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Há uma pergunta que começa a inquietar quem trabalha na indústria do desporto: os adeptos estão a abandonar o futebol? A resposta é não. Mas estão a abandonar a forma tradicional de o consumir.
Durante décadas, a relação entre adepto e futebol era simples. Comprava-se um jornal, via-se um resumo televisivo ou acompanhava-se um jogo completo ao fim de semana. Hoje, essa lógica desapareceu. O futebol continua a ocupar uma parte importante da vida das pessoas. O problema é que já não ocupa o mesmo formato, nem o mesmo tempo, nem o mesmo espaço.
As novas gerações não cresceram a esperar pelo resumo de domingo à noite. Cresceram num mundo de consumo instantâneo, personalizado e fragmentado. Para muitos jovens, um vídeo de 30 segundos no TikTok compete diretamente com um jogo de 90 minutos. Não porque gostem menos de futebol, mas porque aprenderam a consumir tudo de forma diferente.
A Premier League percebeu esta mudança antes de quase toda a gente. Hoje é transmitida em 189 países e chega a uma audiência potencial de 4,7 mil milhões de pessoas. Mais importante ainda, a competição já não se limita à televisão tradicional. O seu ecossistema distribui conteúdos em streaming, plataformas digitais, redes sociais, aplicações móveis e formatos curtos adaptados aos novos hábitos de consumo.
Esta transformação não é exclusiva do futebol. Está a acontecer em toda a indústria do entretenimento. Netflix, YouTube, TikTok, Twitch, Spotify e videojogos disputam diariamente o mesmo recurso: atenção. E a atenção tornou-se o ativo mais valioso do desporto.
Durante muito tempo acreditou-se que o principal concorrente de um jogo de futebol era outro jogo de futebol. Hoje sabemos que não é verdade. O verdadeiro concorrente de um clássico pode ser uma série da Netflix, um influenciador digital, um podcast ou simplesmente um scroll infinito nas redes sociais.
É precisamente por isso que os clubes começaram a produzir mais conteúdos do que nunca. Em muitos casos, uma equipa publica dezenas de peças digitais por dia. Bastidores, entrevistas, golos, reações, curiosidades, memes, podcasts, documentários e transmissões exclusivas fazem hoje parte integrante do produto.
O futebol deixou de vender apenas jogos. Passou a vender atenção permanente.
Os números ajudam a perceber esta realidade. O sucesso global da Premier League, da NBA, da Fórmula 1 ou mesmo do fenómeno crescente do desporto feminino está diretamente ligado à sua capacidade para estar presente muito para além do momento competitivo. A Fórmula 1 continua a crescer porque transformou pilotos em celebridades globais e corridas em acontecimentos culturais. O desporto feminino continua a ganhar espaço porque compreendeu a importância do storytelling e da distribuição digital.
O adepto moderno não desapareceu. Está apenas espalhado por dezenas de plataformas.
O problema é que muitos dirigentes continuam a medir o sucesso apenas pelos espectadores presentes no estádio ou pelos minutos vistos em televisão. Essa visão já é insuficiente. Um jovem que vê apenas os golos, segue os jogadores no Instagram, comenta vídeos no TikTok e acompanha podcasts sobre futebol continua a ser consumidor de futebol. Apenas o faz de forma diferente.
Esta mudança cria desafios importantes. Como manter a relevância dos jogos completos? Como transformar conteúdos curtos em fidelização de longo prazo? Como monetizar consumidores que passam mais tempo em plataformas digitais do que diante da televisão?
Os próximos anos serão decisivos para responder a estas perguntas. Os vencedores não serão necessariamente os clubes com mais títulos. Serão os que melhor compreenderem as novas formas de consumo. Porque a grande ilusão do futebol moderno é pensar que perdeu adeptos.
Na realidade, os adeptos continuam cá. O que mudou foi a forma como nos encontram. E a maior ameaça para o futebol não é que os jovens deixem de gostar de desporto. É que o futebol continue a procurá-los no sítio errado.
Por Daniel Sá








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