Apesar da rápida disseminação da inteligência artificial nas empresas, apenas 14% das organizações atingiram um estágio considerado avançado de transformação digital, no qual sistemas integrados operam com agentes autônomos de IA. A maioria ainda convive com ambientes tecnológicos fragmentados, baixa integração entre plataformas e dificuldades para transformar investimentos em resultados concretos para o negócio. Os dados fazem parte de um levantamento da Censuswide realizado a pedido da ManageEngine com mil executivos e gestores de tecnologia de Brasil, México, Chile, Colômbia e República Dominicana.
O estudo mostra que 61% das empresas permanecem em estruturas consideradas fragmentadas, divididas entre ambientes legados e operações em nuvem pouco integradas. Outros 25% afirmam operar em um modelo centrado em plataformas unificadas, enquanto somente uma em cada sete organizações já utiliza sistemas orquestrados por inteligência artificial. No Brasil, esse percentual é ligeiramente superior na categoria de plataformas integradas, alcançando 32% das empresas pesquisadas.
O avanço da automação também ocorre de forma gradual. Em média, apenas 45% dos processos críticos das empresas são totalmente automatizados. Quase metade dos entrevistados afirma que entre 26% e 50% das atividades essenciais já funcionam sem intervenção manual, indicando que ainda existe amplo espaço para expansão da automação corporativa.
Entre os principais obstáculos à transformação digital aparecem desafios ligados à infraestrutura tecnológica. Garantir segurança em ambientes cada vez mais complexos lidera a lista de preocupações, citado por 32% dos entrevistados. Em seguida aparecem o controle dos custos de infraestrutura (26%), a complexidade da gestão e armazenamento de dados (25%), a integração entre ambientes híbridos e multinuvem (25%) e a dificuldade de comprovar o retorno financeiro dos investimentos digitais (23%).
Quando questionados sobre as razões pelas quais iniciativas digitais não atingem os resultados esperados, 37% apontam limitações da infraestrutura tecnológica, 36% citam a falta de colaboração entre áreas da empresa e 34% atribuem o problema às restrições orçamentárias. Também aparecem entre os fatores mais relevantes a escassez de profissionais qualificados e expectativas de negócio consideradas irreais.
A pesquisa evidencia ainda um cenário de elevada fragmentação tecnológica. Em média, as empresas utilizam 16 soluções específicas diferentes, enquanto 81% afirmam que a proliferação dessas ferramentas aumentou significativamente a complexidade operacional nos últimos dois anos. Mesmo assim, não há consenso sobre o melhor modelo de arquitetura tecnológica: 41% defendem a adoção de múltiplas soluções especializadas, enquanto 40% preferem plataformas unificadas.
Outro dado que chama atenção é a distribuição do orçamento de tecnologia. Segundo o levantamento, 76% das organizações destinam mais recursos para manter os sistemas existentes em funcionamento do que para iniciativas de inovação. Apenas 9% afirmam investir mais em projetos inovadores do que na manutenção da infraestrutura atual, cenário que pode limitar o ritmo da transformação digital.
Embora 93% dos entrevistados considerem que sua infraestrutura tecnológica já esteja preparada para aplicações de inteligência artificial, a percepção não se traduz em resultados financeiros. O estudo mostra que 61% das empresas admitem dificuldades para converter investimentos em IA em retorno mensurável para os negócios. Entre as principais barreiras estão preocupações com segurança e conformidade regulatória, escassez de profissionais especializados, falta de casos de uso claramente definidos, fragmentação dos dados e deficiência na governança das informações.
Na avaliação do indiano Kishore Kumaar, country manager da ManageEngine no Brasil, o principal desafio para acelerar a adoção da inteligência artificial não está na tecnologia em si, mas na qualidade da base de dados das organizações. “O grande problema das empresas no País é a governança dos dados para se adotar uma plataforma de IA. Nossas soluções ajudam a resolver exatamente esse problema, abrindo espaço para que as companhias possam avançar na adoção de tecnologias.”
A avaliação do executivo converge com outro dado do levantamento: 86% dos entrevistados afirmam que a fragmentação tecnológica limita a capacidade de escalar iniciativas de inteligência artificial dentro das empresas, reforçando a necessidade de integrar sistemas, dados e plataformas para extrair valor das novas ferramentas.
Na área de cibersegurança, o cenário também preocupa. Mais da metade das empresas, equivalente a 57% dos entrevistados, registrou aumento no número de incidentes de segurança bem-sucedidos em 2025. Além disso, 70% afirmam estar mais preocupados com vazamentos de dados provocados pelo uso de ferramentas de inteligência artificial generativa não autorizadas pelos funcionários. Como resposta, as organizações vêm ampliando políticas internas de uso de IA, oferecendo contas corporativas para ferramentas autorizadas, promovendo campanhas de conscientização e intensificando treinamentos em segurança digital.
O estudo mostra que as empresas também têm buscado fortalecer a integração entre suas soluções de segurança e os ambientes de tecnologia. Hoje, 91% afirmam que suas ferramentas de cibersegurança já operam de forma integrada aos demais sistemas de TI, movimento considerado essencial para ampliar a proteção diante da crescente sofisticação das ameaças digitais.
A pesquisa também aponta desafios de governança. Embora 91% dos participantes afirmem existir alinhamento entre lideranças de negócios e tecnologia em relação às prioridades da transformação digital, apenas 45% consideram esse alinhamento efetivamente forte. Ao mesmo tempo, quase metade dos entrevistados afirma que a simplificação da infraestrutura tecnológica ainda não é tratada como prioridade estratégica compartilhada entre as áreas de negócio e de TI, evidenciando diferenças de percepção sobre o caminho para acelerar a transformação digital.
Os resultados indicam que a próxima etapa da transformação digital nas empresas latino-americanas dependerá menos da adoção de novas ferramentas e mais da capacidade de consolidar ambientes tecnológicos, fortalecer a governança de dados e alinhar as estratégias entre as áreas de tecnologia e negócios. Nesse cenário, a inteligência artificial deixa de ser apenas uma aposta tecnológica e passa a exigir uma infraestrutura mais integrada para gerar ganhos concretos de produtividade e competitividade.











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