Em 30 de julho de 1976, o futebol sul-americano se curvou ao Cruzeiro. A conquista da Copa Libertadores — o primeiro título internacional da história do clube estrelado — eternizou uma geração lendária, capaz de encantar com os pés bailarinos de Joãozinho e de surpreender com as ideias revolucionárias de Zezé Moreira, um dos maiores estrategistas do futebol brasileiro.
Foi justamente um desses movimentos ousados do treinador que permaneceu como um mistério por quase cinco décadas.
Na campanha daquela Libertadores, Joãozinho entrou em campo vestindo a camisa 10. Um detalhe aparentemente simples, mas intrigante para quem conhece a história do Cruzeiro: durante toda a carreira, o Bailarino ficou marcado pela camisa 11. A explicação para a troca jamais havia sido revelada.
O enigma atravessou gerações e sempre despertou a curiosidade do colecionador Omar Franco, de 56 anos, guardião de um dos maiores acervos dedicados ao Cruzeiro, com mais de 16 mil peças históricas. Entre réplicas praticamente fiéis das taças da Libertadores, do Campeonato Brasileiro e da Copa do Brasil, além de medalhas, faixas, pôsteres, luvas, chuteiras e cerca de duas mil camisas, ele guarda uma das maiores relíquias de sua coleção: o uniforme original usado por Joãozinho na decisão da Libertadores de 1976.
Omar comprou a camisa 10 de Joãozinho na Libertadores de 1976 de um advogado. Foto: Fred Magno/ O TEMPO
“A camisa tem a numeração 10, mas o Joãozinho sempre usou a 11. Nunca consegui descobrir por que ele jogou com a 10. Nós, colecionadores, conhecemos a procedência das peças e sabemos identificar quando um item é autêntico. Essa é realmente a camisa usada pelo Bailarino naquela final histórica”, conta Omar.
Foi com a ajuda de O TEMPO Sports que o mistério, mantido por quase 50 anos, enfim ganhou resposta.
Omar levou a camisa de volta ao seu verdadeiro dono. Ao vestir novamente o manto azul da decisão contra o River Plate, Joãozinho revelou, pela primeira vez, revelou o motivo da mudança.
Joãozinho e Omar, encontro da camisa com o autor do gol da final da Libertadores de 1976. FOTO: Fred Magno/OTEMPO
“O Zezé chamou eu e o Dirceu e disse que a gente ia trocar os números das camisas. Foi antes do jogo contra o Internacional, aquele histórico 5 a 4 no Mineirão. Acho que era para confundir os adversários”, relembra o eterno Bailarino.
A estratégia deu certo. Naquela campanha memorável, o Cruzeiro conquistou, pela primeira vez, a América.
E quanto vale essa camisa?
A resposta vem sem hesitação.
“Não tem preço. Já recebi propostas indecorosas, mas não vendo”, afirma Omar.
Segundo o colecionador, já ofereceram 20 mil dólares (aproximadamente R$ 102 mil) pela histórica camisa 10 de Joãozinho. A resposta, sempre foi a mesma: a peça permanece onde ele acredita que deve estar, ao lado de outras quatro camisas daquela inesquecível campanha de 1976, preservando um dos capítulos mais gloriosos da história celeste.
Afinal, foi dos pés de Joãozinho, em uma cobrança de falta nunca antes feita — o batedor oficial do Cruzeiro era Nelinho, depois Palhinha —, que saiu o gol da vitória por 3 a 2 sobre o River Plate. O lance, comemorado em silêncio no Chile e celebrado em êxtase nas ruas de Belo Horizonte, permanece vivo na memória do eterno Bailarino. E do torcedor estrelado.
Joãozinho volta a vestir camisa histórica de 76











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