Uma nova espécie de serpente extinta descoberta no Brasil está a desafiar as ideias estabelecidas sobre a origem e evolução das cobras. O fóssil, datado de há cerca de 85 a 75 milhões de anos, sugere que algumas das primeiras serpentes conhecidas estavam adaptadas à vida subterrânea, contrariando a visão predominante de que os seus ancestrais viviam sobretudo à superfície ou em ambientes aquáticos.
A descoberta foi publicada na revista Nature por uma equipa internacional de investigadores, incluindo cientistas australianos e brasileiros.
A espécie recebeu o nome Tametara mirim e foi identificada a partir de um fóssil excecionalmente bem preservado encontrado no sudeste do Brasil. Trata-se do primeiro fóssil articulado de uma serpente descoberto no país, preservando tanto o crânio como parte significativa do corpo em três dimensões.
Recorrendo a técnicas avançadas de microtomografia computorizada, os investigadores conseguiram reconstruir detalhadamente a anatomia interna do animal, incluindo estruturas do crânio e do cérebro.
As análises revelaram características típicas de animais escavadores. A forma do crânio indica adaptações à deslocação em galerias subterrâneas, enquanto a organização cerebral difere significativamente da observada em outras serpentes fósseis e atuais.
Segundo os autores, estas diferenças sugerem que a evolução inicial das serpentes foi muito mais diversificada do que se pensava.
A origem das cobras continua a ser um dos temas mais debatidos da paleontologia. Os cientistas acreditam que estes répteis surgiram durante o Jurássico Médio, há cerca de 160 milhões de anos, mas permanecem dúvidas sobre os habitats onde evoluíram e sobre os percursos ecológicos que seguiram ao longo do tempo.
A descoberta de Tametara mirim reforça a hipótese de que diferentes grupos de serpentes primitivas exploraram ambientes distintos de forma independente, incluindo habitats subterrâneos, terrestres e aquáticos.
Para os investigadores, a evolução das cobras não resultou de uma única trajetória linear, mas sim de múltiplas adaptações a diferentes nichos ecológicos. Esta diversidade de estilos de vida terá sido acompanhada por alterações profundas nos sistemas sensoriais e na anatomia cerebral.
Os autores defendem que a nova espécie oferece uma visão mais complexa e dinâmica da história evolutiva das serpentes e poderá obrigar a rever os modelos atualmente aceites sobre a origem deste grupo de vertebrados.









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