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Agostinho Pereira de Miranda, 77 anos, advogado. Avianense por berço, mas podemos dizer que nasceu verdadeiramente em Benguela, Angola, para onde foi viver aos cinco anos com sua família. Agostinho fez de tudo um pouco antes de se tornar um dos principais advogados portugueses na área de energia. Foi arquivista, cantor, professor do secundário e mais tarde universitário, foi jornalista e comentador televisivo. Na justiça, foi procurador, inspetor da Polícia Judiciária e até foi juiz substituto e, finalmente, advogado. Começou a construir uma carreira de referência na área de energia, nomeadamente na área do petróleo nos Estados Unidos. Conhece como poucos os mercados energéticos da Europa, dos Estados Unidos, da América Central e Latina e de Angola. Lutou contra o salazarismo como independente de esquerda. Foi católico progressista, mas perdeu a sua fé na Igreja e hoje é um homem que privilegia acima de tudo um diálogo construtivo entre a esquerda e a direita. É um homem livre e que numa fase mais calma da sua vida profissional, toma este assumo como ciclista e fadista, ou melhor, fadisteiro. A vida de Agostinho Pereira de Miranda dava um filme, mas para já vai dar uma conversa dividida em dois episódios deste programa especial do Justiça Cega. Bem-vindo, Agostinho Pereira de Miranda, é um grande prazer recebê-lo aqui nesta série especial de entrevistas do Justiça Cega.
Muito obrigado pelo convite. É um enorme prazer estar neste programa que tão prestigiado é designadamente por força do trabalho e saber do Luís Rosa.
Muito obrigado, é muito generoso. Nasceu no concelho de Viana do Castelo, mas foi aos cinco anos para Benguela. A sua primeira memória é de Portugal ou de Angola?
A minha primeira memória é de Portugal, naquele comboio que me levava, a mim, os meus três irmãos e a minha mãe como colonos para Angola. Ainda me lembro da canção que a minha tia me ensinou a cantar quando o comboio partisse, mas foi uma viagem-
Como é que se chamava a canção?
Eu suponho que era uma daquelas canções infantis em que ia repetindo: “O pau bateu no cão.” Era uma destas canções infantis. Foi uma viagem depois num barco, o barco Wisco, aliás, levou 15 dias a chegar ao Lobito e assim esta família de colonos que não tiveram de pagar a viagem, por isso é que éramos, de certa maneira, falsos colonos, porque os colonos iriam à partida trabalhar a terra, o que não era o meu caso. O meu pai trabalhava a pedra, era pedreiro.
Como eram os seus pais e o que é que faziam? Seu pai era pedreiro, já disse, o que é que fazia a sua mãe?
A minha mãe era doméstica, nunca foi outra coisa senão isso. Era uma mulher muito inteligente, mas infelizmente para ela, o que aliás diz muito do país naquele tempo, no tempo em que ela era jovem, ela era totalmente analfabeta, não sabia senão escrever o seu primeiro nome, Albina.
A sua origem social humilde, como a esmagadora maioria dos portugueses, todos nós temos origens sociais humildes. É uma coisa que o Agostinho sempre falou de forma perfeitamente clara, nunca escondeu isso. Como é que era a sua vida em Benguela? Falou dessa questão de ser um colono. Bem, não era bem um colono, não ia explorar a terra, mas como é que era a sua vida de infância em Benguela?
A minha infância foi razoavelmente dramática, violenta, pobre. E quando digo dramática, não estou a exagerar, porque por alguma razão, aos nove anos eu entrei pela primeira vez num tribunal. Não era réu, naturalmente. Entrei naquele tribunal com muito medo, como qualquer outra criança, mas fui tratado com uma-
Porque ia testemunhar uma injustiça.
Eu tinha sido vítima de um crime, que, na verdade, ajudei a desmontar, mas fui confrontado com o autor do crime. Penso que pela primeira vez, tanto quanto eu me lembro, fui tratado por aquele juiz, era o doutor Azeredo, com carinho. E esse carinho mais todo o aparato do tribunal-
Fez perder o medo?
Sem dúvida nenhuma. O juiz sentou-me ao lado dele, ainda me recordo bem dessa situação. O juiz era pai de uma colega, mais tarde, no liceu, aos 11, 12 anos, a Cami. E, portanto, eu não só perdi o medo, como encontrei solidariedade, carinho, é isso mesmo, e fiquei fascinado com tudo aquilo. Eu acho que data dessa altura a decisão de ser advogado. É evidente, depois há muitos outros fatores que confluem nesse sentido. Mas aquele tribunal, tendo sido o desembocar de uma situação trágica mesmo, mas foi o que me catapultou para um objetivo que era, nessa altura, mais do que qualquer outra coisa Impor-me. Um dia haviam de me admirar.
Isso é uma boa definição, mas a sua referência familiar era mais a sua mãe ou outro familiar? A sua referência como uma referência moral ou uma referência: “eu quero ser como esta pessoa”.
Era o meu avô. Não era a minha mãe, por razões que não importa agora referir, muito menos o meu pai, que na verdade funcionou como uma espécie de negativo. Eu só não queria ser como ele. E digo isto abertamente e até sem nenhuma hesitação, porque tive também a sorte e o privilégio de o ter ajudado a todos os níveis, incluindo psicológico e financeiro, até à sua morte há três anos, com 100 anos. Mas a minha referência era o meu avô.
Que vivia em Portugal.
Que vivia em Portugal.
Em Viana do Castelo.
Exatamente. E com quem eu tinha uma troca epistolar bastante frequente.
Cartas.
E mais tarde, quando o meu pai decidiu reformar-se aos 40 e poucos anos, em 1962, e voltar a Viana do Castelo, eu pude viver com o meu avô e tornar aquilo que era uma relação à distância, na mais enriquecedora experiência humana que eu tive, porque o meu avô tinha sido imigrante em França e era também ele pedreiro, mas era músico, tinha fundado uma banda que ainda hoje existe, a Banda Nova, a banda dos escoteiros em Barroselas, e além disso tinha uma propensão enorme para o teatro. Era um grande contador de histórias, era muito curioso, não lia, mas era muito curioso sobre tudo e tinha sempre uma interpretação muito singular das situações ali da aldeia.
Falamos há pouco da sua infância e juventude em Benguela e agora acabou de falar de uma questão que eu gostava de abordar, é que o seu amor pela música teve que, se calhar, nasce por inspiração do seu avô. O Agostinho começou a cantar muito cedo em Benguela. Quanto mais o seu amor pela música? Já percebi que veio do seu avô, mas como é que você o desenvolveu em Benguela?
Eu já na instrução primária, na Escola 30. A minha família não tinha obviamente recursos para andar num colégio como os outros meninos. Eu fui para a Escola 30, onde fundamentalmente os meus colegas eram negros e aprendi muito, aliás, nesses três anos na Escola 30. E já aí, como é normal, as crianças que têm maior propensão para a música, já aí eu fiz qualquer coisa. Mas de facto, depois a minha estreia na música foi no Teatro Sá de Miranda. Já eu teria 13 anos, em Viana do Castelo. E lembro-me bem que eu fiz com um fato azul escuro que me tinha sido oferecido por uma prima, e eu estava muito orgulhoso.
Esse teatro é muito bonito, que eu conheço bem.
Pois.
O que é que cantou?
Cantei o “Il Vagabondo”, que na altura era muito popular e eu acho que a letra refletia o que eu me sentia, de certa maneira. Seja como for, este programa foi promovido pelos amadores de Viana, que ainda hoje se encontram, nos encontramos, gente daquele tempo. Eu era provavelmente um dos menos dotados, mas havia cantores muito bons, havia músicos também de grande qualidade. E foi aí que eu comecei. Depois convenci-me que tinha voz, ainda fui a um programa de rádio, suponho que era Rádio Clube no Porto, programa de revelação.
Tipo Chuva de Estrelas.
Uma espécie de Chuva de Estrelas. Não faço ideia como é que com 14 anos eu terei apanhado aquele comboio em Barroselas e chegado ao Porto sozinho, mas desemboguei no programa Revelação, comecei a cantar e aparentemente eu não acertava com as notas. Especialmente não me mantinha no tom que tinha escolhido, eu sabia lá, nunca tinha escolhido o tom, e estive quase para não atuar, mas depois acabei por atuar, em direto, aliás, e acabou por ser, pelo menos naquele círculo muito limitado de Barroselas, um grande êxito.
O Agostinho é uma pessoa que desde a sua juventude decidiu emancipar da sua família, queria seguir outro curso, queria seguir outro caminho. Começou a cantar, ganhou dinheiro como cantor, mas também teve muitas outras profissões. Quando depois regressou a Angola e mesmo aqui em Lisboa. O que é que fez em Benguela?
Eu quando regressei a Angola, a verdade é que decidi ir trabalhar para uma empresa, que era talvez a maior de Benguela na altura, a Eletra Limitada, e fui trabalhar como arquivista. Era a função mais humilde que se pode imaginar. Entretanto, comecei a cantar num conjunto que todos os benguelenses se lembram, provavelmente, The Rhythm Boys, mas depois, verdadeiramente, onde se ganhava dinheiro era no Hotel Mombaça, que é um grande hotel construído em Benguela para acolher os refugiados do que tinha sido o Congo Belga. E aí era o conjunto do Sr. Ferreira, que se chamava de maneira muito Conjunto Ferrari, de maneira muito árdua.
Você era um Ferrari da música.
E de facto, ali com músicas menos Beatles, mais italianos, enfim, os slows para os clientes. Eu ali conheci o limite das minhas capacidades. Mas tive algum êxito. Mais tarde, depois comecei a escrever letras, até compus uma canção que me deu o título de Rei da Rádio de Benguela.
Mas ganhou dinheiro com isso, conseguiu se sustentar com isso.
Para a minha medida, ganhei bastante dinheiro no Hotel Mombasa ao sábado à noite e ao domingo à matinê. Na altura, mais dinheiro do que ganhava a trabalhar na Eletra. E portanto decidi tornar-me um cantor profissional, era onde eu ganhava a minha vida e acabei por juntar dinheiro para depois comprar, uns anos mais tarde, depois de fazer o sexto e o sétimo ano, viria obviamente a voltar ao liceu. Fiz o sexto e sétimo ano e ganhei durante esses três anos e tal dinheiro designadamente para comprar a viagem para vir de barco. Claro, não tinha dinheiro para vir de avião, mas vir de barco para Lisboa, para o primeiro ano de Direito, depois de obter uma bolsa de estudo, aliás, da Fundação Gulbenkian.
Deixe-me só lhe perguntar uma coisa antes de irmos para o tempo universitário. O Portugal colonial, a vida das colónias tem sido muito recuperada nos últimos anos, entre o saudosismo de uma sociedade mais livre e liberal dos brancos. Também temos a certeza que o Estado Novo defendia o colonialismo. A guerra colonial nasce precisamente da recusa de Salazar em permitir a autodeterminação dos povos africanos. Como é que era viver em Angola nesses anos 50, 60, seja na comparação com Portugal, seja nesta questão da discriminação dos cidadãos de raça negra?
Eu penso que as pessoas da minha geração continuaram a alimentar uma visão nostálgica, positiva, cor-de-rosa, exageradamente positiva, acho eu, desse tempo.
Não eram racistas, não eram colonialistas, tratavam as pessoas de igual forma. Os africanos de igual forma.
Há alguma coisa de verdade nisso, por exemplo, eu tive colegas no liceu, negros, e me voltou pensar em dois deles, que vieram para Portugal nas mesmas condições em que eu vim, por exemplo, estudar Direito, já que não havia faculdade de Direito em Angola. Mas a questão do colonialismo, para mim, deve ser também vista deste prisma, que aliás está muito bem relatado, acho eu, nos escritos do João Lobo Antunes, por exemplo. Eu acho que os brancos, normalmente chamam-se colonizadores, mas não creio que fossem mais colonizadores do que os governantes que estavam em Lisboa. A população branca tinha vantagens, grandes vantagens, é absolutamente inquestionável.
Não se vivia um segregacionismo, por exemplo, que se vivia nos Estados Unidos nessa altura. No sul dos Estados Unidos, por exemplo.
Não, nem pouco mais.
Os restaurantes para brancos e os restaurantes para negros, por exemplo.
Aliás, há que dizer, eu vivia na última rua antes do bairro Benfica, era um bairro fundamentalmente de africanos, mas havia muitos brancos a viverem. Eu pessoalmente tenho um primo que tem dois filhos da sua lavadeira.
Não era uma realidade que tivesse alguma coisa a ver com a da África do Sul, por exemplo.
Não tinha nada a ver com a África do Sul. E eu diria que do ponto de vista da memória social, há às vezes, por parte dos meus amigos, de gente que cresceu comigo, há por vezes um favoritismo sobre a nossa ação, e é humano que assim seja, esquecendo os aspetos mais negativos daquela sociedade. Mas eu, por exemplo, porventura pela minha experiência pessoal, não me esqueço, nunca me esquecerei da forma como a população branca passou a tratar genericamente a população negra depois da eclosão do que eu continuo a chamar de guerra de libertação, lá era conhecida como o terrorismo.
Em 1961.
E depois disso, eu estive na parte mais superior de alguns prédios que se exercia, sem a autoridade para isso, cidadãos, voluntários, exerciam verdadeiros poderes de polícia sobre quem passava, se fosse negro. Eu era muito novo e isso impressionou-me e obviamente houve excessos, designadamente da administração pública, que não podem hoje ser esquecidos. Sendo certo, porém, que no plano institucional, depois de 1961, houve uma série de reformas e designadamente acabando com o Estatuto do Indígena, que são mérito do regime.
Eram reformas de Adriano Moreira.
Absolutamente. E portanto, houve aspetos positivos que, aos meus olhos, são a maioria, isto como consequência dessa situação histórica nova. Não importa agora entrar em detalhes, mas os reflexos do que ocorreu em 1961 foram muito positivos para aquela sociedade, incluindo o segmento da população negra mais desfavorecida, e foram muito mais positivos para a população branca. Mas a verdade é que houve também aspetos negativos que devem ser lembrados para não darmos lugar a outras interpretações.
Vamos fazer agora um curto intervalo. Regressamos já para continuar a conversar com Agostinho Pereira de Miranda. Estamos de regresso para a segunda parte. Estamos a conversar com Agostinho Pereira de Miranda. É uma entrevista de vida do Justiça Cega. Agostinho, estávamos a falar do seu tempo em Angola, mas regressa a Portugal para estudar na Faculdade de Direito de Lisboa, como também já disse. Continuou a trabalhar, era um trabalhador-estudante e ao mesmo tempo ainda teve tempo para o associativismo estudantil, que era como se chamava na altura. Como é que se situava politicamente? Certamente não seria um situacionista, digo eu.
Não, longe disso. Eu tinha uma hostilidade muito clara. Os meus amigos e companheiros eram inevitavelmente associativos e também muitos amigos que votavam activamente.
Você estava nessas listas para a Associação de Estudantes, mais à esquerda, pessoas mais à esquerda, uns marxistas, outros se calhar não marxistas. Na altura só havia o PCP como partido de oposição, que se sabia que estava na clandestinidade e que existia. Mas o Agostinho era independente, não se situava.
Eu sempre fui independente. Na verdade, ainda hoje posso dizer que nunca pertenci a nada, senão à Tertúlia do Fado. Sou associado da Tertúlia do Fado, não tenho sequer clube e à ProPublica Direito e Cidadania, que é uma associação a que eu presido. Mas de facto eu sempre fui independente e nunca tive nenhuma tendência para militar, fosse num partido, fosse numa agremiação mais ou menos clandestina. Também tinha medo, é verdade, porque eu estava no limite. Se fosse preso, obviamente iria chumbar e se chumbasse, iria para a tropa. Portanto, também tenho que referir essa circunstância. Mas a minha atitude de independência, que eu julgo ter conseguido manter até aos dias de hoje, marcou muito esse percurso de convicções políticas.
Era um homem de esquerda, era um homem progressista.
Eu era um homem de esquerda e hoje em dia não sei se é tão relevante essa discussão entre esquerda e direita, mas ainda hoje considero-me progressista, no sentido quase literal da expressão. Acredito no progresso, acredito na solidariedade, sou otimista relativamente à natureza humana. Absolutamente.
Mas era uma pessoa da oposição e era independente. Quando Salazar morre, é substituído por Marcelo Caetano, que eu não sei se foi seu professor na Faculdade de Direito de Lisboa. O que pensou o jovem Agostinho? Pensou que poderia vir aí a democracia ou tinha consciência que Marcelo não era um democrata?
O Marcelo Caetano-
Estava a falar com uma pessoa que um dos seus primeiros livros como jovem foi, por exemplo, ler um livro do José Ferreira Antunes, as cartas trocadas entre Salazar e Marcelo. E Marcelo diz nestas cartas precisamente que não acredita na democracia inglesa, como costumava dizer.
Essas cartas eu li-as pouco depois do 25 de abril de 74, porque fiz a investigação designadamente ao seu desaparecimento, ao furto que ocorreu a 26 e 27 de abril de 1974, e eu enquanto inspetor da Polícia Judiciária, fiz essa investigação no chamado arquivo pessoal, arquivo Salazar. É uma outra história que por acaso também é muito interessante.
E foi o Agostinho que as encontrou?
Eu encontrei os autores que as tinham roubado. E não é simplesmente furtado. Encontrei eu e mais dois agentes que eram muito melhores detetives do que eu, aliás, um subinspetor e um agente, e encontramos os autores, denunciámo-los e uma boa parte foi julgada e foi condenada. Portanto, essas cartas li-as, não sistematicamente, mas conheço. E depois mais tarde vim a ser amigo do Ferreira Antunes e falei muitas vezes disso. A história dessa investigação acabou por ser publicada no Expresso pelo Ferreira Antunes e pelo Marcelo Rebelo de Sousa.
Eram pessoas que roubaram as cartas por alguma motivação ideológica ou simplesmente para ganhar dinheiro?
Absolutamente, não só por motivação ideológica, mas também para poderem, o que aconteceu mais tarde, escrever a história a partir de documentos originais, segundo uma determinada linha ideológica. Quem foram os autores?
Eram militantes do PCP.
Não, eram pessoas do gabinete. Eu não quero agora referir nomes, até porque os seus descendentes estão aí, eu tenho-os encontrado. Quando digo roubo é porque houve violência designadamente para retirar dos cacifos respetivos as centenas de dossiês que foram na altura roubados desse arquivo, que era um arquivo instituído por lei. Aliás, os documentos eram classificados de secretos e o roubo desses documentos, à face do código penal, era, como mais tarde veio a ser caracterizado Crime de espionagem. Mas foram pessoas do gabinete do Marcelo Caetano, especificamente do Secretariado-Geral da Presidência do Conselho de Ministros. Aliás, isso está escrito na introdução do livro sobre Salazar de Franco Nogueira, e as cartas e toda a outra correspondência acabaram por ir parar às mãos de Franco Nogueira, que o admite no início do seu livro sobre Salazar. De resto, mais tarde, depois da morte de Franco Nogueira, a família devolveu toda essa correspondência num ato que me pareceu de justiça ao Ministério dos Negócios Estrangeiros.
Documentos históricos fundamentais. Mas deixe-me regressar ao tempo da sua juventude. Na altura, quando Salazar morreu, o que pensou?
Eu já tinha formação jurídica suficiente e o que nós, o meu círculo de amigos-
Os associativos, por exemplo
Sim, os associativos, que integrava desde gente mais próxima da CDE, que tinha concorrido às eleições, até maoístas, passando por comunistas, seguramente, designadamente da União dos Estudantes Comunistas, da UEG. Nós achávamos que não tinha mudado nada. Também é verdade que nós tínhamos uma visão extraordinariamente reducionista do que se passava no país. Nós não tínhamos uma noção clara de que havia uma coligação que apoiava o regime e que dentro dessa coligação havia tensões entre os ultras e os moderados. Nós sabíamos apenas que havia, a partir das eleições de 1969, uma ala liberal, prestávamos muita atenção, mais tarde, sob o Expresso, nós de facto prestávamos muita atenção a esse aspecto, mas eu não sabia, por exemplo, que havia uma ala ultra e que em boa medida impediu alguma evolução.
Alguma evolução do regime.
Exatamente.
Ou seja, a Primavera Marcelista, pelo menos essa ala ultra, impediu que essa Primavera Marcelista se desenvolvesse.
Mas isso nós não sabíamos.
Se calhar, impediu a paz no Ultramar, eventualmente.
Eu creio que sim. Lá está, são também documentos que eu vi, designadamente cartas dos movimentos de libertação dirigidas a Salazar, insistências, por exemplo, documentos. Eu tinha muito tempo, estive cinco meses ali em São Bento a fazer essa investigação e depois tive que fazer o relatório. E vi que, de facto, o regime estava bloqueado e não aceitava mesmo conselhos dos seus aliados. Isso foi trágico para Portugal, porque como nós sabemos, há aí consequências políticas que ainda hoje se sentem.
Deixe-me voltar à sua história pessoal. Ainda antes do 25 de Abril. Em 1971 viajou pela primeira vez pela Europa, salvo erro foi a Paris. Como é que foi essa viagem? Descobriu um outro planeta? Tem uma história também por contar.
Tem, é uma história um bocadinho sinistra.
Conte-me as duas coisas. Como é que foi a sua viagem? Deve ter descoberto uma cidade maravilhosa, não? O que era aquilo? Era outro planeta, a diferença entre Portugal e o resto da Europa na altura era uma diferença enorme.
E eu queria muito ir a Paris, ir a Londres, etc., porque através da famosa Livraria Barata, que existiu até há tão pouco tempo atrás, nós tínhamos acesso àqueles livros que nos falavam noutros termos, por exemplo, do grande “Le marxisme soviétique”, por exemplo, do Marcuse, os livros do Wilhelm Reich. Eu queria muito conhecer essa realidade, especialmente essa realidade intelectual, tão estreita era a minha visão do que podia ser esse estrangeiro. E foi-me oferecida a oportunidade pelo pai de um colega, por acaso um colega angolano, de ir a Paris. Ele disse: “Olha, tu és muito amigo”, chamava-se Sérgio, “tu és muito amigo do Sérgio, eu pensei”, disse o pai, “pensei que te deveria recompensar por seres uma boa influência no meu filho”. E então ofereceu-me uma ida a Paris, incluindo o hotel respetivo, e eu achei muito bem e normal, e fiquei muito contente. Quando no dia da partida, encontramo-nos no Hotel Mundial e ele disse: “Olha, eu queria que levasses esta caixinha a um senhor”, o senhor Dumas, não podia ser mais francês o nome, “há de contactar-te”. Eu achei normal, Dumas era amigo dele, vinha a Lisboa, etc. E assim foi quando, encurtindo os pormenores, que são deliciosos, mas já agora.
Essa caixa não devia ter uma surpresa qualquer.
Essa caixinha foi aberta no meu quarto e primeiro ele perguntou-me se eu sabia o que era. Não fazia a mínima ideia, nunca sequer me tinha interrogado, conhecia muito bem o pai do Sérgio, e essa caixinha tinha diamantes, portanto, eram diamantes.
Caramba. Diamantes muito valiosos, certamente.
Seguramente. E na altura, se eu tivesse sido apanhado, nomeadamente na alfândega em Portugal, pela polícia, etc, isso teria liquidado naturalmente o meu futuro, porque tenho ideia que eram oito anos de cadeia, uma coisa assim.
O 25 de Abril apanha-o em Coimbra. Por quê? Estudava em Lisboa, por que foi para Coimbra?
Não, o 25 de Abril apanha-me em Luanda.
Em Luanda, desculpe. Estou mal informado.
Apanha-me em Luanda porque eu, em 1973, era delegado de curso e tinha existido uma greve, o professor Cavaleiro de Ferreira decidiu que a melhor maneira de punir os cinco elementos da delegação de curso era chumbá-los a todos. Eu nunca tinha tido um chumbo, mas assim foi, chumbei a penal e a processo penal, eu e todos os outros elementos que eram delegados de curso.
Só porque era da oposição?
Não, porque tínhamos estado à frente dessa greve. Houve uma situação até bastante cómica, estes cinco deitaram-se em frente ao Mercedes.
Isso não tem nada a ver com a crise académica de 1968, se a minha memória não me falha, 1969, que é de Coimbra, mas também acontece aqui em Lisboa.
Sim, isso é muito posterior a essa crise. Suponho até que Que teria a ver com a prisão, creio que era do Saldanha Sanches. A nossa ação, tanto quanto me lembro, era por essa razão.
É castigado e vai para Luanda.
Por ter sido castigado, fui para Luanda, fui ensinar para um liceu. E o 25 de Abril apanha-me lá e eu, obviamente, primeiro ainda constituí o primeiro sindicato angolano, o Sindicato Livre dos Professores Angolanos, de que fui presidente, mas dois meses depois vim pra Coimbra concluir o curso, já agora sem passagens administrativas, em julho de 74 e a partir daí procurei fazer uma vida no Direito.
Eu devo confessar-lhe que o 25 de Abril é um dos meus períodos históricos favoritos. Eu já li muito sobre o período. Adorava tê-lo vivido, mas não vivi. Já vi muitos documentários feitos naquela época e há um que eu acho que é muito interessante, que foi feito por um jornalista documentarista brasileiro. Confesso que estive à procura do nome, pesquisei para esta entrevista, mas não consegui encontrar. Mas quem nos está a ouvir e que gosta de documentários sobre o 25 de Abril vai ver o que eu estou a dizer, ou a que me estou a referir. E esse jornalista documentarista brasileiro tem um documentário sobre os dias seguintes ao 25 de Abril, que tem uma ideia simples, que é: o jornalista ou câmera perguntava apenas o seguinte a todos os portugueses comuns com que se encontravam: o que é a liberdade? E as respostas são tão díspares que percebemos facilmente que boa parte daquele povo nem sequer sabia o que era a liberdade. A liberdade para uns seria ir ao cinema, para outros seria ler o jornal sem censura, também é verdade que isso é liberdade, mas para si, Agostinho, o que era a liberdade naquela altura?
Eu tinha uma ideia já um bocadinho mais-
Desenvolvida, certamente.
Desenvolvida. Mas o que eu mais odiava, e ninguém estranhará isso, era o classicismo, os vícios senhoriais, a desigualdade e especialmente a pobreza.
Éramos um país muito pobre, sem sombra de dúvida.
Éramos um país muito pobre, não há nada de particularmente edificante na pobreza, e queriam convencer-nos de que não podia ser de outra maneira. Por outro lado, liberdade seria, claramente para mim, cada colônia escolher o seu futuro. Eu tinha a noção de que nós estávamos a caminhar ao invés do resto do mundo, isto é, em sentido contrário, é o que eu quero dizer.
Mas depois da Guerra Mundial, todos os países que tinham colónias começavam a dar, obviamente, a autodeterminação e a independência a esses povos. Começou com a Índia, depois da Segunda Guerra Mundial, e foi um movimento que se atravessou todas as outras potências europeias colonizadoras.
Claro que sim. Mas eu penso que também como eu era, digamos assim, um imberbe intelectual, a ausência de liberdade de imprensa fazia-me imensa confusão. E continuará a fazer-me, penso, pelo resto da vida. Acho que os jornalistas, então como hoje, são os verdadeiros heróis do nosso tempo. Provavelmente fica mal estar a dizer isto a um jornalista, ou não ficará muito bem.
Não estamos menos famosos hoje em dia.
Mas a verdade é que, especialmente trabalhando nas circunstâncias em que trabalham. Ainda recentemente, o Miguel Sousa Tavares dizia que são mal pagos, são mal compreendidos, trabalham em condições extraordinariamente difíceis, até do ponto de vista do seu dia a dia. Por exemplo, os jornalistas de investigação enfrentam dificuldades muito graves.
Fica por aqui o primeiro episódio desta conversa com Agostinho Pereira de Miranda.











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