Não têm cabimento férias escolares durante Copa do Mundo feminina


É descabido o trecho da lei sobre a Copa do Mundo feminina determinando férias escolares durante todo o evento, entre 24 de junho e 25 de julho do ano que vem. Encaminhado pelo governo, o projeto para atender a demandas da Fifa foi aprovado pelo Senado em maio e sancionado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva no mês passado.

Executivo e Legislativo deveriam ter aprendido com a Copa do Mundo de 2014. Na época, uma lei determinou ajuste semelhante nos calendários escolares, mas, em seguida, um parecer do Conselho Nacional de Educação deu autonomia às escolas e às redes de ensino para decidir o que fazer. Nas cidades-sede em que houve atividade escolar durante o torneio, os alunos foram liberados nos horários ou dias dos jogos do Brasil e das partidas jogadas no local. O mesmo princípio deveria valer no ano que vem.

Períodos de férias representam sempre um desafio. Não apenas para crianças menores, que exigem mais atenção, mas também para as que têm mais autonomia e não devem ser deixadas sem supervisão adulta. Pais e mães sofrem com mudanças no calendário escolar. É necessário refazer arranjos já estabelecidos com parentes ou cuidadores e alterar planos. Em alguns estados, como o Rio, não é comum haver férias extensas no meio do ano. O recesso costuma durar entre dez dias e três semanas. Se durar mais, pode ser necessário repor aulas aos sábados ou em períodos em que as crianças e jovens costumam estar fora da escola. De um jeito ou de outro, há estresse para famílias e estudantes.

“Antecipar ou prorrogar o calendário escolar é sempre muito custoso para as redes. Além dos problemas da escola, as famílias precisariam se ajustar. Ninguém combinou com os empregadores”, disse ao GLOBO Felipe Michel Braga, presidente do Fórum Nacional de Conselhos Estaduais e Distrital de Educação. “Quem vai ficar com as crianças nesse período? E o Enem? É no fim do ano para que os alunos tenham todos os conteúdos do 3º ano. Será adiado?”

A Fifa tem razão em se preocupar com a logística dos torneios que organiza. Na última Copa do Mundo feminina, na Austrália e na Nova Zelândia em 2023, a taxa de ocupação nos estádios durante as 64 partidas chegou a 87%, próxima à média de 100% da atual competição masculina. Na final vencida pela Espanha, todos os 75.784 ingressos foram vendidos. O fluxo de turistas, porém, foi pequeno. De acordo com o governo australiano, 86.654 estrangeiros vieram para o torneio, uma fração em comparação aos números projetados para Estados Unidos, Canadá e México neste ano.

Não há razão para supor um fluxo gigantesco no ano que vem. A preocupação com aeroportos lotados e trânsito parado é exagerada. O Brasil tem plenas condições de organizar uma Copa do Mundo feminina que bata novos recordes de público, sem atrapalhar estudantes e seus familiares.



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