O secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, afirmou publicamente no X que os EUA “não hesitarão” em voltar a intervir no mercado, se necessário. Na manhã de segunda-feira, a ministra das Finanças do Japão, Satsuki Katayama, confirmou a ação conjunta, enviando um sinal claro de que Tóquio contava com um parceiro poderoso na tentativa de fortalecer a moeda. Autoridades da Coreia do Sul também aparentemente participaram da coordenação.
O iene chegou a avançar 1,4% em relação ao dólar durante o pregão da manhã em Tóquio, à medida que o mercado assimilava a mensagem.
“Esse é um desenvolvimento histórico. Não é algo que o mercado deva subestimar”, disse Yuji Saito, assessor executivo da SBI FXTrade. “Isso pode representar um verdadeiro ponto de inflexão na cooperação cambial entre EUA e Japão.”
As especulações agora se voltam para novas ações conjuntas. Crescem as expectativas de que tanto o Federal Reserve quanto o Banco do Japão (BOJ) elevem os juros em setembro, depois de o banco central japonês manter a taxa básica inalterada na sexta-feira, mas alertar para riscos de inflação à frente.
As dúvidas sobre os amplos planos de gastos da primeira-ministra Sanae Takaichi também aumentam a probabilidade de uma nova desvalorização do iene, reforçando os argumentos para novas ações conjuntas.
O presidente dos EUA, Donald Trump, descreveu no domingo a ajuda de Washington como um simples gesto “de amizade”. “Eles queriam um pouco de ajuda, e estamos sempre ao lado do Japão”, disse Trump a jornalistas a bordo do Air Force One, citando a “boa relação” entre os dois países.
Na prática, Washington também tem seus próprios incentivos. Como o Japão é o maior detentor estrangeiro de títulos do Tesouro americano, eventuais vendas desses papéis para financiar intervenções cambiais podem pressionar o mercado de Treasuries em um momento em que as preocupações com a inflação e a guerra com o Irã elevam os rendimentos. Um iene mais forte também reduz as críticas de que exportadores japoneses estariam sendo favorecidos por uma moeda fraca, uma das reclamações recorrentes de Trump.
Quando o iene chegou brevemente a 155,23 por dólar na manhã de segunda-feira, não ficou claro de imediato se as autoridades haviam voltado a intervir ou se o movimento refletia a reação de investidores apreensivos e operações de negociação algorítmica.
Katayama não quis confirmar uma nova rodada de intervenção, enquanto o principal diplomata cambial do Japão, Atsushi Mimura, deixou claro que os dois lados pretendem permanecer vigilantes.
“Desde a declaração conjunta entre EUA e Japão em setembro do ano passado — e, na verdade, até antes disso — mantenho comunicação próxima com o Tesouro dos EUA sobre uma série de temas”, disse Mimura a jornalistas. “O verdadeiro trabalho começa agora, e pretendemos acompanhar a situação de perto.”
As autoridades também estão ampliando o conjunto de instrumentos disponíveis. Katayama afirmou que o Japão passará a utilizar uma linha do Federal Reserve que permite aos bancos centrais obter dólares oferecendo títulos do Tesouro americano como garantia. O mecanismo foi criado durante a turbulência dos mercados em 2020, quando a pandemia de Covid-19 provocou fortes impactos na economia global.
A ferramenta permite ao Japão acessar até US$ 60 bilhões por dia sem vender Treasuries, limitando qualquer impacto sobre os rendimentos desses títulos e ampliando o potencial para intervenções cambiais.
“É uma tentativa de maximizar o efeito de sinalização e obter o maior impacto possível com as ferramentas já disponíveis”, disse Masahiko Loo, estrategista sênior de renda fixa da State Street Investment Management.
As autoridades japonesas romperam o silêncio sobre a coordenação depois que surgiu uma foto do bloco de anotações de Bessent durante uma reunião de gabinete. Um dos itens da lista de tarefas dizia: comprar iene. Isso praticamente eliminou as dúvidas do mercado e sinalizou que Washington talvez até quisesse tornar a iniciativa pública.
A reunião de Bessent com Katayama em Tóquio, em maio, e uma ligação telefônica posterior já haviam alimentado meses de especulação sobre uma ação coordenada e as condições para sua implementação.
Bessent, que conhece profundamente o Japão graças a uma carreira de décadas em fundos de hedge, vem adotando uma postura incomumente ativa para influenciar a trajetória econômica do principal aliado asiático dos EUA. Ele tem afirmado repetidamente que o BOJ não deve ficar atrás da curva no combate à deflação e ressaltado a importância de permitir que o banco central normalize sua política monetária.
Uma tentativa de incentivar o BOJ a elevar os juros em setembro ao mesmo tempo que o provável movimento do Federal Reserve ainda parece distante, diante da percepção de que o governo Takaichi busca desacelerar, e não acelerar, o aperto monetário promovido pelo banco central.
Ainda assim, os participantes do mercado intensificam as apostas de que o BOJ poderá agir mais cedo. Os contratos de swap de um dia passaram a indicar probabilidade de 46% de alta de juros em setembro, ante cerca de 30% uma semana antes.
Muito dependerá do comportamento do iene nas próximas semanas, disse Harumi Taguchi, economista-chefe para o Japão da S&P Global Market Intelligence.
“Se a intervenção se mostrar eficaz, acredito que o BOJ provavelmente deixará para depois uma alta de juros em setembro”, afirmou.











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