Nem sempre prestigiado pelos astros internacionais em suas turnês, o Rio de Janeiro será brindado, hoje e amanhã, na Farmasi Arena, com as únicas apresentações brasileiras da cantora espanhola Rosalía com o álbum “Lux”, lançado em novembro do ano passado. Um dos discos mais ambiciosos da história da música pop de todos os tempos, ele se desdobra em um espetáculo idem, que tem deixado público e crítica de queixos caídos e — por que não? — um tanto confusos.
Fruto da imaginação radical dessa artista catalã de 33 anos, graduada em musicologia, com foco da música flamenca, “Lux” é uma obra que poucos teriam condições de conceber, quanto mais pôr de pé: é uma coleção de músicas orquestradas como peças sinfônicas, mas com recurso ao que o pop eletrônico tem de mais vanguardístico. Uma grande reflexão sobre religiosidade & corações partidos, em canções doloridíssimas, que Rosalía canta como se fosse ópera.
Em termos do pop, “Lux” é como muitos passos adiante do que Madonna vislumbrara em “Like a prayer” (ao ligar fé e dança), e com um rigor musical, uma entrega visceral e uma estranheza no canto que a ligam a outra estrela, a islandesa Björk (que, por sinal, participa, como santa padroeira, em uma das canções centrais do disco, “Berghain”). É um disco, diria-se, difícil, que mesmo Björk teria dificuldades em tornar popular, mas que Rosalía, com seu carisma millenial, conseguiu tornar algo muito sedutor para as novas gerações.
Nos palcos, “Lux” é grande arte para as grandes arenas — e a razão de um tanto da confusão que o público (especialmente o mais maduro) experimenta ao tentar entendê-lo. É um show para se gritar, cantar junto e se deixar inebriar por seus recursos visuais? É concerto? É ópera? É balé? É uma catarse coletiva? Sim, é um pouco de tudo isso, mas também com uma linguagem inovadora, mais ainda que a de “Motomami”, seu show anterior, que deixou muita estrela pop bufando de inveja com a audácia com que Rosalía se movimentava, entre câmeras, no palco.
Como com Lady Gaga, o espetáculo é dividido em atos. O primeiro abre com “Sexo, violencia y llantas” (“Sexo, violência e pneus”), primeira faixa de “Lux” e tema do sofrimento de Adriana (Letícia Colin) na novela “Quem ama cuida”. A orquestra e as peripécias vocais de Rosalía instauram um clima barroco, inundado de beleza, em músicas como “Reliquia”, “Divinize” e “Mio cristo piange diamanti” (“Meu Cristo chora diamante”, em italiano).










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