Médio Oriente: Irão ameaça presença naval dos EUA na região – Trump em ″paralisia estratégica″ pode ficar ″entalado″ no Estreito de Ormuz até Novembro


O barril de petróleo travou a fundo as perdas que vinha a registar desde o início da semana depois de se conhecer que Donald Trump voltou a apostar nas negociações com o Irão para a reabrir o Estreito de Ormuz, juntando, porém, uma nova ameaça de “decapitação do regime” em Teerão, se a sua vontade não for cumprida.

Esta nova investida negocial não apenas parou as perdas da matéria-prima mais valiosa produzida no Golfo Pérsico, como o crude começou a ganhar valor com os iranianos a afirmarem que querem acabar com a presença naval dos EUA na região, ameaçando atacar os seus navios.

Essa ameaça acabou por ser concretizado esta terça-feira com mais um ataque a um cargueiro no Estreito de Ormuz que não seguia a rota assinalada pelos iranianos, numa clara demonstração de que por ali já não se temem as palavras ameaçadoras da Casa Branca.

Quando ainda reverbera pelos mercados de energia a boa nova de que o Presidente norte-americano travou, à última da hora, um alegado plano de ataque com dimensão histórica sobre o Irão, cai como uma bomba sobre a economia global outra ameaça.

Desta feita é o Irão que assume a dianteira no plano das ameaças ao avisar os EUA que a sua armada naval ao serviço do bloqueio aos portos iranianos vai ser destruída se não se retirar para longe das águas iranianas.

Apesar de Trump estar agora a insistir que o Estreito de Ormuz “pode abrir amanhã”, referindo-se ao dia de hoje, terça-feira, 04, apostando em negociações que diz estarem a decorrer mas que Teerão nega que sequer estejam planeadas, os comandantes militares iranianos já estão um passo à frente.

Não querem apenas que os EUA travem a sucessão de ataques e tréguas para recarregar as armas, segundo o general Mohsen Rezaei, conselheiro militar do Líder Supremo do Irão, aiatola Mojtaba Khamenei, os EUA têm agora que retirar os seus navios de guerra da região.

“Se o bloqueio naval americano sem mantiver, os navios posicionados nas águas da região e os militares neles presentes vão correr sérios riscos”, apontou Rezaei em nota publicada e também numa entrevista à televisão pública iraniana.

O mesmo oficial acrescentou que “os EUA vão ter de mudar o seu comportamento porque não vamos tolerar mais a sua falta de senso e razoabilidade”, avisando que a abertura do Estreito de Ormuz só acontecerá de acordo com o que está planeado e definido nos documentos: “Nunca permitiremos um corredor alternativo no Estreito de Ormuz”.

Recorde-se que os EUA reintroduziram o bloqueio naval aos portos iranianos há cerca de três semanas depois de terem percebido que a sua estratégia de máxima pressão sobre o Irão falhara e que Teerão não abdicava de ver cumprido o que Washington acordara no Memorando de Entendimento assinado em meados de Junho.

Nesse documento, assinado por Trump, os EUA aceitavam que Ormuz fosse inteiramente supervisionado pelo Irão, com uma cobrança de uma taxa ambiental e ainda que a presença militar fosse eliminada num período curto de tempo, sendo essa a única garantia aceitável pelos iranianos para evitar novos ataques norte-americanos ao país.

Apesar de Teerão negar quaisquer conversações com os EUA, como Trump garante existirem, e com frutos, admitem que decorrem negociações com Omã para desenhar um plano de controlo e supervisão da rota marítima estratégica no Estreito de Ormuz.

Além disso, sabe-se de fonte segura, porque foi confirmado por Islamabad, que o Paquistão está de novo a procurar um entendimento entre iranianos e americanos, com cada vez mais evidências de que Donald Trump está num beco sem saída.

Como explicava recentemente Robert Pape, professor da Universidade de Chicago e especialista em política internacional, o Presidente dos EUA está numa condição de “paralisia estratégica”.

Isso explica-se ao concluir que “nenhuma das opções que tem procurado resultou para resolver esta situação” em que Trump se encontra, embora precise muito de o fazer com celeridade face aos problemas internos com que se depara.

A generalidade dos analistas aponta para uma intensa busca por parte de Donald Trump por uma “saída de emergência” nesta guerra com o Irão na qual caiu empurrado pelo primeiro-ministro israelita Benjamim Netanyhau.

Nertanyhau há décadas que procura convencer um Presidente dos EUA, isso mesmo foi confirmado por Barack Obama e George Bush, a enveredar por uma guerra aberta com o Irão, mas só agora conseguiu, com a chegada de Trump à Casa Branca.

Isso foi possível convencendo-o que teria um trunfo eleitoral com uma vitória robusta e rápida sobre o regime alegadamente moribundo do Irão, o que veio a revelar-se uma convicção falsa, mas que o deixou entalado no Estreito de Ormuz devido ás consequências desta guerra na economia global e na norte-americana em particular.

John Mearsheimer, outro professor da Universidade de Chicago, e um dos mais respeitados analistas em geoestratégia e política internacional em todo o mundo, tem feito notar que Trump está sem saída porque não pode surgir perante o eleitorado como um derrotado nem pode manter esta conflito por causa das suas consequências nefastas na economia interna.

É que, com o aproximar das eleições intercalares de Novembro, o seu Partido Republicano, como todas as sondagens indicam, vai perder a maioria nas duas câmaras do Congresso se o actual cenário se mantiver, o que o deixará à mercê de um processo de destituição há muito prometido pela oposição democrata.

Como se fosse pouco, Trump tem neste momento o mais baixo índice de popularidade em muitas décadas de Presidentes nos EUA, com apenas 35% de aprovação, segundo uma sondagem da Ipsos, e a guerra com o Irão é uma das razões por causa da inflação no preço dos combustíveis.

Outras sondagens mostram que também Israel sofre com este contexto porque a taxa de aprovação do apoio a Telavive entre os cidadãos dos EUA é actualmente de menos de 35%, contra os 80% ainda há alguns meses.

Com este cenário, estando claramente obrigado a decidir por uma saída célere do conflito, dando ao Irão tudo o que este país quer, ou empurrar os EUA para uma guerra sem fim e de consequências imprevisíveis, com escassas possibilidades de dela sair por cima, como se vê há mais de um ano, Trump pode não fazer nada, sucumbindo à “paralisia estratégica”.

O que se poderá traduzir por uma continuidade desta “telenovela” das ameaças de ataque de dimensões nunca vistas e recuos sem explicação, acreditando que em Novembro manterá a maioria no Congresso, apesar de todas as sondagens lhe dizerem o contrário.

Entretanto, em Ormuz o Estreito permanece fechado e por ele já não passam os 20% do petróleo e gás consumidos em todo o mundo, oriundos do Golfo Pérsico, o que pode (ver links em baixo) ser o rastilho para fazer a economia mundial tropeçar numa receção histórica.



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