Cartão suspenso, sorteios e CIA: como a Copa alimenta teorias da conspiração


A Copa do Mundo sempre foi mais do que futebol. Pela dimensão global, pelo peso político e pelo impacto econômico, o torneio costuma transformar decisões de arbitragem, sorteios e bastidores em combustível para teorias da conspiração. Em 2026, não foi diferente.

As suspeitas voltaram a ganhar força após a Fifa suspender a punição de Folarin Balogun, expulso na fase de grupos, permitindo que o atacante defendesse os Estados Unidos nas oitavas de final contra a Bélgica. A decisão já seria incomum por si só. Mas o fato de Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, ter telefonado para Gianni Infantino, presidente da Fifa, para reclamar do cartão vermelho fez a especulação crescer imediatamente.

Dias depois, a derrota do Egito para a Argentina, por 3 a 2, nas oitavas de final, também alimentou reclamações. O atacante egípcio Mostafa Ziko afirmou que o troféu parecia “direcionado à Argentina”, em referência à seleção de Lionel Messi.

O ambiente é conhecido. Em Copas do Mundo, cada lance ganha escala planetária. Um erro de arbitragem, uma decisão administrativa ou um sorteio favorável pode ser reinterpretado por torcedores, jogadores e imprensa como parte de algo maior.

Uma das teorias mais recorrentes envolve o sorteio dos grupos. A suspeita costuma reaparecer a cada edição, especialmente quando os anfitriões recebem adversários considerados acessíveis.

Em 2026, México, Canadá e Estados Unidos foram colocados em grupos que rapidamente geraram debates. O Canadá teve um dos caminhos teoricamente mais favoráveis, com Catar, Bósnia e Herzegovina e Suíça. O México também ficou em uma chave vista como administrável. Já os Estados Unidos, ao contrário do que dizem algumas teorias, tiveram uma sequência mais complicada, com Paraguai, Austrália e Turquia.

A discussão, no entanto, mostra como a Copa é terreno fértil para suspeitas. Mesmo quando os números não sustentam completamente a ideia de manipulação, a combinação entre anfitriões, interesses comerciais e desejo de audiência costuma bastar para que a desconfiança apareça.

Entre as histórias mais famosas está a final da Copa de 1998. Ronaldo, principal estrela do Brasil, sofreu uma convulsão horas antes da decisão contra a França, chegou a ficar fora da escalação inicial e depois entrou em campo. Teve atuação apagada na derrota por 3 a 0.

O episódio gerou uma das maiores teorias da história das Copas: a de que Ronaldo teria sido pressionado a jogar por interesses comerciais da Nike, patrocinadora do jogador e da seleção brasileira. Uma CPI foi aberta no Brasil para investigar a relação entre a CBF e a empresa. O próprio Ronaldo negou pressão.

— Só joguei depois que os exames médicos mostraram que eu estava clínica e fisicamente apto. A única coisa que a Nike me pediu foi que eu usasse as chuteiras deles — afirmou o atacante, em depoimento.

Quatro anos depois, a arbitragem virou centro das suspeitas na Copa de 2002. A campanha da Coreia do Sul, uma das anfitriãs, até as semifinais foi marcada por decisões polêmicas nas vitórias contra Itália e Espanha.

O caso mais lembrado envolve Byron Moreno, árbitro equatoriano do jogo entre Coreia do Sul e Itália. Ele expulsou Francesco Totti por simulação, ignorou lances reclamados pelos italianos e viu os sul-coreanos vencerem com gol de ouro. Nenhuma irregularidade foi comprovada, mas Moreno se tornou símbolo de suspeita para torcedores italianos.

Na Copa de 2026, a arbitragem voltou ao centro do debate por outro motivo: a percepção de maior tolerância ao contato físico. Houve quem interpretasse a orientação de deixar o jogo fluir como uma tentativa de tornar as partidas mais atraentes ao público americano.

A entrada de Messi em Aissa Mandi, da Argélia, sem cartão vermelho, foi usada por críticos como exemplo de suposta proteção às estrelas. Especialistas em arbitragem, porém, avaliaram que o lance não tinha intensidade suficiente para expulsão. Ainda assim, em um Mundial, a imagem de um astro poupado costuma falar mais alto que a explicação técnica.

Algumas teorias atravessam décadas. Em 1970, a ausência de Gordon Banks nas quartas de final entre Inglaterra e Alemanha Ocidental gerou uma das histórias mais curiosas. O goleiro inglês, campeão mundial em 1966, ficou fora por gastroenterite. Sem ele, a Inglaterra perdeu por 3 a 2 após abrir 2 a 0.

A versão conspiratória aponta que Banks teria sido envenenado para facilitar uma eventual caminhada do Brasil ao título, em meio ao interesse da ditadura militar brasileira em usar a seleção como instrumento de popularidade. A teoria chegou a envolver até a CIA, embora nunca tenha sido provada.

O Brasil também aparece em outra história famosa. Na Copa de 1990, Branco afirmou ter se sentido mal depois de beber de uma garrafa oferecida durante o jogo contra a Argentina, pelas oitavas de final. Pouco depois, Caniggia marcou o gol da vitória argentina.

A suspeita era de que a bebida teria sido adulterada com tranquilizante. A acusação nunca foi comprovada, mas ganhou força anos depois, quando Carlos Bilardo, técnico argentino daquela equipe, não negou completamente a possibilidade.

A Argentina de 1978 é outro capítulo recorrente. Jogando em casa, a seleção precisava vencer o Peru por quatro gols de diferença para chegar à final. Goleou por 6 a 0. O resultado, em plena ditadura militar argentina, deu origem a acusações de acordo político entre governos, suborno e pressão sobre jogadores peruanos.

Nada foi oficialmente comprovado, mas a partida permanece como uma das mais contestadas da história das Copas.

O padrão se repete porque a Copa do Mundo reúne todos os ingredientes necessários para a desconfiança: paixão nacional, pressão política, grandes marcas, bilhões em jogo e decisões tomadas em frações de segundo. Em muitos casos, as teorias sobrevivem não pela força das provas, mas pela força simbólica dos episódios.



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