Decisão sobre Coreia do Sul expõe fragilidade do plano de Trump na Ásia | Blogs | CNN Brasil


Donald Trump ordenou ao Pentágono que reduza substancialmente os exercícios militares conjuntos com a Coreia do Sul. A decisão chega justamente quando os dois países iniciam o “Ulchi Freedom Shield”, principal treinamento anual de suas forças, e poderia ser interpretada simplesmente como mais uma tentativa de reabrir o diálogo com a Coreia do Norte.

Seria uma leitura incompleta.

Trump justificou a decisão recorrendo a três argumentos bastante diferentes. Disse que os exercícios custam caro, que enviam uma mensagem equivocada a Kim Jong-un, com quem afirma manter boa relação, e criticou Seul por não ter apoiado os Estados Unidos contra o Irã. A mistura diz mais sobre o episódio do que cada justificativa isoladamente.

O problema não está necessariamente em reduzir exercícios militares. Há circunstâncias em que diminuir sua escala pode ser um instrumento legítimo de distensão. O próprio Trump fez isso depois da cúpula com Kim, em Singapura, em 2018. A questão é o que se oferece em troca e, sobretudo, o que a decisão comunica a aliados e adversários. É aqui que o episódio ganha importância.

A aliança entre Estados Unidos e Coreia do Sul foi construída para reduzir incertezas. Desde o tratado de defesa mútua de 1953, seu objetivo fundamental é deixar claro a qualquer potencial agressor que Seul não estará sozinho diante de um ataque. Exercícios conjuntos fazem parte dessa arquitetura. Não são apenas demonstrações de força. Servem para testar comando, comunicação, logística e interoperabilidade entre forças que precisariam atuar juntas em uma crise.

Por isso, uma redução pontual não desmonta a aliança nem deixa a Coreia do Sul indefesa. O tratado continua existindo, assim como a presença militar norte-americana e décadas de integração operacional. O risco aparece se a decisão deixar de ser exceção e passar a expressar uma mudança na natureza do compromisso. Dissuasão não depende apenas de quantos soldados, aviões ou mísseis um país possui. Depende também da percepção de que esses recursos serão empregados quando necessário. Em outras palavras, poder militar precisa de credibilidade.

Ao associar a segurança sul-coreana à posição de Seul sobre uma guerra no Oriente Médio, Trump introduz uma variável nova nessa equação. A mensagem passa a ser a de que compromissos de segurança podem ser afetados pelo comportamento do aliado em assuntos que pouco têm a ver com a ameaça que originalmente justificou a aliança.

Isso importa ainda mais porque ocorre quando a Coreia do Norte avança suas capacidades nucleares e de mísseis. Dias antes dos exercícios, Pyongyang voltou a realizar lançamentos balísticos. Sua cooperação militar com a Rússia também se aprofundou nos últimos anos. O Ministério da Defesa japonês avalia que a Coreia do Norte já possui capacidade de atingir o Japão com mísseis balísticos potencialmente equipados com ogivas nucleares e descreve a ameaça como mais grave e iminente do que no passado. É por isso que o efeito da decisão não termina na Península Coreana.

O Japão depende de uma aliança própria com os Estados Unidos e acompanha qualquer mudança na credibilidade das garantias norte-americanas. Tóquio, Seul e Washington aprofundaram nos últimos anos a cooperação em defesa antimísseis, compartilhamento de informações e exercícios trilaterais. Desde 2023, os três países compartilham continuamente dados de alerta sobre lançamentos de mísseis norte-coreanos.

O risco, portanto, não é imaginar que os Estados Unidos abandonarão Coreia do Sul ou Japão amanhã. É mais sutil. Quando aliados começam a considerar que compromissos antes relativamente previsíveis podem entrar na mesa de negociação de outras disputas, passam também a calcular quanto custa depender deles.

Há um paradoxo nisso. Trump cobra há anos que aliados assumam parcela maior de sua própria defesa. Em boa medida, Japão e Coreia do Sul estão fazendo exatamente isso. Mas incentivar maior divisão de responsabilidades é diferente de produzir dúvidas sobre a confiabilidade da proteção norte-americana. A primeira estratégia pode fortalecer alianças. A segunda pode estimular autonomia militar, corridas armamentistas e, no limite, debates sobre alternativas à dissuasão nuclear oferecida pelos Estados Unidos.

Talvez seja essa a consequência mais importante da decisão de Trump. Alianças militares são construídas com tratados, bases, soldados e armas. Mas sobrevivem graças a algo muito menos tangível: a expectativa de que, quando chegar a hora, os compromissos serão cumpridos. Quando essa certeza diminui, não são apenas os aliados que refazem suas contas. Os adversários também.



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