Jovens e mulheres de Angola e da RD Congo apostam no empreendedorismo para vencer o desemprego – Mercado


Ao longo do Corredor do Lobito, uma das apostas mais ambiciosas do continente na integração económica, a Organização Internacional do Trabalho (OIT) quer transformar centros de formação profissional em fábricas de pequenos empresários

Ao longo dos mais de 1.300 quilómetros de ferrovia que ligam o porto do Lobito, em Angola, ao Cinturão de Cobre da Zâmbia e à província congolesa de Katanga, uma outra transformação, menos visível do que os comboios de carga, está em curso: a de preparar milhares de jovens e mulheres para deixarem de procurar emprego e passarem a criá-lo.

É esse o objectivo da nova iniciativa apoiada pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), que aposta na empregabilidade e na autonomia económica de jovens e mulheres de Angola e da República Democrática do Congo (RD Congo), integrada na assistência técnica da agência da ONU ao Corredor Económico Transnacional RDC-Angola — o mesmo projecto de modernização ferroviária e portuária que a União Europeia, os Estados Unidos e o Banco Africano de Desenvolvimento identificam como a primeira ligação ferroviária transcontinental de acesso aberto em África, com potencial para desbloquear décadas de potencial económico represado na região.

O foco mais inovador da iniciativa está na integração de ferramentas de formação em empreendedorismo directamente nos currículos dos centros de formação profissional angolanos e congoleses. Na prática, isto significa que, além das competências técnicas que já aprendiam, os alunos passam também a saber identificar oportunidades de negócio, desenvolver actividades de maior rendimento e criar as suas próprias empresas — competências que a OIT considera decisivas para alargar o leque de percursos profissionais disponíveis aos jovens da região, num contexto em que o emprego formal continua escasso e a informalidade domina grande parte da economia.

Vinte formadores, cem novos empreendedores

Os números, ainda modestos, já traçam uma tendência: entre Março e Junho, 20 formadores dos centros de formação profissional-piloto — quatro dos quais mulheres — foram capacitados nas metodologias de criação e desenvolvimento de negócios. Essas mesmas unidades curriculares permitiram, de seguida, que 100 recém-graduados reforçassem as suas competências empreendedoras, 60 dos quais mulheres — uma proporção que reflecte a aposta deliberada da iniciativa em reduzir as desigualdades de género no acesso a oportunidades económicas.

O efeito multiplicador já é visível no terreno: depois de concluída a formação, 20 consultores de negócios ministraram, por sua vez, formações em gestão empresarial a 100 empreendedores já activos, incluindo 59 mulheres — um modelo em cascata que a OIT espera continuar a replicar nos próximos meses.

Esta iniciativa da OIT não surge isolada. Insere-se numa vaga mais ampla de investimento no empreendedorismo juvenil angolano, que inclui o Projecto Crescer — programa de 106 milhões de euros do Ministério do Planeamento, cofinanciado pelo Banco Africano de Desenvolvimento, pelo Governo angolano e pela União Europeia, com o objectivo de criar mais de 37 mil postos de trabalho directos e formar quase 100 mil jovens entre os 15 e os 35 anos, também aqui com pelo menos metade das vagas reservadas a mulheres, em províncias directamente atravessadas pelo Corredor do Lobito.

Segundo responsáveis do Banco Africano de Desenvolvimento, o apoio a micro, pequenas e médias empresas lideradas por jovens ao longo deste corredor não serve apenas para criar emprego: serve também para estimular as economias locais e reduzir a pressão migratória das zonas rurais para os grandes centros urbanos — um dos desafios estruturais mais persistentes do desenvolvimento angolano.

Competências que sobrevivem ao fim do financiamento externo

Para a OIT, os resultados positivos registados no primeiro semestre de 2026 demonstram como o investimento no desenvolvimento de competências pode reforçar, de forma duradoura, a empregabilidade dos jovens africanos. Mais do que números, o que está em jogo é a construção de um modelo que não dependa indefinidamente de financiamento externo: formadores que formam outros formadores, consultores que nascem de entre os próprios graduados, negócios que geram outros negócios — uma cadeia de transmissão de conhecimento que a agência da ONU espera venha a sustentar-se por si própria, muito depois de os projectos internacionais que a financiam hoje terem terminado.



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