Por trás da glória da conquista da Copa Libertadores de 1976, havia um cenário de tensão e violência desconhecido por muitos torcedores. Entre as décadas de 1960 e 1980, a América do Sul viveu sob fortes ditaduras militares, contexto que influenciou diretamente o ambiente em torno das partidas. A política de exaltação do nacionalismo, presente no Brasil, na Argentina e no Chile — países por onde o Cruzeiro passou naquela campanha — também chegava aos gramados.
Esse contexto ficou ainda mais evidente nos três jogos da decisão da Libertadores. O primeiro foi disputado no Mineirão. No Brasil, já havia movimentos em favor do abrandamento do regime militar e da abertura política. Atuando em casa e representando o país, porém, esse cenário pouco interferiu em campo. O Cruzeiro goleou o River Plate por 4 a 1 sem maiores dificuldades.
O segundo confronto, na Argentina, foi completamente diferente. O país vivia os primeiros meses da ditadura militar. Apenas quatro meses antes da final, em março de 1976, um golpe havia levado os militares ao poder. A decisão entre Cruzeiro e River Plate passou a ser observada de perto pelo governo, que buscava transformar o futebol em instrumento de propaganda nacionalista. Um título do River reforçaria esse discurso.
“Os times ganharem a Libertadores era uma propaganda política gigante. O River ganhar era uma honra para o nacionalismo argentino. Quando o Cruzeiro chega a Buenos Aires, o clima é muito pesado. Tinha censura, os jornalistas não podiam falar nada além do jogo. O aeroporto estava sitiado, assim como os árbitros. Havia muita violência e repressão”, relembra o historiador Geovano Moreira Chaves, professor do curso de História do Instituto Federal do Sul de Minas (IF Sul de Minas) e autor do artigo ‘As origens da Società Sportiva Palestra Italia em 1921: imigração italiana, associativismo e integração social’.
Segundo Geovano, esse ambiente teve impacto direto sobre o Cruzeiro dentro de campo. A segunda partida da decisão, disputada no Monumental de Núñez, casa do River Plate, transformou-se em uma verdadeira guerra.
“No segundo jogo, na Argentina, o River usou de uma violência extrema. E os jogadores do Cruzeiro se sentiram intimidados a reagir por causa do contexto político. Ficaram com medo de uma repressão da polícia ou até mesmo da ditadura. Havia um nacionalismo extremo, e a vitória do River significaria uma propaganda política para o governo. Isso teve reflexo direto no campo. As faltas cometidas pelo River tinham um entendimento; as do Cruzeiro, outro”, pontua.
Apesar da tensão, a maior parte dos torcedores conseguiu acompanhar os jogos sem grandes problemas, embora episódios de violência tenham sido registrados. Especialista na história do Cruzeiro, o administrador aposentado Marcus Vinícius Trópia esteve no Monumental de Núñez e guarda lembranças marcantes da viagem.
“Eu e meu irmão estávamos lá assistindo ao jogo. Estávamos na rua e, de repente, passaram uns carabineiros armados e prenderam uma pessoa perto da gente. Em outro momento, na véspera da partida, presenciamos um tiroteio. Estávamos, inclusive, com um amigo argentino. Como estávamos curiosos e levantamos para ver o que acontecia, ele nos empurrou para um canto, dizendo: ‘Abaixa, abaixa, abaixa’”, relata.
Estádio Nacional de Santiago: palco da final e da repressão
A vitória do River Plate por 2 a 1, em Buenos Aires, levou a decisão para o terceiro jogo, disputado em Santiago, no Chile, país que vivia sob a violenta ditadura de Augusto Pinochet. Até mesmo os torcedores enfrentaram dificuldades por causa da repressão e do clima de tensão imposto pelo regime.
“Tenho relatos de alguns amigos que foram assistir ao jogo e disseram que mal podiam sair do hotel, praticamente ficavam confinados. Um dia, conversando com o Guido, que foi massagista do Cruzeiro, com o Palhinha e com o doutor Ronaldo Nazaré, médico do Cruzeiro e hoje um amigo meu, todos diziam que o clima estava pesadíssimo”, conta Marcus Vinícius Trópia.
O relato é semelhante ao do atacante Joãozinho, que recorda as restrições impostas pelo regime antes e depois da decisão.
“No Chile tinha toque de recolher. Nove, dez horas da noite, não tinha ninguém na rua. A gente ficava todo dia dentro do hotel. O jogo foi cedo, por volta de cinco, seis horas da tarde. Às nove da noite, depois do título, não se via ninguém nas ruas. Fizemos toda a comemoração praticamente sozinhos, dentro do hotel”, relembra.
A repressão era tão intensa que nem mesmo uma final de Copa Libertadores fez com que o Estádio Nacional de Santiago deixasse, ainda que temporariamente, de servir como centro de detenção de presos políticos. Enquanto a decisão era disputada no gramado, pessoas perseguidas pelo regime permaneciam presas nas dependências do estádio. De um lado, a festa do futebol; do outro, o drama imposto pela ditadura.
“Eles assistiram ao jogo das grades, porque aquele era um lugar de prisão. O Chile era muito pior. Pinochet era violento. Houve muito mais mortes do que na Argentina e no Brasil”, relembra Marcus Vinícius Trópia.











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