resolvem os problemas com eficácia, como foi o caso do Iraque. A obsessão de Trump poderá levar a uma terceira Guerra Mundial?       

As sanções podem ser úteis como último instrumento para levar infratores à razão, podendo em muitos casos contribuir para evitar o desencadeamento de conflitos armados. O caso do Iraque foi um equívoco entre intenções e realpolitik. O Conselho de Segurança, comandado pelos membros permanentes, decretou sanções globais cujos efeitos negativos seriam minorados pelo enquadramento humanitário desenhado na resolução Oil for Food (Petróleo por Alimentos).

O preço do petróleo não era o preço do mercado, mas uma ‘fourchette’ na prática decidida por acordo entre os 5 permanentes, enquanto os alimentos eram adquiridos de acordo com o Governo de Saddam Hussein. O efeito prático foi dar um poder efetivo ao regime de Bagdad que decidia sobre as vendas e os preços do petróleo e a distribuição de bens alimentares, acentuando assim o jugo a que o povo iraquiano já estava sujeito. Não serão as sanções a causa de uma terceira guerra mundial, mas não podemos excluir esse risco e, sobretudo, a ameaça nuclear.

Dizia que a ONU funcionava como terapia de grupo para o mundo. Com o atual descalabro da organização ainda acredita que isso acontece?

Foi a fórmula que encontrei em 1986 para rebater posições contrárias à ONU, já então muito em voga, com destaque para a acusação americana de estarem ao serviço do bloco Soviético. Aquilo a que chama descalabro de organização é sobretudo a paralisia provocada pela incapacidade dos governos que a compõem de respeitar a Lei Internacional. Não podemos exercer da ONU que atue como uma espécie de governo mundial. A sua ação e inação dependerá sempre dos países membros e, sobretudo, de um Conselho de Segurança há muito a precisar de reforma.

Quando foi embaixador em França defendeu que a comunidade portuguesa emigrante devia envolver-se na política. Em Portugal, existem diferentes conflitos com algumas comunidades que não falam a língua, nem se identificam com a cultura. Apesar disso, acha que, por exemplo, os indostânicos deveriam concorrer às autarquias?

Quando cheguei a Paris, em princípio de 2001, havia poucas centenas de portugueses eleitos nas eleições locais. O trabalho em que me empenhei foi ao encontro de uma corrente já muito efetiva que entendia termos de mobilizar os portugueses para o voto a fim de ganharmos o peso político que os portugueses em França já representavam. Esse peso ia mesmo além das eleições locais, sendo já significativo nas eleições presidenciais e legislativas, como logo em 2002 ficou provado.

A comunidade portuguesa é um trunfo que devemos incentivar, apoiar e acompanhar como elo fundamental que são no relacionamento franco-português. Entendo que em Portugal deverão votar nas autárquicas todos os que têm esse direito.

Portugal continua a não investir o suficiente na língua portuguesa nos PALOP?

A língua portuguesa tem uma progressão no mundo que merece todo o apoio dos países e comunidades que a usam. Na expressão feliz do Professor Adriano Moreira: ‘Nós também falamos português’. A força da nossa língua reside na expansão demográfica de países como o Brasil e Angola, mas dispomos já de um instrumento fundamental para cimentar a concertação entre todos: a CPLP. É preciso olhar para ela a longo prazo e, eventualmente, revigorar instituições como o Instituto Internacional de Língua Portuguesa.

Qual foi o cargo que o marcou mais e porquê?

Processo de paz de Angola. Nos cargos que exerci no âmbito do processo de paz de Angola, tanto a plena participação nas negociações como chefes de gabinete do então secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Cooperação, Durão Barroso, quer como chefe da Missão Temporária portuguesa em Angola, acreditei sempre que poderíamos ajudar os angolanos a encontrar as vias de uma reconciliação que pusesse fim a longa e inútil guerra civil. O ter nascido em Angola e a oportunidade de conviver com os meus conterrâneos, reforçaram essa minha convicção de que a paz era possível. Chegamos de facto às eleições e o entendimento parecia ainda possível. Assim não aconteceu. A violência voltou com novos contornos. ‘Desconseguimos’ essa oportunidade.

Conheceu bem os países onde trabalhou? O que mais o fascinou?

O que mais me fascinou em países onde exerci funções? A energia de Nova Iorque, o ‘bien vivre’ em Franca, o banho cultural de Itália, o regresso às raízes em Angola…

Quais foram os estadistas que mais o marcaram?

Todos os que se empenharam em contribuir para um mundo melhor, de humanidade partilhada.

Dizia que os diplomatas não precisam de agências para fazer o seu trabalho. Ainda pensa o mesmo?

Penso sobretudo que os diplomatas devem cumprir a sua função de um modo ativo, empenhando-se na valorização de tudo o que interessa ao país. Têm de ter presente a necessidade de uma formação permanente, a familiarização com as novas tecnologias, ajustando a ação ao ritmo inovador das nossas sociedades.

Como tem ocupado o seu tempo, depois de deixar a Fundação Millenium BCP?

Deixei a Presidência da Fundação Millennium apenas há 15 dias. Tenho-os dedicado a usufruir do convívio familiar e a ler.

Os seus amigos dizem que era um dos melhores ‘dançarino’ do Stones e não só. Como recorda esses tempos das noites lisboetas? Os seus netos fazem ideia que estava muito tempo na pista de dança?

A noite foi sempre um espaço de liberdade. As discotecas, sobretudo as dos anos 60 e 70, faziam parte da revolução cultural e social dessa época. Amizades, namoros, desavenças nasceram e morreram nessas noites ao som de músicas empolgantes. Não sei se era um dos melhores ‘dançarinos’. Do Stones, lembro-me recorrentemente das investidas de fim de noite com que Quito Hipólito ‘varria’ a pista de dança…

Por fim, chegou a afirmar que a exposição excessiva nas televisões era um inconveniente. Como olha para este mundo onde todos querem aparecer e onde as redes sociais têm o papel que têm?

É o mundo em que vivemos. Não mudará, mas evoluirá. É preciso não temer que a ausência redunde no esquecimento.

De quem tem mais saudades?

Dos meus pais.



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