É no dia da inauguração do corner no CascaiShopping que Julia Velcheva e Dmitri Lutek falam ao Observador. A madeirense Joana Fonseca incentiva Velcheva a falar português para convidar os seguidores a juntarem-se. “Olá! Venham, já cá estou”, diz a russa, que apesar de se mostrar diariamente nas redes sociais, tem uma presença tímida e discreta. Aos 40 anos, passa facilmente por alguém 10 anos mais jovem; veste calças e t-shirt pretas, tem os cabelos loiros soltos e usa uns óculos de ver grandes com armação metálica. Um look que, tal como a cozinha de casa, transpira minimalismo. O colar e os brincos Chanel completam o visual e comunicam aquilo que muitos seguidores gostam de comentar, em tom de brincadeira, nos vídeos de receitas que vão de lagosta a caviar. “Primeiro ingrediente: Dinheiro!”, lê-se, no TikTok. No Instagram, onde as fãs brasileiras dominam, mais piadas com as receitas “ricas” da influencer. “Gente, a cebola roxa eu tenho”, comenta ironicamente uma seguidora, num vídeo em que Velcheva prepara um molho bisque, caldo com camarões, legumes e vinho branco.
Foi aliás este o primeiro vídeo neste formato a viralizar, recordam Julia e Dmitri. Juntos há 22 anos, o marido da influencer acompanha a mulher em tudo — é para ele o segundo prato que aparece em todos os vídeos. Tão ou mais estiloso que a mulher — usa Louis Vuitton na parte de cima e Gucci nos pés — vai de cameraman a manager. “Ela cozinha sempre com a mesma elegância. Antes de começar a filmar geralmente digo-lhe: ‘Sorria!’ Ou sugiro que corte mais rápido, como fazem os chefs. Mas quando começa a cozinhar, ela bloqueia as emoções, fica totalmente concentrada”, conta, empolgado, Dmitri. “Não penso muito sobre as minhas expressões faciais ou o que está ao meu redor. Muitas pessoas dizem que assistir aos meus vídeos é como meditar“, partilha Velcheva. “Ontem, no restaurante em que jantámos, o chef sugeriu que provássemos carabineiro com molho bisque. O meu primeiro vídeo viral, com mais de um milhão de visualizações, foi este molho. Porque as pessoas acharam muito estranho que eu estivesse a triturar as cascas dos camarões junto com os legumes”, recorda, sobre a publicação que a lançou ao mundo das influencers de lifestyle internacionais.
Cozinha por hobby, não repete receitas, e sempre que aparece a cozinhar algo novo, garante, é a primeira vez. “Quando fiz o bisque encontrei a receita no Instagram e achei muito interessante. Vi um vídeo e não pensei muito sobre se as pessoas iriam gostar, mas quis repetir. Às vezes, se provo alguma comida muito boa noutro país, posso tentar reproduzir num vídeo”, conta a influencer, que “coleciona” países — diz já ter visitado 67. “Todas as férias tentamos visitar um país novo”, diz, assumindo a preferência, até agora, por um destino não tão popular. “Namíbia!”, atira logo o casal, ao mesmo tempo. “Não há tantas pessoas, carros, estradas. Podes conduzir por 500 quilómetros e só ver girafas”, diz a influencer.
No corner ocupado pela by Velcheva no CascaiShopping há um ecrã sempre a passar os vídeos da influencer, mas a marca quase não ganhou este nome. Antes do sucesso na cozinha, Julia e Dmitri já trabalhavam com as redes sociais. Juntos, os dois partilhavam conteúdos de viagem, que misturavam com os produtos aromáticos comercializados sob a marca que construíram há oito anos na Rússia, a Kaori, que continua ativa. Na Europa, o nome já estava a ser usado por outras empresas, pelo que o casal teve que mudar. “Tentámos encontrar um novo nome. Criei vários nomes. Queria algo curto e simples”, recorda a influencer. “Eu sugeri que fosse o nome dela. Queria tornar o seu nome famoso”, brinca Dmitri. “É engraçado, porque no início as pessoas viam-me na rua e diziam: ‘La chica del TikTok! Um ano depois, talvez, chamavam-me Velcheva. Agora, chamam-me Julia“.
O casal deixou Moscovo em 2022, meses depois de começar a guerra na Ucrânia. Até ao final daquele ano já tinha estabelecido a nova marca em Espanha, com produção local. “Sentimo-nos descontraídos, reage Velcheva, ao ser questionada sobre qual foi a sensação ao chegar em Valência. Contudo, apesar de a mudança coincidir com o início da invasão, os dois preferem não comentar o conflito. “Perdemos o nosso tempo a cada minuto. É nossa decisão como vamos gastar este tempo: a falar de política ou a falar do futuro, dos nossos filhos, de coisas boas”, assinala Dmitri. “Não escutamos quando as pessoas falam sobre coisas más. Mas se trouxerem boas emoções, então devolvemos com boas emoções. Não temos uma posição, porque exploramos o mundo, portanto temos a chance de virar as nossas mentes para a natureza e não para a política”.











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