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Gabinete de Guerra na Rádio Observador, o espaço onde analisamos os principais focos do conflito. Hoje contamos com Bernardo Valente, professor de Relações Internacionais no ISCSP. Seja muito bem-vindo à Rádio Observador. Obrigado por aceitar o nosso convite.
Olá, boa noite.
Queria começar inevitavelmente pelo Médio Oriente. Irão e Omã finalizaram oficialmente o acordo sobre o Estreito de Ormuz, acordo esse que vai criar uma rota única que passa pelo território marítimo dos dois países, algo que a Reuters descreve e diz que vai dar um maior poder ao Irão sobre o estreito. Também a agência de notícias iraniana Fars disse ontem que o Irão vai passar uma lei a banir navios comerciais norte-americanos do estreito e que vai criar uma multa equivalente a 20% da carga para países que considerem ser hostis. Queria começar por perguntar sobre esta multa. O quão perigosa pode ser uma multa que está reservada à interpretação do Irão sobre quem é hostil ou não?
Se isto se mantiver exatamente como está escrito e com aquilo que foi veiculado nos meios de comunicação nas últimas 24, 48 horas, a verdade é que é uma vitória diplomática para o Irão, no sentido em que os Estados Unidos têm duas derrotas diplomáticas no mesmo dia, ou seja, não só vão a Roma para negociar a paz entre Líbano e Israel ou entre Hezbollah e Israel, e essa paz não é concretizada ou esse cessar-fogo não é concretizado porque há um novo ataque quando estavam todos sentados à mesa em Roma, há um novo ataque das forças israelitas no Líbano, e depois a segunda grande derrota, e é aqui que nos vamos focar nesta resposta, é exatamente termos uma negociação, e uma negociação supostamente em boa fé, entre as duas partes do Estreito de Ormuz, ou as duas partes mais interessadas no Estreito de Ormuz, que são claro as suas duas margens, portanto, Omã de um lado e o Irão do outro, e conseguiram chegar a esse acordo sem a mediação norte-americana. Este é o primeiro ponto, portanto, uma derrota diplomática para Donald Trump, ou uma derrota diplomática para os Estados Unidos. Agora, o que é que temos em cima da mesa? Ao invés daquelas três rotas iniciais que se falavam no memorando de entendimento que foi estabelecido há cerca de dois meses, e essas três rotas eram uma mais junto a Bandar Abbas, portanto uma mais junto àquele que é a base militar da Guarda Revolucionária Islâmica e a principal forma de projetarem poder para o Estreito de Ormuz. Essa seria a primeira rota e uma rota totalmente dominada pelo Irão. Depois uma segunda rota que passaria apenas e só por águas internacionais, num espaço que é de cerca de 6 km, 3 km para cada um dos lados, e depois uma rota mais a sul que passaria junto às águas internacionais de Omã. O que está aqui em jogo neste novo acordo é uma rota que passa tanto pelas águas iranianas como pelas águas de Omã. Interessante aqui perceber que chegaram a um acordo, e a um acordo que provavelmente irá beneficiar o Irão, porque continuam a ter esta intenção, e uma intenção que é uma violação do direito internacional de qualquer das formas, que é o cobrar a tal portagem ou o que chamaram depois da taxa de serviço no memorando de entendimento. É grave. E por que é grave? Porque não só grande parte do fluxo de aliados dos Estados Unidos, e quando falamos de fluxo, falamos de fluxo energético, de cadeias de abastecimento, cadeias logísticas que passam pelo Estreito de Ormuz, e de aliados dos Estados Unidos que são importantíssimos para o mercado global, não só energético, mas também alimentício. Lembro, por exemplo, da Arábia Saudita, lembro um exemplo dos próprios Estados Unidos, não irão poder passar. Podem passar, mas pagando a tal caução, a tal portagem. A outra opção que têm, parece-me ainda mais perniciosa para esses navios, que é não pagarem, mas arriscarem depois a pagarem os prêmios das seguradoras caso algo aconteça, caso alguma ação de disrupção aconteça precisamente a partir de Bandar Abbas, portanto, da costa iraniana, algum tipo de disrupção através de drones, através de lanchas, que possam causar danos a esses navios. É, neste momento, um menor garrote, diria eu, à economia internacional, mas é um garrote tremendo à economia ocidental. Parece-me que esse é o principal problema desta nova negociação, que supostamente saberemos e iremos, sem dúvida, saber mais nos próximos dias sobre esta negociação, mas segundo o que está agora estipulado, a rota que existe com as coordenadas geográficas que nos foram disponibilizadas, parece-me que esse é o maior problema, é um garrote à economia ocidental, porque o Irão vai decidir quem pode passar ou quem não pode passar.
Exato. E claro que cria ainda mais pressão sobre os Estados Unidos. Antes desta guerra, o estreito era de livre trânsito, eram águas internacionais. Desde esta intervenção, o estreito ficou cada vez pior. Este novo acordo vai colocar ainda mais pressão sobre os Estados Unidos. E a minha pergunta, no fundo, é: qual é que deve ser a próxima jogada de Donald Trump e também se a Europa deve intervir, ou seja, no sentido de não permitir que águas internacionais passem a ter este controle por parte do Irão de decidir “tu és inimigo, então vais ter que me pagar 20% da carga”.
Sim, há aqui três dimensões, creio eu, que podem fazer parte desta análise. A primeira, e baseando no que os Estados Unidos podem fazer, a verdade é que os Estados Unidos entraram neste conflito com dois objetivos principais e depois um terceiro que veio por inerência logo após a primeira resposta do Irão. O primeiro objetivo era a reconfiguração do regime e parece-me que estamos todos de acordo que é muito difícil que essa reconfiguração aconteça, até porque é um regime que nem lhe conhecemos a cara nem a cabeça neste momento. Depois, o segundo objetivo seria, e talvez o mais específico e o mais técnico, seria acabar com o programa nuclear iraniano, e também está longe de acontecer, até porque entretanto tivemos países no Golfo e países no Golfo aliados dos Estados Unidos a desenvolverem programas nucleares ou a mostrarem essa ambição, e isso veio trazer aqui, claro, uma falta de incentivo da parte iraniana para desmantelarem também o seu programa nuclear, como é óbvio E depois temos a questão do Estreito de Ormuz, que é o tal problema por inerência, o tal objetivo por inerência. O que os Estados Unidos neste momento podem fazer, e parece-me que têm tentado percorrer esse caminho, sabendo que há uma falta de armamento, que é diagnosticada por grande parte dos quadros militares norte-americanos, grandes patentes, altas patentes que vêm dizer que existe essa falta de armamento, e se existe essa falta de armamento, quer dizer que os Estados Unidos também têm uma capacidade de alavancagem diplomática limitada, porque muitas vezes a alavancagem diplomática vem do campo militar, o que os Estados Unidos têm feito e o que podem continuar a fazer é isolar o Irão na região. O Irão tem respondido através dos seus proxies, através dos Houthis no Mar Vermelho, através do Hezbollah no Líbano e através até das milícias no Iraque, de milícias pro-iranianas, milícias xiitas no Iraque. O que os Estados Unidos têm feito e podem continuar a fazer é estabelecer acordos de segurança com os países do Golfo para que o Irão fique cada vez mais isolado, para que perca a sua capacidade de projetar poder através desses proxies e projete apenas e só poder, não na região, mas no Estreito de Ormuz. Isto já é um enfraquecimento, ou é o enfraquecimento possível neste momento, que me parece que os Estados Unidos podem causar ao Irão. Quanto à Europa, logo no início, não só a União Europeia, mas também com o Reino Unido incluído, logo no início desta intervenção, em fevereiro, Donald Trump pediu, no âmbito da NATO, que fosse deslocada aquela operação europeia da ASPIDS, que está no Mar Vermelho, precisamente para combater os Houthis já desde o ano passado, porque os Houthis já tiveram algumas ações de guerra mais musculadas no Mar Vermelho no ano passado, o que fizeram com que a Europa deslocasse para lá algumas das suas frotas. E Donald Trump pediu inicialmente que essas frotas fossem então deslocadas do Mar Vermelho e do Estreito de Bab-el-Mandeb e passassem para o Estreito de Ormuz. A verdade é que a Europa não o fez na altura e obrigou, curiosamente, a que Donald Trump e as hostes norte-americanas trouxessem as suas frotas do Indo-Pacífico, que são fundamentais, porque a China projeta o seu poder no Indo-Pacífico. Portanto, essas frotas são fundamentais para o mundo ocidental e para aquilo que é ainda um resquício da hegemonia norte-americana e movimentaram essas frotas para o Estreito de Ormuz. A Europa sempre disse que não se ia colocar nestas aventuras de Donald Trump e num conflito que foi Donald Trump que começou, que foram os norte-americanos que começaram. E isso é uma posição de princípio e uma posição de base dos valores humanistas e normativos que balizam a Europa e a criação também da União Europeia, de certa forma. Mas se continuarmos com o tal garrote no Estreito de Ormuz e com uma parceria aqui entre Irão e Omã, que prejudica, em última instância, os navios ocidentais, os navios europeus e, claro, a economia europeia, a Europa, mais tarde ou mais cedo, terá que tomar uma decisão. O grande problema aqui é que a própria diplomacia europeia e o aparelho diplomático europeu está dividido quanto à possibilidade ou não de apoiar os norte-americanos no Estreito de Ormuz e, em simultâneo, de apoiar todas as nossas economias.
Também devido a ameaças por parte do Irão, que diz que consegue chegar a pontos europeus, por exemplo, se calhar pode ser um dos motivos para a Europa também não querer entrar neste conflito. Queria agora falar do acordo entre Arábia Saudita, Turquia e Paquistão, que se conheceu hoje, visa a criação de uma espécie de um artigo quinto da NATO, ou seja, qualquer ataque sobre um destes países é um ataque contra todos. A Turquia não é vista com os melhores olhos por parte de Israel e Trump tem estado dividido, por exemplo, entre a relação que tem com a Arábia Saudita e Israel, tendo em conta que, por exemplo, que a palavra do rei saudita imperou na decisão de não escalar para uma invasão terrestre na montanha Picareta ou por uma maior escalação da guerra. Foi a Arábia Saudita que fez esse pedido, ou que pelo menos teve mais força nesse pedido. Este acordo muda as dinâmicas de poder no Médio Oriente e como é que reagirá Israel?
Muda de forma determinante e é um acordo, do ponto de vista da análise, fascinante. Por quê? Porque por um lado temos a Turquia, o segundo maior exército da NATO e um país que está em vários corredores geopolíticos e é também, na verdade, um estreito ou um desses corredores que separa o conflito do Médio Oriente do conflito do Leste Europeu, e já percebemos que têm as suas semelhanças e tocam-se muitas vezes. Depois temos o Paquistão, que é uma potência nuclear e com um conflito eterno com a Índia, e por isso tem também a China por trás do Paquistão, porque não quer permitir que a Índia projete poder na região e tem o conflito de Caxemira ainda muito vivo e vai recrudescendo de vez em quando, ainda na semana passada o fez. E depois temos a Arábia Saudita, que é provavelmente o maior país ou o país mais influente do mundo árabe neste momento, e o maior rival do Irão na região, não apenas do ponto de vista económico, mas até do ponto de vista social, cultural e religioso, na tensão eterna entre sunitas e xiitas do lado iraniano. Um acordo entre estas três potências, e é um acordo defensivo por agora, exatamente como dizia, um acordo muito semelhante ao artigo quinto da NATO. Não quer dizer que tenha a mesma capacidade de implementação do artigo quinto da NATO, porque a NATO demorou muito a construir e a consolidar as suas estruturas, mas a verdade é que também este acordo não é novo, no sentido em que já em 2025, portanto, o ano passado, tivemos o Paquistão e a Arábia Saudita a assinarem um acordo de proteção, e o Paquistão faria a proteção da Arábia Saudita em caso de ataque à Arábia Saudita. Atenção, isto não está aqui implícito. Por exemplo, a questão dos Houthis contra a Arábia Saudita no Iémen não está dentro deste acordo. Portanto, só se fala de um acordo, um artigo quinto desta nova parceria, caso haja um ataque direto à Arábia Saudita no seu território Esta parceria entre os três países reconfigura, ou pelo menos o consolidar desta parceria, porque como disse, esta parceria já vem sendo desenvolvida ao longo dos últimos anos, consolida uma nova arquitetura regional. Por quê? Porque por um lado temos a situação específica da Turquia, que faz parte da NATO, mas também é um dos principais países muçulmanos e tem uma capacidade de projeção de poder para todos os lados, para três continentes diferentes, que me parece que será essencial até para estabilizar a questão do Médio Oriente e tem uma relação terrível e que vem piorando ao longo dos últimos meses com Netanyahu, porque Netanyahu tem feito as suas incursões também em território sírio. Ainda durante esta semana tivemos ataques em território sírio e atentados bombistas e isto causa disrupção na própria Turquia e a Turquia já disse várias vezes que começa a olhar para Israel e para esta tensão que Israel vai criando como um ato de provocação, um ato provocatório. Este é o primeiro ponto. Depois temos o Paquistão, como dizia, uma potência nuclear que sempre se comprometeu, a troco de alguns recursos financeiros, a fazer a proteção dos países do Golfo e principalmente da Arábia Saudita. E para além de ter aquela ligação com a China, que deixa o Paquistão numa encruzilhada entre as duas grandes potências hegemônicas, de um lado a proteção à Arábia Saudita, que é apoiada pelos Estados Unidos, como sabemos, e que tem negócios até profundos na ordem dos bilhões com a administração Trump e, por outro lado, a tal armadilha Thucydides. Portanto, a China a tentar crescer de forma pacífica. E depois, por último, temos a Arábia Saudita, um país muito recente nas lides de ser uma potência regional, um crescimento abrupto que acabou agora por se materializar na possível construção do seu próprio programa nuclear. E atenção que não será um programa nuclear novo na região, porque os próprios Emirados Árabes Unidos têm um programa nuclear, mas com um teto delimitado muito específico, precisamente para que não haja o enriquecimento de urânio que levou a esta intervenção no Irão. A Arábia Saudita, pelos acordos ou pelo que se conhece deste novo acordo nuclear da Arábia Saudita, não tem teto. Portanto, poderemos estar a falar de enriquecimento de urânio e do enriquecimento do programa nuclear para fins beligerantes na Arábia Saudita daqui a 10 ou 15 anos e isso ser também um foco de tensão com os Estados Unidos. Mas neste momento, a Arábia Saudita é o principal aliado dos Estados Unidos na região. O que traz de novo em relação com Israel? É que se neste momento havia um conluio, uma espécie de paz podre entre os países do Golfo e Israel, porque estavam unidos contra um inimigo comum, que era o Irão, isso facilmente pode mudar perante este isolamento também que Israel tem criado na região, devido a uma ação extremamente beligerante e às vezes até provocatória contra alguns dos proxies e com aquela ideia de se expandirem principalmente na zona sul do Líbano para a sua própria proteção. Isto faz com que Israel possa ficar ainda mais sozinho e mais sozinho no momento em que esta arquitetura muda, porque começam a se materializar estas estruturas de defesa, não apenas de forma informal, mas agora de forma formal, na forma de acordos de defesa que mudam, sem dúvida, aquilo que era não só a influência do Irão na região e algum poderio que o Irão tinha em relação aos seus vizinhos do Golfo, mas também do ponto de vista econômico, militar e até cultural, há um novo desenho que tira não só essa hegemonia ao Irão, mas também a Israel. E podemos ter os países do Golfo com um novo fôlego através deste acordo e também uma entrada de um país que tem tentado em muito crescer, não só do ponto de vista da projeção de poder, mas também do ponto de vista militar, que é a Turquia, e que terá uma palavra a dizer tanto no conflito do Leste Europeu como no conflito do Médio Oriente.
Só muito rapidamente e pedia que me respondesse mesmo muito rapidamente. Na questão das tensões que existem entre Erdogan, Netanyahu, a Turquia e Israel, Israel tem, de acordo com o Global Firepower Ranking, está na 15ª, 13ª posição global em termos de exército, por exemplo, a Turquia está na nona. Israel era, de facto, o maior exército ou um dos maiores exércitos do Médio Oriente, uma das maiores forças, especialmente com o apoio dos Estados Unidos. Esta entrada neste acordo da Turquia não pode, não vou dizer enfraquecer Netanyahu, mas causar algum receio?
Causa algum receio, sem dúvida, porque Israel percebe que é mais um passo para o isolamento na região. E se os Estados Unidos neste momento são um parceiro volátil, ter a Turquia como inimigo ou como um possível inimigo é perigosíssimo para Netanyahu e é perigosíssimo para o próximo líder israelita, caso Netanyahu não venha a ganhar as eleições, porque há uma guerra religiosa a criar-se também naquela zona e religiosa, claro, depois com outros fundamentos por trás, mas que não são para aqui chamados. E essa guerra religiosa é ganha pela Turquia no sentido em que tem mais recursos humanos, tem um exército muito bem dotado, tem também por trás a NATO, e isso é fundamental. E Netanyahu percebe que ter uma hostilidade permanente com a Turquia não só deixa Israel no papel de pequena potência, ou seja, não é a potência regional que será a Turquia, mas é uma pequena potência, e ao mesmo tempo legitima também alguma daquela que é a narrativa da ameaça existencial perante países de maioria islâmica que tem sido veiculada muito em Israel, principalmente desde o 7 de outubro.
Muito obrigado, chegamos ao final do nosso tempo. Obrigado pela análise. Bernardo Valente, professor de Relações Internacionais no ISCSP. Obrigado pela sua análise.
Obrigado, boa noite.
O Gabinete de Guerra fica por aqui e está de regresso amanhã.










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