Índice de Paz Global 2026
Atualmente, há 61 conflitos ativos no mundo, o maior número desde o fim da Segunda Guerra Mundial, enquanto a despesa militar mundial aumentou pelo décimo ano consecutivo e o recurso à inteligência artificial se intensifica. Os dados constam do Índice de Paz Global relativo a 2026, que o Institute for Economics & Peace (IEP) acaba de tornar público.
Este relatório anual, que se publica há quase duas décadas e cobre 99,7 por cento da população mundial, refere também que o número de países envolvidos em conflitos externos quase duplicou desde 2008, configurando uma trajetória de longo prazo de deterioração do clima de paz.
Sendo certo que o total de mortes em conflitos armados diminuiu desde o pico verificado em 2023, o ano de 2025 conheceu o segundo maior número de mortes desde a criação do Índice de Paz Global (IPG), há quase duas décadas. A guerra civil no Sudão, o conflito resultante da invasão da Ucrânia pela Rússia e a Guerra dos Doze Dias entre Israel, os Estados Unidos e o Irão “deixaram o ambiente internacional num estado mais frágil e militarizado do que em qualquer outro momento da existência do Índice”, conforme refere o estudo.
O IPG, que toma a paz como foco central do seu trabalho, considera-se “a principal medida de paz global mundial”, procurando estar atenta às “tendências da paz” e ao desenvolvimento de sociedades pacíficas e respetivo valor económico. Utiliza 23 indicadores qualitativos e quantitativos para medir o estado da paz em três domínios: o nível de segurança e proteção social; a extensão dos conflitos internos e internacionais em curso; e o grau de militarização. Com base em escritórios na América do Norte, na Europa, na África, na Ásia e na sua sede em Sidney (Austrália), monitoriza 163 estados e territórios independentes e produz tendências globais.
Um indicador do crescendo de conflitualidade no mundo que se destaca do mais recente relatório permite concluir que o número de países envolvidos em pelo menos um conflito externo nos cinco anos anteriores subiu de 59 em 2008 para 103 no IPG de 2026. Ao mesmo tempo, os conflitos intraestatais internacionalizados estão a tornar-se mais frequentes, tendo aumentado mais de 175 por cento desde 2010.
Os resultados deste ano mostram que o nível médio de paz global se deteriorou 0,7 por cento no último ano, o que acontece pelo 12º ano consecutivo. Dos 163 países do Índice, 99 deterioraram-se em termos de paz e 62 melhoraram. Existem agora 119 países que são menos pacíficos do que em 2008.
O país mais pacífico do mundo continua a ser a Islândia, posição em que se mantém quase há duas décadas. Nas posições seguintes encontram-se a Nova Zelândia, a Suíça, a Eslovénia e a Irlanda. Na posição inversa, a Rússia é o país menos pacífico, seguida do Sudão, da República Democrática do Congo, da Ucrânia e de Israel, que completam os cinco últimos lugares. Por continentes, a Europa Ocidental e Central continua a ser a região mais pacífica, e o Médio Oriente e o Norte de África as menos pacíficas.
Pormenor de mapa ilustrativo do relatório. A Rússia é o país menos pacífico, seguida do Sudão, da República Democrática do Congo, da Ucrânia e de Israel.
Outra conclusão do IPG deste ano refere-se ao fosso entre os países mais e menos pacíficos, que também se alargou, com os 25 países menos pacíficos a deteriorarem-se em média 18,9 por cento desde 2008, enquanto os 25 mais pacíficos se deterioraram apenas 0,3 por cento.
De acordo com o estudo, “os mecanismos históricos para pôr fim às guerras já não estão a funcionar tão eficazmente: a proporção de conflitos entre estados que terminam com um acordo de paz caiu de 23 por cento na década de 1970 para cerca de quatro por cento na década de 2010, enquanto a proporção que termina com uma vitória clara caiu de 49 para nove por cento no mesmo período”. “Com as guerras a tornarem-se mais internacionalizadas e mais difíceis de terminar – refere o Índice –, o risco de os conflitos se espalharem e formarem ‘aglomerados de conflitos’ está a aumentar”.
Uma novidade deste relatório de 2026 refere-se ao modo como a inteligência artificial (IA) está a modificar a guerra e a consolidação da paz. Os dados reunidos, que não abarcam ainda o que se tem vindo a passar no ano de 2026, indicam que o número de eventos registados com ataques de drones aumentou 115 vezes entre 2018 e 2025, tendo 565 grupos armados diferentes realizado pelo menos um ataque nesse período recorrendo a esse recurso. “Os tempos de aquisição de alvo para ataque com recurso a IA caíram de cerca de um dia com mísseis de cruzeiro na década de 1990 para apenas cinco segundos com sistemas de seleção autónoma, utilizados na Ucrânia e no Irão”, refere o IPG.
Um exemplo de como o uso crescente da IA na guerra “está a levantar preocupações sobre a erosão da supervisão humana significativa nas decisões letais” é dado relativamente a Gaza. O estudo observa que a definição algorítmica de alvos neste território da Palestina comprimiu a previsão humana dos alvos gerados por IA para aproximadamente 20 segundos por ataque, tendo um sistema das Forças de Defesa de Israel sinalizado 37.000 palestinianos como suspeitos de serem militantes, apesar de uma taxa de erro conhecida de 10 por cento e de muitos ataques resultarem em pesadas baixas civis”.
O Índice de 2026 conclui, assim, que “os riscos geopolíticos excedem os níveis da Guerra Fria, impulsionados pelo aumento das despesas militares, pela diminuição do papel das instituições multilaterais, pelo triplicar das restrições comerciais e pelo aumento da concorrência entre grandes potências e potências médias”. Daí que, “sem um investimento deliberado nas atitudes, instituições e estruturas da paz positiva, a trajetória da paz global na próxima década provavelmente continuará a diminuir”.










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