Foda-se, disse o furriel que limpava as botas com os dedos, Pois é, disse eu, e acho que até hoje nunca tive um diálogo tão comprido com quem quer que fosse». António Lobo Antunes, Os Cus de Judas.
Já explicarei a que propósito vem aqui uma das melhores frases de Lobo Antunes que conheço. Comecemos pelo princípio: fui a um laboratório de análises fazer as ditas. Fez-se o registo, paguei, fizeram-se as recolhas, e fui à minha vida. Muito pouco tempo depois recebi uma mensagem no telemóvel que dizia qualquer coisa como isto: «Fez as suas análises no lugar tal, os resultados ser-lhe-ão enviados até dia tantos, para o email xis». Mas o endereço de email estava errado na mensagem, faltava uma letra. Ora, como eu, entre outros males, sofro de organização e de hipocondria, decidi logo resolver o assunto, com a mesma urgência com que o Pacheco pedia uma de vintes a meio mundo. De imediato, liguei para o laboratório para corrigir o endereço. O telefone toca, uma, duas, três vezes, e atende uma senhora artificial (dita ‘assistente virtual’), que de imediato começa com a lengalenga do «ligou para o laboratório tal, para português marque 1, for english press 2», e assim por diante; o que é uma coisa que me começa logo a irritar um bocadinho, mas okay, nada de mais, não adianta suspirar pela era analógica, seria o mesmo que aspirar a ser jovem outra vez. E continua a senhora artificial, naquele tom de voz sem emoções e sem inflexões: «Para fazer uma marcação, marque 1, para desmarcação marque 2, para remarcação marque 3, para obter resultados marque 4, para isto e aquilo marque mais não sei quantos números, para falar com um operador marque 8». Nenhuma das 7 primeiras opções me servia (porque corrigir endereços de email pelos vistos não é tema), e também nenhuma delas era ‘outros assuntos’; por isso, obviamente, marquei 8 e por um segundo esperei feliz pelo operador. Mas não, respondeu-me a mesma senhora, com a mesma voz, dizendo «para falar com um operador identifique o assunto, se for marcação marque 1, desmarcação 2, et cetera». Comecei a ficar mesmo irritado e comecei a dizer ao telefone, com uma voz projetada e falando devagar e com a melhor dicção que me ocorria (como faço sempre que tenho de falar com estas vozes artificiais e inteligentes) «quero corrigir o endereço de email», ao que a voz me respondeu «não entendi, para falar com um operador identifique o assunto, se for marcação marque 1, desmarcação 2, et cetera», e isto repetiu-se para aí uma meia dúzia de vezes, ela sempre igual, eu apenas subindo o grau de irritação, levantando mais e mais a voz, e juntando à pretensão de corrigir o endereço de email um «quero falar com um operador», já quase gritando. Nunca resultou. E eu estava – como dizem hoje os adolescentes – tipo a passar-me.
E à sétima resposta igual da vozinha monocórdia, saiu-me em resposta, bem sonora e com ponto de exclamação, a palavra que lá em cima, na abertura deste texto, se diz que o furriel disse. Assim mesmo, sem tirar nem pôr. E não é que a senhora artificial se calou, e ouve-se aquele barulho que indica que uma chamada está a ser passada, e finalmente atende-me uma operadora, que com voz de pessoa me diz bom dia, diz o nome e pergunta-me em que pode ajudar. E eu, muito mais calmo já, sob o efeito quase opiáceo da voz humana, explico. Ela, muito eficiente, consulta o registo, e diz-me que não me preocupe, que o endereço está certo, o sistema é que gerou uma mensagem automática para o meu telemóvel e nela escreveu erradamente o endereço. E quer saber se pode ajudar em mais alguma coisa, eu digo que não, agradeço, ela despede-se, cordial. E nisto passaram quase dez minutos, sendo os primeiros sete, bem medidos, gastos no meu diálogo de surdos com a vozinha do marque isto ou marque aquilo. Já calmo, pus-me a refletir, e concluí, tão rapidamente quanto consegue a mente humana, que a inteligência artificial é mesmo muito inteligente, e até de uma forma sofisticada, como hoje sói dizer-se. Primeiro, porque tem um pensamento literário afinado, tendo logo compreendido onde eu queria chegar quando citei a fala do furriel no soberbo livro de Lobo Antunes. Segundo, porque não posso deixar de supor que ela percebeu desde o início tudo que eu queria, mas quis levar-me até àquele extremo, por duas razões: uma, para me irritar, sabendo que a irritação pode fazer adoecer, e logo eu precisaria de mais análises (ou seja, uma soberba técnica de business development); outra, porque mal eu abri a boca a primeira vez, ela, com aquela muito elevada capacidade que devemos reconhecer a estas e a outras coisas da era digital, seguramente percebeu logo que eu gostava de livros em geral e de Lobo Antunes em particular, pelo que adivinhou que eu me sairia com a eloquência do furriel. E com isso, com esse truque literário, conquistou-me definitivamente para este laboratório, quando precisar de mais análises. Muito inteligente, brilhante mesmo. Fo…
Advogado











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