Flipelô: sucesso da festa do Pelourinho mostra força dos leitores no Brasil


O Museu Eugênio Teixeira Leal passou longe de conseguir acomodar todos que queriam escutar Ana Maria Gonçalves. O mesmo lugar ficou abarrotado para ouvir Milton Hatoum falar sobre sua obra, o autoritarismo no Brasil e o papel da leitura na formação do pensamento complexo.

Mediei a mesa com Milton. E também fiz o meio de campo de outras duas conversas que tiveram casa cheia. Fernanda Verissimo e Paloma Amado lembraram a amizade entre Jorge Amado e Erico Verissimo num daqueles papos que poderiam durar horas. O biógrafo Leonencio Nossa e a pesquisadora Evelina Hoisel levaram o imaginário dos leitores para terras áridas numa conversa sobre Guimarães Rosa e o seu “Grande Sertão: Veredas”, clássico que acaba de completar 70 anos.

Deixando a coisa com cara de farra, há algumas edições que o mesmo palco que recebe apresentações musicais passou a também ser usado para as conversas com escritores. Desta vez, Itamar Vieira Junior e Carla Madeira falaram para a multidão que comia espetinho, tomava cerveja ou disputava espaço para sentar na escadaria da Fundação Casa de Jorge Amado, principal responsável pela festa.

Um dos méritos da Flipelô é misturar diversas frentes da literatura. Autores independentes, artistas e pesquisadores locais, nomões do Brasil, convidados estrangeiros, escritores com pegada pop, espaços dedicados às literaturas infantil e juvenil… Tudo isso espalhado pelo sobe-desce com batucada que é o centro histórico de Salvador.

Esta foi a 10ª edição da festa, uma marca importante. A Flipelô nasceu num momento bastante adverso, enquanto a Cultura andava desprestigiada a ponto de deixar de ter um ministério para si. A verba para eventos do tipo, que sempre foi pouca, estava ainda mais escassa.

Apesar do cenário, conseguiram colocar a coisa de pé. Comemoraram a estreia, mas chegaram ao fim daquela edição de 2017 sem a certeza de que teriam condições para realizar a segunda. Reuniram apoios e prosperaram, apesar de percalços como a época da pandemia.



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