‘O Brasil simplesmente foi ultrapassado pela Europa no futebol’: o que a eliminação para a Noruega revela sobre o modelo do futebol brasileiro





jogadores brasileiros chorando após eliminaçao da Copa do Mundo de 2026

jogadores brasileiros chorando após eliminaçao da Copa do Mundo de 2026

Foto: Getty Images / BBC News Brasil

A eliminação do Brasil na Copa do Mundo de 2026 pode ser contada em três números.

O primeiro é 33,5% — a fatia de posse de bola que a seleção de Carlo Ancelotti teve na derrota por 2 a 1 para a Noruega, neste domingo (5), no MetLife Stadium, em Nova Jersey.

O segundo é 1990 — o ano da última vez em que o Brasil havia caído tão cedo em um Mundial, eliminado pela Argentina.

O terceiro é 28 — o número mínimo de anos que separará o pentacampeonato de 2002 de um eventual sexto título, agora possível apenas a partir de 2030. É o maior jejum da história da seleção.

Para o jornalista e escritor Samindra Kunti, que acompanha a seleção brasileira há décadas, escreveu um livro sobre a equipe e é colaborador da BBC, os números não descrevem um acidente de percurso.

“Esta foi provavelmente a pior campanha do Brasil em uma Copa do Mundo desde 1990 — e, na minha vida, a pior que já cobri e assisti”, disse Kunti à BBC News Brasil. “E, para mim, tudo aponta para um declínio estrutural. Em certo sentido, esta campanha e a eliminação foram a tempestade perfeita: todos os fatores que levaram a esse declínio se juntaram.”

O primeiro desses fatores, segundo ele, é externo — mas a reação brasileira a ele é o cerne do problema.

“O Brasil simplesmente foi ultrapassado pela Europa. A Europa industrializou sua formação de base, sua produção de talentos. Os exemplos são numerosos: Bélgica, Holanda, Croácia, Inglaterra, França e, em certa medida, a Noruega”, afirma.

“E existe no Brasil, eu acho, um sentimento de negação. Quando você conversa com jornalistas ou treinadores brasileiros, o discurso é sempre: ‘somos pentacampeões do mundo, somos a seleção do futebol’. Mas a realidade é que outras nações desenvolveram seus sistemas de formação e de detecção de talento. Por maior que o Brasil seja, em termos futebolísticos e geográficos, não dá mais para se esconder atrás da ideia de que, como nação, você sempre vai produzir talento, aconteça o que acontecer.”



Derrota nas oitavas de final marca a pior campanha do Brasil em Copas desde 1990 e amplia o jejum de títulos mundiais

Derrota nas oitavas de final marca a pior campanha do Brasil em Copas desde 1990 e amplia o jejum de títulos mundiais

Foto: Tita Barros/ Reuters / BBC News Brasil

‘Uma geração muito mediana’

Na leitura de Kunti, o elenco levado aos Estados Unidos é o retrato dessa linha de produção em queda — não por falta de jogadores valiosos no mercado, mas por escassez de estrelas de primeira grandeza.

“Se você se perguntar quantos astros globais jogam nesta seleção, acho que a resposta é muito limitada. É o Vinícius Júnior, obviamente, e dá para argumentar que Gabriel e Marquinhos, na defesa, também são jogadores de classe mundial”, diz.

“Mas, tirando esses, esta é uma geração muito mediana de jogadores brasileiros. Não são os astros dos elencos de antigamente, quando você tinha Kaká, Ronaldo, Rivaldo, Roberto Carlos, Cafu — todos nomes conhecidos no mundo inteiro.”

O diagnóstico convive com um paradoxo que os números do mercado escancaram — e, ao mesmo tempo, confirmam. O Brasil lidera, pelo sétimo ano consecutivo, o ranking mundial de exportação de jogadores do CIES Football Observatory: são 1.455 brasileiros atuando no exterior, à frente de França (1.275) e Argentina (1.066), segundo o levantamento divulgado em maio. Nenhum país produz mais futebolista. Mas, quando o critério deixa de ser quantidade e passa a ser valor, a posição muda: o elenco levado à Copa é apenas o sexto mais valioso do torneio, avaliado em cerca de R$ 5,5 bilhões (€943 milhões) pelo Transfermarkt — atrás de Inglaterra (cerca de R$ 9,4 bilhões), França, Espanha, Alemanha e Portugal.

Em outras palavras, o próprio mercado já precificou o que Kunti descreve: o Brasil segue sendo a maior linha de produção do futebol mundial, mas deixou de ser a fábrica da elite. E a série de resultados em Mundiais acompanha a curva: quartas de final em 2006, 2010 e 2018, o 7 a 1 na semifinal de 2014, a queda nos pênaltis para a Croácia em 2022 e, agora, as oitavas de 2026.

Um tabu de 38 anos: o Brasil nunca venceu a Noruega

A derrota deste domingo também prolongou uma das séries mais singulares do futebol de seleções: em cinco confrontos ao longo de 38 anos, o Brasil jamais derrotou a Noruega — três derrotas e dois empates.

O histórico começa em 1988, com empate em amistoso em Oslo. Em 1997, novamente na capital norueguesa, a Noruega venceu por 4 a 2. Um ano depois veio o capítulo mais célebre: na fase de grupos da Copa de 1998, os noruegueses viraram nos minutos finais e ganharam por 2 a 1, com pênalti convertido por Kjetil Rekdal — lance contestado pelos brasileiros à época, mas confirmado depois por imagens de TV que mostraram a falta sobre Tore André Flo. O quarto encontro, amistoso em 2006, terminou 1 a 1. O quinto foi o deste domingo — o primeiro em mata-mata, e o de maior consequência.

Em campo, o roteiro condensou as contradições do time. O Brasil desperdiçou um pênalti com Bruno Guimarães no primeiro tempo e a Noruega abriu o placar apenas aos 34 minutos do segundo tempo. Foi o suficiente para Erling Haaland decidir, com gols aos 79 e aos 90. Neymar descontou de pênalti nos acréscimos.

Há ainda um padrão mais amplo, observa Kunti: foi a sexta vez que o Brasil caiu para uma seleção europeia no mata-mata de uma Copa. “Não acho que isso tenha pesado ontem — a Noruega foi simplesmente o melhor time. Mas é algo a se levar em conta”, pondera, sugerindo que a sequência começa a construir também uma barreira mental.

E há o incômodo simbólico do algoz. “Noruega, Bélgica, Croácia são seleções que o Brasil, no passado, normalmente venceria — e que, do ponto de vista brasileiro, são de certa forma ‘pequenas’, porque nunca ganharam nada de grande”, diz Kunti. “Então existe sempre aquela surpresa entre os brasileiros: ‘estamos perdendo para a Noruega? Quem é a Noruega?’. E isso volta ao meu ponto: o Brasil está vivendo em negação.”



Jogo teve vitória da Noruega com 2x1

Jogo teve vitória da Noruega com 2×1

Foto: Getty Images / BBC News Brasil

O projeto norueguês: talento maximizado — e em ciclos

Quem é a Noruega, afinal? Um país de 5,5 milhões de habitantes — menos que a população da cidade do Rio de Janeiro — que não disputava uma Copa desde 1998 e nunca havia passado das oitavas. A classificação às quartas conquistada sobre o Brasil é a melhor campanha da sua história.

Para Kunti, não se trata de acaso, mas também não é mágica: é aproveitamento máximo de um elenco bom, construído por uma federação que se profissionalizou. “Se você olhar o elenco da Noruega, é bastante talentoso. Tem o talismã Haaland, tem Martin Ødegaard, mas também outros talentos, como Julian Ryerson na lateral e Oscar Bobb na ponta. Talvez não seja um time de classe mundial em todas as linhas, mas eles usaram o que têm no elenco e maximizaram isso”, analisa.

Ele cita como exemplo a leitura de jogo do técnico Stale Solbakken na própria partida: as substituições nas pontas no intervalo, que “trouxeram mais ímpeto ao jogo”.

Por trás do time, aponta, há gestão: “A federação norueguesa e a liderança de Lise Klaveness, uma das poucas mulheres presidentes de federação, realmente elevaram o nível do desenvolvimento do futebol do país nos últimos anos”.

Kunti faz, porém, uma ressalva que devolve a discussão ao Brasil: projetos como o norueguês funcionam em ciclos. “A Noruega vai produzir uma geração de jogadores como esta a cada quatro ou oito anos? Não. Você vê o mesmo com a Bélgica ou a Holanda — funciona em ciclos. Mas isso não significa que, à medida que continuem melhorando, não vejamos mais grandes talentos noruegueses no futuro.”

Ancelotti, o ciclo desperdiçado e o calendário que sufoca ideias

A CBF confirmou, horas após a eliminação, a permanência de Carlo Ancelotti, com contrato até 2030 — renovado antes mesmo do início da Copa. “Cabe a nós agora ressaltar a necessidade de termos um ciclo dentro de uma normalidade, com um pouco mais de calma”, afirmou Rodrigo Caetano, diretor executivo de seleções. O próprio técnico tratou a queda como transição: “Uma derrota é o começo de uma nova aventura. Não é um fim, é o início de um novo ciclo”.

Kunti vê a questão do treinador com nuance — e deixa claro quando fala de dados e quando dá opinião. Primeiro, o contexto: “Ancelotti teve muito pouco tempo para trabalhar com este time, depois que a CBF basicamente desperdiçou quase todo o ciclo pós-Copa de 2022”. Depois, a avaliação: “Este é um ponto de vista pessoal, mas acho que Ancelotti é o técnico errado para o Brasil. O problema é que ele é um treinador pragmático: olha o elenco, vê quais jogadores tem à disposição e monta o time a partir daí. Não sei se isso é suficiente. Muitos comentaristas diziam que ele era perfeito para o Brasil nesta Copa porque sabe vencer torneios — mas isso claramente não se materializou.”

A contratação de um estrangeiro, em si, ele considera um acerto — pelo que revela sobre o ambiente doméstico. “É ótimo que o Brasil tenha nomeado seu primeiro técnico estrangeiro da história moderna, porque o futebol brasileiro precisa de ideias. O calendário doméstico não permite que treinadores desenvolvam ideia nenhuma — é implacável, e a mídia e a torcida só querem vencer o próximo jogo”, afirma.

E lembra que os contraexemplos recentes vieram de fora: “O Jorge Jesus chegou ao Flamengo em 2019 e mostrou que dá para jogar um futebol progressivo, vencer com futebol ofensivo e uma filosofia de verdade. O Abel Ferreira, no Palmeiras, tem uma filosofia totalmente diferente, às vezes apelidado de ‘Mini Mourinho’ — mas os dois portugueses mostram que é possível trabalhar em torno de filosofias. Poucos treinadores brasileiros fazem isso, com exceções como o Tite.”

O espelho alemão: ‘Só se reconstrói quem aceita a nova realidade’

Se a negação é o diagnóstico, Kunti aponta um caso clínico paralelo — e é um dos gigantes da modernidade do futebol.

“Dá para se referir à Alemanha também: a Alemanha está vivendo em negação. Eles não são realmente competitivos desde 2014, quando venceram o Brasil por 7 a 1 naquela semifinal histórica. E talvez precisem perceber que já não são um top 5, um top 10”, compara.

“E isso vale para o Brasil também. Não é mais garantido que a seleção chegue às quartas ou às semifinais de uma Copa. Acho que, quando você aceita isso, consegue se reconstruir de verdade. Mas isso vai depender de uma mudança completa de mentalidade — da CBF, dos clubes e dos treinadores — para reconhecer essa nova realidade.”



Alemanha foi eliminada pelo Paraguai na primeira fase do mata-mata

Alemanha foi eliminada pelo Paraguai na primeira fase do mata-mata

Foto: Getty Images / BBC News Brasil

O risco, segundo ele, é o rito conhecido que se segue a cada eliminação — barulhento na superfície, inócuo na estrutura. “Quando o Brasil é eliminado, há sempre uma inquisição da mídia e da torcida: as coisas têm que mudar, têm que melhorar. Mas, no nível micro, no chão, as coisas realmente mudam?”, questiona.

A resposta dele, ainda assim, não é um atestado de óbito. “O futebol brasileiro não está morto e enterrado, mesmo que hoje, na manhã seguinte à eliminação, pareça que sim.”

O que os dados já estabelecem, independentemente do que vier pela frente: o Brasil chegará à Copa de 2030 com pelo menos 28 anos sem título, vindo da sua pior campanha em nove Mundiais — eliminado por um país que, com uma fração dos seus recursos e da sua tradição, transformou planejamento na melhor campanha da própria história. Aceitar o tamanho do problema, sugere Kunti, seria o primeiro passo da reconstrução. É justamente o passo que, até aqui, o futebol brasileiro se recusou a dar.



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