Se o boteco é o Maracanã da resenha, a barbearia é o Aterro das prosas banhadas pelo futebol. Mal chega ao salão, alma de peladeiro, o sujeito ataca: “Ver Vasco x Vitória depois da Copa é uma crueldade. Deveríamos passar por uma quarentena”.
Solidário, o tricolor ao lado emenda:
“O Fluminense parece que não voltou do recesso. É, meu amigo, o sofrimento recomeçou”.
“Calma que o Flamengo vai fazer vocês se lembrarem da Copa”, provoca o rubro-negro.
“Só se for em relação aos favorecimentos do VAR”, retruca o alvinegro gaiato, navalha na língua.
O choque de realidade tem vida curta. Logo o Mundial some no retrovisor e a paixão clubística, solvente universal, dissipa lamúrias, renova esperanças. Instala um novo ciclo de desassossegos e alegrias. A dialética, sabemos, está no DNA do torcedor.
Enquanto isso, convém jogadores, treinadores, dirigentes atinarem para pedagógicos lembretes e alertas legados pela Copa do Mundo:
- Fúria coletiva: a campeã Espanha reluz a triangulação decisiva entre intensidade, eficiência defensiva (só um gol em oito partidas!) e força coletiva. Sem descuidar do ataque, a Fúria honrou o apelido pelo ímpeto conjjunto em controlar o jogo. Um padrão a ser seguido.
- Raça na veia: a vice-campeã Argentina mostrou como fibra continua obrigatória aos escretes competitivos. Combinada com um 10 genial, melhor ainda. Pena que às vezes era deturpada em violência.
- Sangue novo: não obstante a longevidade de Messi e Cristiano Ronaldo, as melhores equipes do torneio primam pela renovação de talentos. Não é uma irrelevante coincidência, e sim política indispensável ao sucesso esportivo, econômico, social. (Não à toa os espanhóis conquistaram também o Mundial Sub-19.) Retomá-la constitui uma das receitas para o Brasil recuperar um protagonismo correspondente aos cinco títulos.
- À brasileira: Espanha, Marrocos e, em especial, França implodiram a ingênua presunção de que toque de bola é um tanto incompatível com a dinâmica intensa do futebol contemporâneo. Mais fácil um craque ajudar a marcação do que transformar o marcador num às da criação, da armação ou da finalização. Nossos times e nossa seleção precisam, numa correção de curso, revalorizar tal primazia – historicamente exercida por maestros e pontas de lança dribladores, goleadores, encantadores, terror das defesas e do previsível. Assim berrou uma Copa recheada de Camisas Dez. Excepcionalmente nenhum deles vestia a Canarinho. Talvez seja o recado mais duro e mais precioso nos enviado pela competição.
- Bola para as redes: sensações na internet, o goleiro Vozinha, da estreante Cabo Verde; o irresistível Keyne, irmão caçula do atacante espanhol Lamine Yamal; e a memorável remada norueguesa nos lembraram: personagens carismáticos e cenas inusitadas permanecem igualmente primordiais ao mundo das chuteiras – progressivamente espetacularizado desde os anos 1940, quando o rádio passava a eletrificar histórias e a formar milhões de torcedores.
Em meio às sagradas provocações, a turma da barbearia sabe que, entre um resistente ufanismo de pentacampeão e um viralatismo de excluído do baile, o quintal verde-amarelo pisca para o caminho do meio. No retorno à rotina doméstica, nosso despertar não trilha nem a majestade de outrora nem o desespero de um moribundo no deserto.
A fonte não secou. O desafio é tornar a aproveitá-la estrategicamente, com sabedoria.
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No campo da inclusão
Esporte e cultura se entrelaçam como propulsores de transformação social. O tema irriga a roda de conversa Revista da Calçada – Quando os invisíveis escrevem a cidade, sexta agora (24), na 24ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). O presidente da Imprensa da Cidade e criador da Biblioteca A Casa Amarela, Pedro Gerolimich, e o escritor, poeta e ex-morador de rua Léo Motta apresentam a primeira revista de poesia produzida por população em situação de rua no país.
O encontro, às 17h30, na Casa da Leitura e do Conhecimento, debate o papel da palavra na reconstrução de vidas e no fortalecimento da cidadania. A publicação busca dar visibilidade a escritores que transformaram suas experiências nas ruas em arte e literatura.
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Alexandre Carauta é jornalista e professor da PUC-Rio, integrante do corpo docente da pós em Direito Desportivo da PUC-Rio. Doutor em Comunicação, mestre em Gestão Empresarial, pós-graduado em Administração Esportiva, formado também em Educação Física. Organizador do livro “Comunicação estratégica no esporte”.










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