Há um bom tempo o status de títulos mais seguros do mundo do Tesouro dos Estados Unidos vem sendo abalado pelas políticas do presidente Donald Trump. O endividamento crescente do país foi acelerado por seu corte de impostos, e a confiança no dólar caiu com suas investidas demolidoras da ordem econômica e comercial global, feitas sob seus caprichos. Ontem, os títulos de 30 anos, um dos instrumentos oficiais de financiamento de longo prazo, pagaram rendimentos não vistos desde 2007 – 5,34%, uma arrancada súbita, porque não haviam ultrapassado a barreira dos 5% até o fim de julho. As taxas dos Treasuries influenciam as demais, que também estão subindo e encarecem o custo de dívidas também altas na maioria dos países desenvolvidos. Com isso, decresce a atração dos títulos soberanos brasileiros, e as captações externas ficam mais caras.
Os dias tranquilos para a rolagem das dívidas do Tesouro estão ficando no passado. Cerca de US$ 10 trilhões da dívida têm de ser refinanciados no ano, além da emissão de novos títulos para cobrir um déficit público estimado em US$ 1,85 trilhão no ano fiscal de 2026. A dívida americana é de US$ 39 trilhões, ou cerca de 124% do PIB, em alta. As ilusões alimentadas por Trump, de que seu tarifaço compensaria as reduções de impostos para empresas, foram por água abaixo com a decisão da Suprema Corte de considerá-las ilegais. Os EUA terão de ressarcir as taxas de importação cobradas, enquanto as novas, feitas com base na seção 301, começaram a ser cobradas em julho.
Com a necessidade a cada dia maior de rolar dívidas, o Tesouro passou a viver a situação inédita de ter que disputar espaço no mercado de dívidas com os papéis que bancarão os megainvestimentos em inteligência artificial (IA), feitos pelas big techs e considerados grau de investimento. Com isso, as taxas dos títulos de 30 anos subiram a 5,34%, contaminando papéis soberanos de países endividados, como Japão (4,16%, quase um recorde histórico), Alemanha (3,78%), França (4,9%) e Grã-Bretanha (5,86%).
Os investimentos em IA pelas grandes companhias americanas no ano estão estimados em US$ 1,9 trilhão, e boa parte deles está coberta por emissões de dívidas. Os efeitos dessa corrida tecnológica se manifestam também por outros caminhos. Os recursos investidos em IA a tornaram o segmento que mais cresce na economia americana e no mundo, aquecendo os preços em vários mercados, que já estavam em alta com a elevação do valor do petróleo causada pela guerra de Trump contra o Irã. A inflação resiste a cair e é um dos fatores a elevar os rendimentos dos títulos longos.
A intervenção do Tesouro americano para amparar o iene, em 31 de julho, já demonstrara o temor subjacente de preservar os títulos americanos do encarecimento. O Japão é o país que mais detém esses papéis, cerca de US$ 1,1 trilhão (junho). As intervenções massivas de seu banco central para conter a desvalorização constante da moeda são feitas com vendas de T-bonds, que tendem a elevar seus yields (rendimentos). O secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, usou reservas dos EUA em euros com a finalidade de evitar a alta do custo que a intervenção acarretaria.
A estabilidade e a previsibilidade dos custos do financiamento da dívida americana também estão sendo erodidos por outros fatores. Com previsões de inflação fora da meta de 2% do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), as taxas longas sofrem pressão de alta, que podem ser intensificadas por outros eventos em mercados instáveis como os atuais, sujeitos aos efeitos de duas guerras e do rompimento da ordem geopolítica que reinava. Os fundos de hedge, que buscam ganhos rápidos e se financiam no curto prazo, são os maiores detentores privados de títulos do Tesouro – 8,5% de um estoque de US$ 32 trilhões. As taxas dos treasuries dependem agora também dos resultados das peripécias dos investidores mais agressivos e especulativos do mercado (Financial Times, 14 de agosto).
A curto prazo, dois fatores podem piorar a situação do custeio da dívida americana. Os investidores apostam que o Fed pode elevar os juros pelo menos uma vez até o fim do ano, ou no início do próximo, para conter a inflação, o que pode empurrar as taxas para cima. Por outro lado, o uso dos juros para combater a inflação pode esfriar a economia – não há sinais convincentes de perda de dinamismo da economia dos EUA até agora – e derrubar a arrecadação, elevando o déficit público.
As taxas americanas de longo prazo são a base sobre a qual se acrescem os prêmios de risco para papéis soberanos do Brasil e demais países. As captações externas do governo e de empresas brasileiras ficarão com isso mais caras. A disposição dos investidores para o risco de aplicar em títulos menos seguros, portanto, diminui. O fluxo de divisas externas para o país tende a diminuir, o que pode conduzir à desvalorização do real. Esses movimentos já ocorrem de forma previsível, de forma ordeira e sem sobressaltos, mas compõem um quadro que pode piorar rapidamente em casos de turbulências nos mercados. E incertezas não faltam no cenário externo.










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