- Nós, delegados e delegadas da 8.ªAssembleia Mundial do CADTM — Comitê para a Abolição das Dívidas Ilegítimas —, vindos da África, da Ásia, da América Latina e do Caribe, do Oriente Médio, da Europa e da América do Norte, reunidos em Cotonou, no Benim, do dia 31 de julho ao 3 de agosto de 2026, reafirmamos a nossa luta comum contra a dívida ilegítima, mecanismo que transfere a riqueza produzida pelos trabalhadores, pelos camponeses e pelas classes populares aos credores, os capitalistas e as classes dominantes, tanto do Sul como do Norte. Estamos determinados a prosseguir a nossa luta contra o sistema capitalista que destrói a Natureza, gera, exacerba e mantém a exploração, as desigualdades e a opressão em todo o planeta, e que perpetua e reforça o patriarcado, o racismo, o sistema de castas, o comunitarismo, a xenofobia, o ultranacionalismo e o fundamentalismo religioso.
- Declaramos que os povos do mundo enfrentam uma nova e cada vez mais grave crise da dívida, provocada não pelas suas próprias escolhas, mas por políticas impostas pelas classes dominantes, nomeadamente no Norte, com a cumplicidade das elites do Sul, que se aproveitam de uma série de choques externos: a pandemia da Covid-19; a guerra na Ucrânia e a explosão dos preços dos alimentos e da energia; os aumentos bruscos das taxas de juro
Juro
Quantia paga em retribuição de um investimento ou um empréstimo. O juro é calculado em função do montante do capital investido ou emprestado, da duração da operação e de uma taxa acordada.
decididos pelos bancos centrais do Norte a partir de 2022; e, agora, das repercussões da guerra contra o Irão e no estreito de Ormuz e, de forma mais ampla, na região do Golfo, que fizeram disparar os custos da energia, do frete e dos fertilizantes, destruíram os meios de subsistência e deslocaram trabalhadores e trabalhadoras de regiões inteiras. Os países do Sul são obrigados a pagar o preço dos choques gerados no centro do sistema mundial, enquanto o endividamento das famílias esmaga as classes populares, tanto no Norte como no Sul. - Denunciamos os mecanismos impostos pelos credores, apresentados como «soluções» para esta crise. As reestruturações realizadas no âmbito do Quadro Comum do G20 e dos programas do FMI protegeram muito mais os credores privados e multilaterais do que as populações afetadas. O G20 concedeu reduções irrisórias da dívida bilateral e se limitou a adiar os prazos de pagamento. Portanto, os países devedores foram forçados a retomar os reembolsos. As condicionalidades neoliberais impostas, tanto pelo FMI que pelo Banco Mundial, foram reforçadas e levaram a um agravamento dramático da situação das economias e das classes populares.
- Exigimos a anulação imediata e incondicional de todas as dívidas ilegítimas, ilegais, odiosas e insustentáveis — públicas e privadas, externas e internas. Apelamos aos governos do Sul para que exerçam o seu direito soberano de suspender unilateralmente o reembolso da dívida, de proceder a uma auditoria das suas dívidas com a plena participação dos movimentos sociais e das massas trabalhadoras, e de repudiar as dívidas contraídas contra os interesses dos seus povos. As recentes vitórias judiciais e constitucionais demonstraram concretamente que as dívidas ilegítimas podem ser identificadas, declaradas nulas e anuladas. Nós nos comprometemos a generalizar as auditorias cidadãs à dívida e a educação popular que tornem compreensível, para cada trabalhadore, camponês, e estudante e habitante dos bairros populares, uma arquitetura financeira intencionalmente opaca.
- A nossa exigência de transparência, auditoria e anulação se aplica a todos os credores, sem exceção: credores privados, instituições multilaterais e credores bilaterais. Rejeitamos tanto a propaganda que aponta um único credor para absolver os outros, como qualquer conveniência com potências cujos empréstimos reproduzem a mesma lógica que a dos demais credores. Os BRICS
BRICS
O termo BRICS (acrónimo de Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) foi utilizado pela primeira vez em 2001 por Jim O’Neill, na altura economista da Goldman Sachs. O forte crescimento económico destes países, combinado com a sua importante posição geopolítica (estes 5 países reúnem quase metade da população mundial em 4 continentes e quase um quarto do PIB mundial), fazem dos BRICS actores importantes nas actividades económicas e financeiras internacionais.
e o seu Novo Banco de Desenvolvimento não constituem uma alternativa para os povos: estes governos aplicam as mesmas receitas neoliberais, mantêm vínculos comerciais e militares crescentes com a entidade genocida israelense e muitos deles seguem suas próprias políticas imperialistas ou subimperialistas. O que importa para o CADTM é o exercício da soberania dos povos sobre os seus recursos e os seus orçamentos. - Reforçamos o nosso apelo à abolição de todas as formas de dívida privada ilegítima exigida às classes populares: microcrédito abusivo, fintech e empréstimos digitais, dívida dos agricultores, dívida dos estudantes e dívida das famílias contraída simplesmente para sobreviver. Apresentados como instrumentos de «inclusão financeira» e de emancipação das mulheres — que constituem constituem a maioria das suas vítimas —, estes sistemas de juros predatórios e de expropriação colocaram centenas de milhões de famílias em situação de servidão por dívidas e de expropriação de suas terras, o que provocou um aumento dos suicídios. A luta contra o sistema da dívida é indissociável da luta feminista: a austeridade obriga as mulheres a compensar a escassez de serviços públicos por meio do trabalho gratuito de educação e cuidados no lar. As mulheres são exploradas tanto como assalariadas quanto como pequenas produtoras, pequenas comerciantes, artesãs e no âmbito da reprodução social, no contexto das tarefas domésticas cujo peso recai principalmente sobre elas. A privatização e a redução dos subsídios aos serviços públicos afetam mais intensamente as mulheres do que os homens. Todas as mulheres, sejam elas assalariadas ou não, são duramente exploradas e participam ativamente nas lutas pela emancipação. São elas que estão na linha da frente da resistência.
- Declaramos que a catástrofe climática e o sistema da dívida constituem, a partir de agora, um único e mesmo mecanismo de espoliação. Países devastados por ciclones, inundações, secas e ondas de calor – para os quais praticamente não contribuíram – são forçados a pegar empréstimos para se reconstruir junto às mesmas instituições cujo modelo gerou sua vulnerabilidade. Rejeitamos o financiamento climático por meio de instrumentos que geram dívida — mercados de carbono, trocas de «dívida por natureza» e «dívida por clima», títulos de resiliência e mecanismos condicionais — e exigimos que esse financiamento venha na forma de subsídios incondicionais e de reparações pela dívida ecológica que o Norte industrializado e suas empresas têm com os povos do Sul.
- Exigimos reparações pelos crimes históricos sobre os quais a atual ordem mundial foi construída: a colonização, a escravidão e o tráfico de pessoas escravizadas, o genocídio e os deslocamentos forçadas. Exigimos a restituição do tributo extorquido dos povos que pagaram resgates por sua própria liberdade, a anulação das dívidas herdadas de regimes coloniais, do apartheid e de ditaduras, bem como a restituição incondicional dos ativos soberanos congelados por potências imperialistas como forma de punição coletiva infligida a populações inteiras.
- A assembleia mundial do Comitê para a Abolição das Dívidas Ilegítimas (CADTM) condena a repressão estatal e internacional no Haiti, exige o reembolso integral da histórica «dívida da independência» e rejeita categoricamente qualquer forma de intervenção militar ou ingerência estrangeira. Denunciamos o fato de que as gangues criminosas que aterrorizam a população civil foram instrumentalizados pelos poderes instituídos para fragmentar o tecido social e conter as mobilizações populares. Condenamos a perseguição oficial de que são vítimas os sindicatos, as organizações camponesas e os coletivos estudantis que resistem pacificamente nas ruas. Da mesma forma, rejeitamos a crise humanitária deliberada, que ocorre com a cumplicidade das autoridades locais diante da falta estrutural de alimentos, saúde e serviços básicos, o que agrava o sofrimento do povo haitiano; Exigimos, portanto, uma reparação histórica pela dupla dívida: a que a França contraiu devido à extorsão colonial que obrigou o Haiti a pagar 150 milhões de francos, e a reparação pelos obstáculos criados pelos bancos franceses que concederam empréstimos a taxas usurárias para que o Haiti pudesse saldar essa dívida.
- Reafirmamos a nossa solidariedade incondicional com o povo palestino, vítima do genocídio sionista em curso, que constitui o fato político central da nossa época. Exigimos o fim imediato do genocídio, da ocupação e do ecocídio, o reconhecimento dos direitos do povo palestino, a revogação dos Acordos de Abraão e de todos os acordos militares, econômicos, académicos e culturais com Israel, bem como o apoio total aos processos instaurados perante a Corte Internacional de Justiça e o Tribunal Penal Internacional.
Denunciamos a agressão israelense contra o Líbano e o ecocídio em curso em seu território. Condenamos a guerra de agressão americano-israelense contra o Irã, cujas consequências são suportadas pelas classes populares de todo o mundo. - Manifestamos nosso apoio às populações do leste da República Democrática do Congo, que há várias décadas sofrem com o saque de seus recursos naturais por grandes empresas privadas e por países como Ruanda, que recorrem à violência de grupos armados e de suas próprias tropas para atingir seus objetivos. Manifestamos nossa solidariedade a todas as populações locais e, em particular, às mulheres, que são as primeiras vítimas destas agressões, já que o estupro é utilizado como arma de guerra e de dominação. O número de vítimas passa dos milhões.
- Manifestamos igualmente nossa solidariedade às populações do Sudão e de sua região que, após se libertarem de uma ditadura, sofrem há vários anos com a violência vinda tanto do exército oficial quanto das Forças de Apoio Rápido (RSF), apoiadas pelos Emirados Árabes Unidos, responsáveis por um grande número de massacres.
- Denunciamos a ingerência das grandes potências e o seu apoio aos regimes ditatoriais, totalitários, policiais e militares que se espalham pelo planeta, ao mesmo tempo que os povos lutam por sua emancipação, dignidade, direitos e pela reconstrução de sua soberania sobre seus recursos e territórios. Denunciamos os ataques imperialistas e terroristas contra os países do Sahel.
- Condenamos a agressão imperialista contra Cuba e exigimos o fim imediato do bloqueio criminoso que estrangula o povo cubano há mais de seis décadas. Condenamos igualmente a agressão contra a Venezuela e a apropriação de seus recursos, bem como qualquer ato de agressão imperialista contra a soberania dos povos, independentemente de sua origem. Somos contra o bloco imperialista liderado pelos Estados Unidos e nos opomos tanto à invasão russa da Ucrânia quanto a qualquer guerra travada pelas grandes potências em prejuízo dos povos.
- Alertamos para a ascensão mundial da extrema-direita e do neofascismo — nas Américas, na Europa, na Ásia e além —, por meio da qual setores do grande capital buscam esmagar as conquistas sociais pela força bruta, transformar os migrantes e as minorias em bodes expiatórios e desmantelar os direitos democráticos. A luta contra o fascismo, o racismo e todas as formas de supremacismo (branco, cultural, religioso, etc.) é hoje indissociável da luta contra o sistema da dívida e o imperialismo. Neste espírito, saudamos a Primeira Conferência Internacional Antifascista pela Soberania dos Povos, realizada em Porto Alegre em março de 2026, que reuniu ativistas e figuras públicas de cerca de quarenta países com o objetivo de formar uma frente mundial comum contra o neofascismo e o imperialismo, o que constitui um passo decisivo na construção da resistência internacional que a nossa época exige. O CADTM se compromete a integrar esta luta antifascista e anti-imperialista em todas as dimensões da sua ação e a contribuir ativamente para os esforços de criação de um espaço internacional o mais amplo possível contra a ascensão do fascismo e contra as agressões imperialistas, independentemente da sua origem.
- Condenamos a escalada das violações dos direitos das mulheres, das minorias religiosas, étnicas, linguísticas e nacionais, dos povos indígenas, dos dalits e das castas oprimidas, bem como de todos os grupos marginalizados e oprimidos em todo o mundo. O apartheid de gênero, a exclusão das mulheres da vida pública, a violência comunitária, as violações dos direitos à diversidade, a criação de populações apátridas e «expulsáveis», a espoliação das comunidades indígenas em benefício de projetos extrativistas, bem como a perseguição dos descendentes de escravizados… não são aberrações, mas instrumentos pelos quais as classes dominantes dividem a classe trabalhadora explorada, desviam a raiva despertada pelo sistema da dívida e da austeridade para bodes expiatórios e disciplinam a mão de obra dos mais oprimidos. Afirmamos que não há justiça da dívida sem igualdade, dignidade e direitos plenos e integrais das mulheres e de todos os povos e comunidades oprimidos, e nos comprometemos a colocar suas lutas no centro do nosso combate comum.
- Denunciamos a terceirização de fronteiras por parte dos países europeus e dos Estados Unidos, os campos de detenção, as expulsões em massa e a criminalização da solidariedade. Longe de serem devedores, os migrantes são credores deste sistema: as suas remessas contribuem para o pagamento da dívida externa dos seus países, enquanto o seu trabalho gera riqueza que beneficia as economias que os exploram e perseguem. Defendemos o direito de cada ser humano de se deslocar e de se estabelecer, e exigimos reparações para os povos cujo deslocamento foi provocado pela guerra, pelo saque, pelo ajuste estrutural e pelas mudanças climáticas
- Condenamos a militarização desenfreada do planeta: a explosão dos orçamentos militares, o rearmamento das potências imperialistas e dos seus aliados, bem como a economia de guerra que desvia recursos colossais da saúde, da educação, da moradia e da luta contra as mudanças climáticas, enquanto se contraem novas dívidas para financiar a compra de armas. Exigimos que os orçamentos sejam reorientados para os setores sociais vitais, dando prioridade aos serviços públicos. Nem um centavo para a guerra: tudo para a vida.
- Exigimos a revogação dos acordos de livre-comércio, de investimento e de parceria econômica que, assim como o sistema da dívida, constituem instrumentos complementares de dominação, saque e subjugação dos povos dos países do Sul o empobrecido. Enquanto a dívida serve para impor políticas neoliberais, programas de ajuste estrutural e o desmantelamento das proteções econômicas e sociais, estes acordos impõem juridicamente a liberalização do comércio e dos investimentos, reforçam o poder das multinacionais sobre os recursos, os serviços públicos e os setores estratégicos, e perpetuam a dependência econômica, alimentar, tecnológica e financeira. Exigimos a construção de outro modelo de cooperação econômica e comercial baseado na solidariedade entre os povos, na complementaridade, na justiça social, na soberania popular e no respeito aos direitos humanos e ao ambiente, colocando as necessidades das populações acima dos lucros das multinacionais.
- Exigimos justiça fiscal como alternativa ao endividamento perpétuo: uma tributação fortemente progressiva sobre o património, sobre os lucros das empresas e do setor financeiro, bem como sobre as indústrias extrativas; a eliminação dos paraísos fiscais; e a recuperação dos fluxos financeiros ilícitos que, a cada ano, privam o Sul de somas muito superiores às que recebe sob o rótulo da chamada «ajuda». Os governos que pretendem servir a seus povos devem fazer com que os ricos paguem, em vez de lhes pedir empréstimos a taxas usurárias e de tributar os pobres por meio do IVA.
- Reivindicamos a soberania alimentar e a soberania dos povos sobre suas terras, sua água, suas pescas, suas florestas e seus recursos minerais: a propriedade pública e a gestão democrática dos recursos estratégicos, o direito vinculante das comunidades ao consentimento, o fim da apropriação abusiva de terras, água e oceanos, e a ruptura com o modelo agroindustrial exportador e extrativista — incluindo o extrativismo «verde» de uma falsa transição energética que reproduz o saque colonial sob um novo nome.
- Saudamos a extraordinária onda de levantes populares que abalou o mundo nos últimos anos, liderada sobretudo pela juventude e pelas mulheres — desde os movimentos de massas contra a austeridade, a corrupção e o autoritarismo em vários continentes até às imensas mobilizações de solidariedade com a Palestina. Estas revoltas demonstraram que nenhum regime é invencível. A lição a ser tirada é igualmente clara: as revoltas desprovidas de instrumentos políticos populares organizados são recuperadas pelas mesmas forças contra as quais se ergueram. Comprometemo-nos a nos integrar no seio e ao lado destes movimentos, de suas formas de resistência e organização, a lutar por seu conteúdo social e democrático — emprego, salários, serviços públicos, democracia, anulação da dívida — e a contribuir para transformar a energia da revolta em uma organização sustentável.
- Partimos de Cotonou determinados a fortalecer a rede internacional do CADTM em todos os continentes: para desenvolver a educação popular sobre a dívida nas línguas dos povos; para apoiar e lançar auditorias cidadãs da dívida; para aprofundar a aliança da luta contra a dívida com os movimentos feministas, ecologistas, camponeses, sindicais, antifascistas e anti-imperialistas; e para avançar rumo a um mundo livre da ditadura da dívida — um mundo de soberania popular, de justiça social, de justiça climática e de igualdade entre todos os seres humanos. De acordo com a regra moral fundamental da nossa rede, estamos sempre ao lado daqueles que lutam: estamos do lado de todas as pessoas exploradas e oprimidas que resistem em todo o planeta.
Aprovado pela Assembleia Mundial do CADTM, Cotonou, Benim, agosto de 2026











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