ANÁLISE || Há uma guerra noutro lado e isso significa desviar as atenções, o que deixa um dos históricos aliados dos Estados Unidos em situação complicada
O súbito anúncio de Donald Trump de que os EUA estão a reduzir os principais exercícios militares conjuntos com a Coreia do Sul corre o risco de reacender as preocupações de que as forças norte-americanas estejam demasiado sobrecarregadas para apoiar aliados ocidentais cruciais ou manter a dissuasão contra as autocracias que as ameaçam.
É também um presente para o líder norte-coreano Kim Jong-un, numa altura em que intensificou a ameaça do seu próprio país à estabilidade global – e não ofereceu concessões em troca.
Quando os exercícios Ulchi Freedom Shield, com a duração de 10 dias e que envolvem dezenas de milhares de soldados, estavam prestes a começar, Trump ordenou a redução dos exercícios militares porque a Coreia do Norte se tem comportado de forma “não ameaçadora e respeitosa” com o seu governo.
“Estes exercícios não são apenas dispendiosos, com grande parte destes custos pagos pelos Estados Unidos da América (como é habitual!), mas enviam um sinal totalmente inadequado e hostil”, publicou Trump no Truth Social no fim de semana.
A declaração de Trump é difícil de conciliar com as ações de Kim.
O líder norte-coreano reforçou significativamente as Forças Armadas do seu país e o seu programa ilegal de armas nucleares nos últimos anos, chegando a enviar soldados para ganhar experiência em combate real nos campos de batalha da Ucrânia e fornecendo a Moscovo mísseis que mataram civis ucranianos.
Esta ajuda à Rússia é agora acompanhada por um tratado de defesa mútua assinado há dois anos com Vladimir Putin. Kim consolidou também uma parceria tripartida com a Rússia e a China há quase um ano em Pequim, quando os três autocratas protagonizaram uma demonstração pública ao assistirem à passagem de alguns dos mais modernos equipamentos militares da China pela cidade, durante as comemorações do 80.º aniversário da vitória na Segunda Guerra Mundial.

Entretanto, a Coreia do Norte tem vindo a modernizar o seu arsenal, e Kim Jong-un é frequentemente retratado nos meios de comunicação estatais, ladeado pela sua filha adolescente e provável sucessora, a supervisionar marcos militares — como a ativação, no início deste ano, de um novo contratorpedeiro de mísseis guiados.
Entretanto, num mundo onde a administração Trump se queixava frequentemente dos aliados, especialmente os europeus, que não partilham os custos da sua própria defesa, ainda no final de maio, a administração considerava a Coreia do Sul o seu aliado ideal.
“Se querem ver o que significa partilhar o ónus, considerem a República da Coreia. A Coreia do Sul investe consistentemente na sua própria defesa… porque não tem o luxo de tratar a guerra como um exercício académico. Vivem na linha da frente e, por isso, constroem poder de combate real”, disse o secretário da Defesa, Pete Hegseth, num discurso na conferência de defesa Diálogo de Shangri-La, em Singapura.
Hegseth está correto. A Coreia do Sul está a agir por necessidade, e a guerra com o Irão serviu como um lembrete de que os EUA deslocarão sempre os seus recursos para onde forem mais necessários. O Pentágono teve de recorrer a forças e equipamento de toda a Ásia para reforçar as suas tropas no Golfo Pérsico, durante um conflito que se arrasta há quase seis meses.
No início da guerra, Washington deslocou os intercetores de mísseis da Península Coreana para o Médio Oriente. E na semana passada, anunciou que o seu único porta-aviões baseado no Pacífico Ocidental, o USS George Washington, estava a caminho de águas próximas do Irão para substituir o USS Abraham Lincoln, o seu navio-irmão, que tem sofrido com relatos de baixa moral após mais de 200 dias sem atracar num porto.
“Os exercícios bilaterais com a Coreia do Sul consomem desnecessariamente recursos e a prontidão dos EUA numa altura em que os Estados Unidos estão com poucos recursos”, diz Jennifer Kavanagh, diretora de análise militar do Defense Priorities, um think tank com sede em Washington, D.C., que defende a contenção dos gastos com política externa.
Mas outros questionam a sua premissa de que os exercícios são desnecessários, argumentando que a sua redução coloca as forças americanas – quase 30 mil delas estacionadas na Coreia do Sul e mais de 50 mil no Japão, país vizinho – numa situação mais perigosa.

A medida de Trump “diminui a prontidão da coligação e coloca as forças americanas em risco sem qualquer benefício tangível real para os Estados Unidos”, avisa o almirante aposentado da Marinha dos EUA Mark Montgomery, atualmente investigador sénior da Fundação para a Defesa das Democracias, um think tank de segurança nacional com sede em Washington, D.C.
De facto, a maior parte dos custos do exercício Ulchi Freedom Shield já foi incorrida e qualquer treino que seja reduzido terá de ser compensado de alguma forma, ou a prontidão dos EUA será prejudicada, acrescenta Carl Schuster, ex-diretor do Centro Conjunto de Informações do Comando do Pacífico dos EUA.
Reduzir os exercícios e criticar a Coreia do Sul por não contribuir mais — algo que também fez no seu primeiro mandato — dá continuidade a um padrão de Trump, que consiste em repreender aliados de longa data dos EUA que apoiaram a América durante a Guerra Fria e em locais como o Afeganistão e o Golfo Pérsico, chegando mesmo a ameaçar tomar os seus territórios, como na Gronelândia, parte da Dinamarca, membro da NATO.
Entretanto, o presidente dos EUA recusa-se a criticar Kim, que está a ajudar a prolongar a guerra ilegal da Rússia, que já fez centenas de milhares de mortos na Ucrânia, ao mesmo tempo que utiliza esta guerra para melhorar o arsenal da Coreia do Norte, o que põe em risco as tropas norte-americanas que se encontram nas proximidades.
“O que estamos a ver é que os norte-coreanos estão a levar vantagem, um erro realmente não forçado da nossa parte”, vinca o analista militar da CNN Cedric Leighton, antigo coronel da Força Aérea norte-americana.

Até que ponto Kim conseguirá explorar esta vantagem ainda está por ver.
Trump muda repentinamente de rumo e, como todos os elementos para os exercícios Ulchi Freedom já estão prontos, reduzi-los pode não ter grande impacto na prática.
Mas a Coreia do Norte também procura há algum tempo o fim dos exercícios militares conjuntos entre os EUA e a Coreia do Sul. Na segunda-feira, o país foi surpreendido com a notícia do comandante em chefe dos EUA de que estava a ordenar uma redução destes exercícios.
Trump, que há muito ambiciona outro encontro com Kim, pode interpretar este gesto como um caminho para o alcançar. Mas esta mudança repentina tem consequências para os EUA e para os seus aliados.
Poucos poderão argumentar que as Forças Armadas dos EUA conseguirão exercer sobre a Coreia do Norte em 2026 o mesmo poder que exerceram durante o primeiro mandato de Trump. Quando Kim testou mísseis balísticos em 2017, Trump enviou três porta-aviões norte-americanos para patrulhar as águas em redor da península coreana, enquanto ameaçava Pyongyang com “fogo e fúria como o mundo nunca viu”.
Estas ameaças acabaram por levar Kim a encontrar-se pessoalmente com Trump três vezes. Mas estes encontros, em última análise, não conseguiram pôr fim ao programa de armas nucleares da Coreia do Norte, que Kim só fez crescer. Estima-se que possua agora dezenas de ogivas nucleares e tenha prometido construir mais.
A campanha aérea de Washington contra o Irão não fez com que Teerão recuasse. E a única coisa que parece estar realmente a diminuir é a prontidão militar dos EUA, uma vez que os stocks de armas essenciais estão a esgotar-se rapidamente.
A redução dos exercícios militares atuais pode também causar danos duradouros, alertam os analistas.

Oscilando entre elogios num mês e críticas no seguinte, os aliados podem decidir excluir Washington do seu planeamento militar a longo prazo. Já existe uma pressão na Coreia do Sul para que Seul possua as suas próprias armas nucleares e não dependa de Washington para dissuasão.
Entretanto, o Japão está a expandir e a modernizar as suas Forças Armadas a um ritmo sem precedentes na história recente, à medida que a estabilidade pós-Guerra Fria, garantida pelas Forças Armadas americanas, se deteriora.
E diversas nações europeias que têm estado lado a lado com os EUA desde a Segunda Guerra Mundial questionam agora seriamente se a aliança da NATO sobreviverá à abordagem “America First” de Trump à segurança global.
Isto torna o mundo um lugar mais perigoso, onde um erro de um único actor pode desencadear uma tempestade regional, com as Forças Armadas americanas enfraquecidas pelo Irão e incapazes de garantir a segurança dos Estados Unidos.
“As ações que realizamos nestes exercícios são cruciais para a defesa conjunta não só da Coreia do Sul e do Japão, mas também para a defesa dos Estados Unidos”, conclui Leighton.











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