Saneamento avança e assume posição central na infraestrutura do Brasil | Abcon


O saneamento passou a ocupar lugar de destaque na agenda de desenvolvimento do país, impulsionado por um novo ciclo de investimentos e pelos avanços regulatórios dos últimos anos. O tema reuniu, em 12 de agosto, em São Paulo, autoridades do governo federal e do Congresso Nacional, bancos de desenvolvimento, organismos multilaterais, empresas e especialistas no Saneamento Brasil Summit. O encontro marcou os 30 anos da Associação Brasileira das Empresas de Saneamento (Abcon).

Durante o evento, foi lançado o Panorama da Universalização do Saneamento 2026, publicação anual da Abcon que reúne os principais indicadores do setor. Os dados mostram que o país investiu R$ 29,1 bilhões em água e esgoto em 2024, o maior volume da série histórica pelo terceiro ano consecutivo.

Para a diretora-presidente da Abcon, Christianne Dias, os resultados refletem a mudança induzida pelo Novo Marco Legal do Saneamento, aprovado em 2020, que fixou a meta de levar água a 99% da população e coleta e tratamento de esgoto a 90% até 2033. A lei transformou objetivos antes almejados em obrigações contratuais, sujeitas a fiscalização, e ampliou as condições para a participação privada e a competição por meio de licitações.

Desde o Novo Marco Legal, mais de 8,6 milhões de domicílios passaram a ter acesso à água tratada e 9,3 milhões foram conectados à rede de coleta de esgoto. No período, houve avanço também no número de famílias atendidas pela tarifa social, que passou de 2,6 milhões, em 2019, para quase 4 milhões em 2024.

O ministro das Cidades, Vladimir Lima, lembrou que cada real investido em saneamento economiza R$ 4 em saúde pública, segundo a Organização Mundial da Saúde, e que o governo federal destinou mais de R$ 60 bilhões ao setor desde 2023. “As pessoas não podem esperar. É uma questão de dignidade, de cuidar da nossa gente”, afirmou.

Segundo o Panorama, o investimento privado em água e esgoto foi de R$ 9,4 bilhões em 2024, quase um terço do total do setor, e a participação privada mais que dobrou entre 2020 e 2024. A iniciativa privada já está presente em 2.720 municípios, 48,8% do total do país, número 9,3 vezes maior do que antes do Marco Legal.

Desde 2020 foram realizados 70 leilões, com R$ 227,5 bilhões em aportes contratados — e o setor projeta mais de 30 novos leilões. Segundo Paulo Roberto de Oliveira, presidente do Conselho de Administração da Abcon, o volume total de recursos destinados ao saneamento será bem maior. “São 51 projetos de concessão estruturados e desestatizações que somam mais de R$ 423 bilhões em investimentos previstos para o futuro”, afirmou. Ele também lembrou a trajetória da Abcon, fundada em 1996. “Cada passo dado nesses 30 anos nos mostrou que o saneamento é mais do que infraestrutura, é desenvolvimento humano, social e econômico”, disse.

Do crescimento da infraestrutura, o saneamento foi o setor que criou a maior externalidade positiva para a indústria nacional

— Roberto Muniz, diretor de relações institucionais da Confederação Nacional da Indústria (CNI)

Roberto Muniz, diretor de relações institucionais da Confederação Nacional da Indústria (CNI) — Foto: Felipe Iruatã
Roberto Muniz, diretor de relações institucionais da Confederação Nacional da Indústria (CNI) — Foto: Felipe Iruatã

Os investimentos movimentam toda a cadeia produtiva da infraestrutura, de fornecedores e indústria a engenharia, tecnologia e serviços. O diretor de relações institucionais da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Roberto Muniz, destacou que o saneamento foi um dos segmentos que geraram maiores benefícios para a indústria nacional nos últimos anos.

A expansão se reflete no mercado de trabalho. O setor empregava 165,4 mil trabalhadores diretos em 2025, alta de 6,9% em um ano, com salário médio de R$ 6.595, 74% superior à média da economia brasileira. As empresas que atuam no segmento também se destacam na agenda ambiental: entre as companhias pesquisadas, 87% usam energia renovável e 91% mantêm programas de eficiência energética.

De acordo com o Panorama, 3.625 municípios têm metas de universalização da água em contrato e 780 já atingiram o índice de 99% de atendimento. No esgoto, 3.774 municípios contam com metas contratualizadas e 321 universalizaram a coleta e o tratamento. Ainda há, porém, municípios sem contratos compatíveis com as metas, o que reforça a necessidade de políticas públicas complementares.

PLANEJAMENTO E EXECUÇÃO

A secretária de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística de São Paulo, Natália Resende, destacou a governança como condição para viabilizar investimentos. No estado, segundo ela, foi constituído um bloco com 371 municípios, além de representantes da sociedade civil e do governo estadual, para deliberar sobre alterações contratuais e regulação, com adesão voluntária. “Tem que ter coragem, tem que ter planejamento, tem que ter uma regulação adequada”, resumiu.

O CEO da Sabesp, Carlos Augusto Piani, relatou que a companhia antecipou para 2029 as metas de universalização em 371 municípios paulistas, com investimentos de quase R$ 70 bilhões, e realizou em 2025 o maior aporte anual de sua história, acima de R$ 15 bilhões. “Transformar o dinheiro em obra, obra em serviço bem prestado para a sociedade: esse é o nosso desafio”, afirmou.

Em palestra no Summit, Fernando Schuler, professor do Insper, chamou a atenção para uma característica que dificulta o tratamento político do saneamento: as obras são pouco visíveis e seus resultados aparecem no longo prazo. Segundo ele, o ciclo passa por modelagem, aprovações legais, leilões, contratos e execução até que o investimento se converta em resultado.

Ricardo Toledo Silva, diretor do Departamento de Infraestrutura da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), destacou o saneamento como elemento central da adaptação urbana e regional às mudanças climáticas. Para ele, secas e inundações deixaram de ser apenas eventos excepcionais e passaram a afetar o dia a dia dos serviços, o que exige sistemas resilientes e pode demandar adaptações técnicas, contratuais e de financiamento.

Para Ilan Goldfajn, presidente do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), o Brasil construiu uma base sólida e tem como desafio transformar o progresso em acesso — Foto: Felipe Iruatã
Para Ilan Goldfajn, presidente do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), o Brasil construiu uma base sólida e tem como desafio transformar o progresso em acesso — Foto: Felipe Iruatã

A diretora de infraestrutura, transição energética e mudança climática do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Luciana Costa, classificou como uma “revolução silenciosa” o que vem ocorrendo no setor de saneamento. E afirmou que o banco estrutura projetos e busca atrair mercado de capitais, bancos privados e organismos multilaterais. “Se nós não mobilizarmos o capital privado, a gente não vai fechar o gap que a gente precisa fechar”, disse.

Em palestra no evento, o presidente do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), Ilan Goldfajn, informou que já disponibilizaram US$ 8 bilhões, cerca de R$ 40 bilhões, ao saneamento brasileiro e a meta é levar o serviço a mais de 31,5 milhões de pessoas na América Latina até 2030. Ele destacou o papel de instituições como o BID no financiamento de longo prazo, uma vez que projetos de saneamento levam décadas para maturar.

“O funding não pode ser de curto prazo. Temos que ter o chamado capital paciente. Eu diria que o BID é paciente”, afirmou. “O Brasil construiu uma base sólida. O desafio agora é transformar o progresso em acesso”, concluiu

Números do Panorama 2026 — Foto: Divulgação
Números do Panorama 2026 — Foto: Divulgação



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