Nas últimas crónicas, procurei fazer uma reflexão sobre algumas das principais razões que, a meu ver, estão na origem das guerras, dos conflitos e das crises com que o Médio Oriente se tem confrontado, desde o inicio do século XX até aos nossos dias.

(Continuação.)
Em complemento dessa reflexão, o presente artigo abordará a forma como os territórios de alguns países do Médio Oriente se transformaram, após a Segunda Guerra Mundial, nos campos de batalha da chamada Guerra Fria entre a URSS e os EUA,e passará em revista outros fatores de ordem política, económica, religiosa e cultural que ajudam a explicar as causas da instabilidade permanente que, desde então, se vive nesta região do mundo.
Campos de batalha da Guerra Fria
Um elemento importante a ter em conta na temática em análise tem a ver com os efeitos desencadeados na região do Médio Oriente em consequência da chamada Guerra Fria entre os EUA e a URSS.
De facto, após a Segunda Grande Guerra Mundial, diversos Estados desta região deixaram-se envolver na lógica da rivalidade existente entre estas duas grandes potências mundiais e passaram a integrar um dos seus respetivos blocos.
A Arábia Saudita manteve-se um aliado dos Estados Unidos. A Turquia passou a integrar a NATO em 1952 e o Irão passou a contar com a ajuda financeira dos americanos. Em seguida, o Pacto de Bagdade de 1955 veio criar uma aliança militar entre os EUA, o Reino Unido, o Paquistão, o Irão e a Turquia – a Organização do Tratado Central, (em inglês: Central Treaty Organization) cujo objetivo era conter a União Soviética tendo uma linha de estados fortes ao longo da fronteira sudoeste da URSS.
Por sua vez, a União Soviética apoiou-se no nacionalismo árabe para se instalar na região, designadamente na Síria e no Iraque, apoiou o presidente egípcio Gamal Abdel Nasser, um adepto do «panarabismo» (projeto ligado à ideia de um grande Estado Árabe Independente ou de uma união de todos os povos árabes), quando o mesmo acedeu ao poder em 1952, passou a defender a causa palestiniana e não hesitou em denunciar a existência do Estado de Israel.
Emergência do islamismo
Entretanto, na sequência das vitórias militares de Israel contra países árabes vizinhos relatadas numa das crónicas anteriores, e devido ao carácter autoritário dos governos de alguns países do Médio Oriente que se tinham formado após as independências, o islamismo foi a pouco e pouco ganhando força. Em 1979, o regime ditatorial do Xá do Irão foi derrubado pour uma revolução islâmica que instaurou no Irão uma república islâmica chiita. Este novo regime, dirigido pelo Aiatola Khomeiny, marcou o aparecimento do islamismo radical na cena mundial.
Guerras fratricidas
Ainda assim, a instauração deste regime islamista do Irão não conseguiu pôr termo à rivalidade que já existia entre este país e o vizinho Iraque, baseada em três pontos: religioso (chiitas contra sunitas), étnico (persas contra árabes) e geopolítico (conflito de fronteiras entre os dois países), sendo que o desafio principal para o Iraque era assegurar o controlo dos recursos petrolíferos iranianos. Foi isso que esteve, aliás, na origem da guerra fratricida entre estes dois países islâmicos iniciada em Setembro de 1980 com a invasão do Irão pelas tropas iraquianas e que durou oito anos, tendo causado um milhão de mortos, sem uma vitória decisiva de qualquer das partes.

Hegemonia dos Estados Unidos
Com o fim da Guerra Fria em 1991, os Estados Unidos passaram a ter um papel hegemónico no Médio Oriente e assumiram-se, a partir de então, como um espécie de polícia da região.
Um acontecimento o ilustra. Em Agosto de 1990, o Iraque invadiu e anexou o Kuwait cujas reservas de petróleo representam 20% do total mundial. Saddam Hussein, então presidente do Iraque, depôs o Emir do Kuwait, Jaber Al-Sabah, e instalou Ali Hassan al-Majid como o novo governador do Kuwait. Durante a ocupação iraquiana, cerca de 1 000 civis do Kuwait foram mortos e mais de 300.000 fugiram do país.
A ONU condenou esta intervenção armada do Iraque e, após uma série de negociações diplomáticas falharem, os EUA puseram em marcha uma coligação militar de mais de 30 países patrocinada pelo Conselho de Segurança da ONU, formando uma das maiores alianças militares que o mundo viu desde a Segunda Guerra Mundial, a qual, em Janeiro de 1991, iniciou uma ofensiva militar contra as tropas iraquianas estacionadas no Kuwait: a Operação Tempestade do Deserto.
A guerra durou cinco semanas de um intenso bombardeio aéreo por parte da coligação, seguido por menos de cem horas de campanha terrestre que resultou na rápida expulsão das forças iraquianas do Kuwait. Em 28 de fevereiro, a coligação internacional declarou que os seus objetivos tinham sido atingidos com a libertação do território do Kuwait e com a retirada das tropas de Saddam Hussein, firmando um cessar-fogo e encerrando as hostilidades.

A guerra contra o terrorismo islâmico
Entretanto, os atentados do 11 de Setembro de 2001, nos EUA, reivindicados pela Al-Qaeda, vieram alterar a situação do Médio Oriente vivida até então.
O presidente americano George W. Bush declarou guerra aos Estados da região acusados de abrigar terroristas e, assim, o Médio Oriente transformou-se num teatro de guerra contra o terrorismo. Ainda nesse ano de 2001, uma coligação internacional, sob mandato da ONU, atacou e derrubou o regime dos talibãs no Afeganistão que albergava a Al-Qaeda.
Dois anos mais tarde, em 2003, os Estados Unidos entraram em guerra contra o Iraque de Saddam Hussein suspeito de deter e fabricar armas de destruição massiva. Os EUA não obtiveram o apoio da ONU face à oposição de vários países, entre os quais a França, mas mantiveram-se no Iraque até 2011.
Este prolongado intervencionismo americano contribuiu para reforçar o islamismo radical que rejeita a influência ocidental na região, na sequência, aliás, do que já vinha sucedendo com a ação terrorista aí desenvolvida desde 1993 pela Al Qaeda, a qual viria a prosseguir, alguns anos mais tarde, com a investida terrorista do Estado Islâmico.
Primavera árabe
Seguindo a cronologia dos eventos ocorridos no mundo islâmico, importa, entretanto, assinalar que, na sequência de um movimento de revolta surgido em 2010 na Tunísia contra a precariedade social e o poder despótico do ditador Ben Ali, movimento esse cognominado de «revolução do jasmim», o mesmo alastrou, em seguida, para outros países do norte de África e do Médio Oriente originando uma situação política nova, que parecia promissora, designada na época por «Primavera árabe», mas que viria a revelar-se precária.
No Egito, (que em razão do seu território da península do Sinai é por muitos considerado como um país do Médio Oriente), esse movimento traduziu-se no derrubamento do regime de Hosni Mubarak, em fevereiro de 2011, e na realização de eleições em Junho de 2012 que permitiram aos islamistas da Irmandade Muçulmana aceder ao poder, com a nomeação de Mohamed Morsi. Este exerceu o cargo de presidente do Egito durante cerca de um ano, mas veio a ser deposto em Julho de 2013 por um golpe militar chefiado pelo atual presidente egípcio Abdel Al Sisi, sob a acusação de incitar à violência no país e de espionagem a favor de organizações estrangeiras.
Síria – palco de disputa de interesses geopolícos
Por outro lado, na Síria, no contexto da referida «Primavera Árabe» e na sequência de uma série de manifestações públicas contra o presidente Bashar Al-Assad, ocorridas durante o ano de 2011 reclamando a abertura democrática do regime, o líder sírio decidiu reprimir esses protestos com o uso da força. Esta reação violenta do poder levou a que os grupos da oposição ao regime se armassem. A principal força rebelde formada, principalmente, por soldados desertores era, nessa altura, o Exército Livre da Síria que surgiu na cena política em Julho de 2011. Em consequência, iniciou-se nesse ano uma guerra civil entre o regime de Bashar Al-Assad e os grupos rebeldes da oposição. Esta guerra ainda não terminou e já causou, até hoje, a morte de cerca de 600.000 pessoas.
A partir de 2013, o Estado Islâmico, (EI) antigo braço armado iraquiano da Al-Qaeda, aproveitou-se da instabilidade da Síria e aderindo a grupos rebeldes de jihadistas sunitas, cresceu rapidamente, autoproclamando-se em 2014 como um Califado nos territórios da Síria e do Iraque baseado na lei islâmica, a Sharia. A guerra, que havia começado por razões políticas, assumiu, assim, proporções religiosas.
Em reação ao avanço deste movimento terrorista, diversos países ocidentais, como os Estados Unidos e alguns Estados membros da NATO, bem como alguns países do mundo árabe, temendo que o fortalecimento do Estado Islâmico representasse uma ameaça à sua própria segurança e à estabilidade da região, iniciaram contra ele uma intervenção armada.
Outras potências, como a Rússia e o Irão, também intervieram militarmente no conflito, mas ao lado do regime de Bashar Al Assad. Foi isto que levou analistas políticos internacionais a descreverem a participação das potências estrangeiras na Síria e o apoio dispensado às facções envolvidas no conflito como uma espécie de «guerra por procuração».
Em resultado destas intervenções estrangeiras, o Estado Islâmico viria, entretanto, a perder progressivamente os territórios que conquistara na Síria e também no Iraque, embora continue a sobreviver na zonas desérticas destes dois países. De facto, a queda, em Março de 2019, da cidade de Al-Baghuz Fawqani, considerada como o último reduto do Estado Islâmico na Síria, assinalou na prática a liquidação do autoproclamado Califado.
Outro grupo que merece destaque na guerra civil travada na Síria foi o chamado exército curdo, que se mobilizou para a guerra civil a partir de 2014, quando o Estado Islâmico passou a perseguir a minoria curda da Síria. As tropas curdas, que se bateram de forma vitoriosa nessa guerra, passaram a ter o controle de uma região situada ao norte-nordeste da Síria, conhecida por Rojava, na qual, apesar de não ter o reconhecimento do governo sírio de Al-Assad, os curdos constituiram, desde Julho de 2012, uma «república autónoma de facto», por eles designada formalmente de «Federação Democrática do Norte da Síria».
Conforme resulta dos factos atrás descritos, em razão da interferência direta ou indireta de diversos países estrangeiros, a guerra civil na Síria transformou-se num conflito de grandes proporções e tem sido um palco de disputa de interesses entre nações.
De facto, se por um lado o governo sírio tem contado com o apoio da Rússia e do Irão, que lhe enviam, além de armas e dinheiro, tropas, o Exército Livre da Síria e o exército curdo recebem o apoio dos Estados Unidos que se opõem a Bashar al-Assad e se opuseram, como se referiu, à instalação do Estado Islâmico na região.
Além disso, a Turquia também financia o Exército Livre da Síria, embora, por outra via, lute abertamente contra o exército curdo (os curdos são uma minoria ferozmente perseguida na Turquia). De facto, se é certo que o envolvimento da Turquia na guerra civil da Síria se deve principalmente ao seu interesse em enfraquecer os curdos, o mesmo traduz também a pretensão turca de se tornar uma potência protagonista no Médio Oriente e esconde, eventualmente, o secreto desejo de expandir o seu território, aproveitando-se da instabilidade da Síria.
Outros países que atuaram direta ou indiretamente no conflito sírio foram a Arábia Saudita, o Reino Unido, a França e Israel.
Estima-se que, ao longo desta guerra civil, para além dos 600.000 mortos já referidos, tenham ficado feridas cerca de dois milhões de pessoas. Outra consequência da guerra foi a grande quantidade de pessoas que foram forçadas a abandonar as suas casas. Estima-se que, aproximadamente, 13 milhões de sírios abandonaram as suas casas, dos quais, 7 milhões migraram para outras zonas do território sírio, enquanto que os restantes 6 milhões decidiram fugir do país, muitos dos quais optaram por se refugiar na vizinha Turquia. E foi, a partir deste último país, que se tem operado a migração de milhões de sírios para a Europa, vulgarmente conhecida por «crise dos refugiados».
Após 10 anos de guerra civil, muitos analistas internacionais acreditam que este conflito está longe de conhecer o seu termo e que a Síria poderá tornar-se num país com instabilidade crónica, como sucedeu, por exemplo, com o Iraque ou o Afeganistão.
(Continua.)
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«Portugal e o Futuro», opinião de Aurélio Crespo
(Cronista/Opinador no Capeia Arraiana desde Julho de 2020.)
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