Infantino enfrenta crise; UEFA e CONCACAF declaram perda de confiança após descarte de acordo da Copa do Mundo


O presidente da FIFA, Gianni Infantino, está sob fogo cruzado sem precedentes depois que as confederações regionais UEFA e CONCACAF declararam ‌no sábado que perderam a confiança em sua liderança após o abandono de seu plano de vender uma participação nos direitos comerciais da Copa do Mundo.

As consequências dramáticas da proposta descartada de Infantino, de US$4,2 bilhões, expuseram um crescente desconforto no futebol mundial em relação ao seu estilo de liderança, com a UEFA, entidade que rege o futebol europeu, liderando um coro de críticas que podem complicar suas chances de reeleição.

A proposta da FIFA desencadeou uma forte reação negativa das confederações regionais, que afirmaram terem sido pegas de surpresa pelos planos de Infantino de vender participações a investidores privados em uma nova unidade que administraria eventos da FIFA, incluindo a Copa do Mundo.

Dirigentes do ⁠futebol agora exigem maior controle sobre decisões que podem remodelar a governança e o futuro comercial do esporte.

A UEFA, cujos 55 membros rejeitaram unanimemente a proposta no início desta semana, ‌declarou a retirada da FIFA uma “vitória para todo o futebol”, acrescentando que a “tarefa de reconstruir a confiança na FIFA” estava apenas começando.

“A atual direção da FIFA não só perdeu a confiança da UEFA, como também a de muitos outros membros da família do futebol”, afirmou a UEFA em comunicado.

“A UEFA agradece a todos os torcedores, ligas, clubes, ‌jogadores, indivíduos, associações e confederações que se opuseram ao projeto, bem como aos muitos primeiros-ministros, chefes de Estado ‌e comentaristas que demonstraram ao presidente da FIFA que o futebol não está à venda”, afirmou em comunicado.

“Não podemos continuar assim, com esquemas secretos em ritmo ⁠acelerado, arquitetados por indivíduos sem rosto e de duvidoso benefício para o jogo. Devemos identificar os responsáveis e responsabilizá-los.”

A confederação da América do Norte, América Central e Caribe (CONCACAF) afirmou que a proposta foi apresentada fora de todos os processos de governança estabelecidos, sem transparência, consulta ou devido processo legal.

“Uma proposta desta magnitude não chega a este ponto por acaso. É sintoma de uma liderança que deixou de priorizar o futebol”, dizia o texto.

“Este recente ato unilateral e flagrante de má governança e liderança segue um padrão de erros e comportamentos semelhantes. Uma análise completa desta presidência é imprescindível.”

“NEGÓCIO SUJO E SECRETO”

A reação negativa levantou questões sobre o capital político de Infantino, que se prepara para concorrer ‌a mais um mandato.

A UEFA lembrou Infantino das promessas que ele fez quando foi eleito presidente da FIFA em 2016, incluindo o compromisso de administrar a entidade máxima do futebol de ‌forma transparente e de tratar os fundos da FIFA ⁠como pertencentes às suas associações-membro.

“Ele não cumpriu nenhuma ⁠dessas promessas. O acordo obscuro, sórdido e feito nos bastidores que ele arquitetou e tentou impor foi tudo menos transparente”, acrescentou a UEFA.

“E com reservas superiores a US$5 bilhões, ele também ⁠não conseguiu usar o dinheiro das associações em benefício do esporte.”

“A UEFA começará imediatamente a trabalhar com parceiros ‌e partes interessadas em todo o mundo e em ‌todo o futebol para propor uma nova forma de distribuir recursos através do programa FIFA Forward existente.”

A FIFA e Infantino recusaram-se a comentar a declaração da UEFA.

A Federação Holandesa de Futebol afirmou que o processo levou a uma “quebra fundamental de confiança” em Infantino, enquanto o presidente da Federação Alemã de Futebol, Bernd Neuendorf, disse que o dirigente suíço “agiu unilateralmente e sem transparência”, deixando de agir no melhor interesse do esporte.

A presidente da Federação Norueguesa de Futebol, Lise Klaveness, afirmou que “a ⁠estrutura de cooperação internacional no futebol foi desnecessariamente colocada em risco em busca de interesses individuais”.

No entanto, Infantino recebeu apoio do Catar, que afirmou que a proposta tinha mérito e apoiou integralmente seus esforços.

O presidente da Federação Marroquina de Futebol (FRMF), Fouzi Lekjaa, também saudou a decisão de retirar a proposta, mas reiterou seu apoio a Infantino.

TEMPESTADE DE OPOSIÇÃO

O plano de Infantino, anunciado na terça-feira, rapidamente enfrentou uma onda de oposição das confederações regionais, que reclamaram de não terem sido consultadas sobre uma medida que poderia alterar a estrutura comercial do futebol mundial.

Após a repercussão negativa, Infantino afirmou que a entidade máxima do ‌futebol mundial abandonou os planos depois de ouvir “atentamente todas as opiniões”.

O presidente da Confederação Asiática de Futebol, Sheikh Salman bin Ebrahim Al-Khalifa, saudou no sábado a reversão da decisão da FIFA.

O xeque Salman do Barein afirmou esperar que “qualquer iniciativa com potencial para impactar o futebol mundial seja apresentada e discutida com as Confederações, o Conselho da ⁠FIFA, as Associações Membro e outras partes interessadas de maneira oportuna, transparente e significativa”.

“O futuro do futebol mundial deve sempre ser moldado por meio de consultas adequadas, diálogo coletivo e respeito pelas estruturas de governança estabelecidas em nosso esporte.”

O presidente da Federação Australiana de Futebol, Anter Isaac, adotou uma postura semelhante, apoiando a inovação, mas alertando contra o desrespeito a princípios fundamentais como integridade, independência, boa governança, transparência, consulta significativa e devido processo legal.

A polêmica surge em um momento delicado para Infantino, que afirmou em abril que pretendia se candidatar à reeleição para um quarto mandato como presidente da FIFA.

Desde que assumiu o cargo de Sepp Blatter em 2016, ele foi reeleito sem oposição duas vezes e demonstrou ter o controle firme da organização.

Embora sua reeleição para o mandato de 2027-31 parecesse uma formalidade, especialistas disseram à Reuters que a reação negativa à proposta fracassada expôs a insatisfação de alguns membros da FIFA e pode complicar seu caminho antes do Congresso da FIFA em março do próximo ano, no Marrocos.

“Ele obviamente tem sido meio egocêntrico em tudo o que fez. Sei que ele desagradou muitas das associações filiadas com algumas de suas decisões”, disse Bob Dorfman, analista de marketing esportivo.

A rapidez dessa reviravolta foi particularmente impressionante, ocorrendo menos de duas semanas depois de Infantino ter comemorado a Copa do Mundo de maior sucesso comercial da história.

“Há apenas duas semanas, ele estava no auge do sucesso, no maior megaevento esportivo da história do planeta”, disse o economista Victor Matheson, especialista em negócios esportivos do College of the Holy Cross, em Massachusetts.

“E apenas duas semanas depois, ele está lutando por sua sobrevivência política.”



Source link

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *