Batalha de quebra de ossos: quem sai perdendo se a Copa do Mundo for realizada sem as seleções da Europa?


Após o anúncio de Gianni Infantino, presidente da Federação Internacional de Futebol (FIFA), de seu projeto para vender participações da Copa do Mundo a investidores do setor privado, a União das Federações Europeias de Futebol (UEFA) intensificou o confronto, ameaçando boicotar a próxima Copa do Mundo caso o projeto avance.

Segundo uma reportagem da rede francesa “RMC”, as 55 federações da UEFA concordaram por unanimidade em boicotar as próximas competições internacionais caso o plano de Infantino seja executado, o que levanta questionamentos sobre as repercussões econômicas da realização de uma Copa do Mundo sem as seleções europeias, apesar de tais ameaças raramente se converterem em boicote efetivo.

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As receitas da FIFA durante o ciclo 2023-2026 chegaram a cerca de 15 bilhões de dólares, ou seja, quase o dobro do ciclo anterior, e a Copa do Mundo masculina sozinha respondeu por 85% das receitas.

O especialista em economia do esporte, Christophe Lepetit, divide essas receitas em três pilares principais: os direitos de transmissão televisiva, com cerca de um terço; o patrocínio; e os ingressos e hospitalidade, com percentuais que variam entre 22 e 24% para cada um.

A Europa desempenha um papel central nesses setores graças ao seu peso esportivo e à sua força comercial, além de as competições de seus clubes, encabeçadas pela Liga dos Campeões da Europa, contribuírem para a formação de estrelas como Messi, Haaland, Cristiano Ronaldo, Rodri e Mbappé, cuja fama a FIFA aproveita mundialmente por meio das seleções nacionais.

O que aconteceria economicamente se a Europa ficasse de fora?

Lepetit acredita que a ausência das grandes nações europeias reduziria consideravelmente o valor do produto que a FIFA vende, afirmando: “Sem ofensa a ninguém, se você substituir a Alemanha por Curaçao ou a França por Cabo Verde, não estou totalmente certo de que isso despertaria o mesmo interesse da mídia, dos patrocinadores ou do público”.

Os detentores dos direitos de transmissão seriam os primeiros a renegociar seus contratos. Lepetit estima que o valor dos direitos de transmissão da Copa do Mundo na França, pelos quais o canal M6 pagou 120 milhões de euros pela edição de 2026, poderia cair para apenas cerca de 12 milhões de euros na ausência da seleção francesa.

O valor dos contratos de patrocínio também recuaria, ao passo que as receitas de ingressos e hospitalidade poderiam ser afetadas, tendo em vista que os torcedores europeus estão entre os que mais gastam para comparecer aos grandes torneios.

Lepetit conclui que a ausência da Europa seria como um “tsunami sobre o modelo econômico da FIFA”.

E quanto ao “FIFA Forward Enterprise”?

A nova empresa comercial que Infantino quer fundar para vender os direitos comerciais e de marketing das competições da FIFA é avaliada em cerca de 17,5 bilhões de euros, mas essa avaliação depende em parte das receitas recentes da Copa do Mundo, que viu a chegada de 6 seleções europeias das 8 às quartas de final.

Lepetit adverte que a ausência da Europa reduziria consideravelmente o valor da empresa, afirmando: “O valor atribuído à sua empresa não será de 17,5 bilhões de euros, pode passar a ser 10, 12, 8 ou até menos. Tudo está muito interligado e entrelaçado”. Ele considera que Infantino não teria condições de compensar essa queda.

Quem é o maior prejudicado?

Ainda assim, a França e os demais países europeus também pagariam um preço elevado, já que as federações perderiam parte de suas receitas comerciais, os patrocinadores e as empresas de material esportivo poderiam renegociar seus contratos, enquanto os jogadores seriam privados de participar do mais tradicional dos torneios.

Lepetit resume a situação afirmando: “Todos perdem no final: os torcedores, os jogadores, as federações nacionais, a UEFA, as confederações e a FIFA”.



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