Ativos digitais: América Latina debate infraestrutura financeira


Os ativos digitais deixaram de ocupar apenas o campo dos testes para entrar no debate sobre a construção da infraestrutura financeira na América Latina. A mudança esteve no centro do painel “The Future of Financial Infrastructure in Latin America”, realizado nesta terça-feira (11), durante o Blockchain Leaders 2026.

Na abertura do debate, Nicole Dyskant, CEO (diretora-presidente) e cofundadora da Regdoor, resumiu essa mudança a partir das perguntas feitas pelo próprio mercado ao longo dos últimos anos.

“Durante anos, a pergunta foi se a blockchain poderia apoiar as finanças e fornecer tecnologia como infraestrutura para o mercado financeiro”, afirmou.

Segundo Dyskant, essa dúvida passou por outra etapa, centrada em como aplicar a tecnologia. Agora, porém, a discussão envolve quais soluções têm capacidade de permanecer dentro do sistema financeiro.

“A pergunta agora é: quais são as tecnologias valiosas, escaláveis e interoperáveis o suficiente para prevalecer nessa indústria?”, questionou.

Blockchain e infraestrutura financeira entram em nova fase

Para Dyskant, a transformação da blockchain no mercado financeiro depende de fatores que ultrapassam a aplicação da tecnologia em projetos isolados.

A executiva destacou que sistemas financeiros precisam funcionar inclusive durante períodos de crise e testes de estresse. Por isso, a adoção da blockchain como parte da infraestrutura exige mecanismos de supervisão e coordenação.

“O grande desafio é como garantimos que essa tecnologia seja robusta o suficiente para construir a infraestrutura real para o mercado financeiro”, disse.

Nesse cenário, a regulação de ativos digitais passa a ocupar parte da discussão. Dyskant defendeu regras capazes de reduzir a arbitragem regulatória e permitir uma supervisão que acompanhe as características das operações realizadas em blockchain.

“Precisamos de coordenação. Precisamos das regulações para evitar arbitragem regulatória e para coordenar a supervisão”, afirmou.

Ela também apontou a possibilidade de utilizar recursos on-chain no acompanhamento das operações. Na avaliação da executiva, a tecnologia pode ajudar os órgãos responsáveis pela fiscalização a direcionar medidas aos agentes que descumprem as regras, sem transferir o impacto para todo o setor.

Dyskant citou ainda o Brasil como um dos mercados inseridos nesse processo de aproximação entre infraestrutura financeira, inovação e regulação.

El Salvador quer tirar ativos digitais do debate sobre o “futuro”

Juan Carlos Reyes, presidente da Comissão Nacional de Ativos Digitais de El Salvador, adotou outra perspectiva ao falar sobre a evolução do setor. Para ele, tratar ativos digitais como uma tecnologia do futuro já não descreve o estágio alcançado pelo mercado.

“Quero que paremos de falar sobre o futuro e entendamos que isso é o presente”, afirmou.

Reyes lembrou a decisão tomada por El Salvador em 2021 em relação ao bitcoin. Segundo ele, a experiência permitiu ao país entender diferenças entre o funcionamento das finanças tradicionais e o mercado baseado em ativos digitais.

“O benefício mais importante que El Salvador adquiriu com a legalização do bitcoin foi compreender o que realmente são ativos digitais”, disse.

Para explicar essa diferença, Reyes comparou o sistema financeiro à indústria automobilística. Um carro elétrico, segundo ele, pode cumprir para o consumidor uma função semelhante à de um veículo a combustão, mas exige conhecimento diferente de quem realiza sua manutenção.

A mesma lógica, afirmou, pode ser aplicada ao setor financeiro.

“Os ativos digitais são programas de computador programados para se comportar como instrumentos financeiros”, afirmou Reyes.

Na avaliação do presidente da Comissão Nacional de Ativos Digitais, estruturas criadas para supervisionar instrumentos financeiros tradicionais nem sempre possuem, por definição, as mesmas ferramentas necessárias para lidar com produtos baseados em código.

“Esperamos que a mecânica tradicional do sistema financeiro, como o banco central e a superintendência, seja capaz de trabalhar com ativos digitais”, disse.

Para Reyes, a experiência salvadorenha mostrou que a criação de regras depende primeiro da compreensão sobre as diferenças entre os dois ambientes.

Uruguai incorpora ativos virtuais ao sistema financeiro

No Uruguai, o caminho apresentado durante o painel passa pela integração dos ativos virtuais à estrutura de supervisão que já existe no Banco Central.

Patricia Tudisco, intendente de Supervisão Financeira do Banco Central do Uruguai, explicou que a instituição reúne atribuições relacionadas à estabilidade de preços, ao sistema de pagamentos e à fiscalização do sistema financeiro.

Dentro dessa estrutura funciona a Superintendência de Serviços Financeiros, responsável pela regulação e pela supervisão das entidades do setor.

De acordo com Tudisco, a legislação uruguaia decidiu incorporar os provedores de serviços de ativos virtuais e os emissores de ativos virtuais estáveis ao conjunto de entidades submetidas a essa estrutura.

A supervisão também pode alcançar valores registrados por meio de tecnologias de registro distribuído, conhecidas pela sigla DLT.

Dessa forma, segundo a representante do Banco Central uruguaio, o modelo procura integrar o tratamento regulatório das novas operações ao sistema financeiro do país.

Regulação de ativos digitais exige autorização no Uruguai

Tudisco também destacou o modelo adotado para empresas que pretendem prestar serviços relacionados a ativos virtuais no Uruguai.

Segundo ela, o processo vai além da inclusão da companhia em um cadastro.

“Não é apenas um registro, é uma autorização”, afirmou.

Dessa forma, na prática, explicou, a concessão envolve uma avaliação das atividades e das condições da empresa interessada em atuar no mercado.

“Há uma avaliação sobre as atividades e as condições da empresa que vai se instalar para conceder a licença”, disse.

A autorização é exigida tanto para companhias que pretendem operar no Uruguai quanto para aquelas que desejam oferecer seus serviços de forma massiva ao público uruguaio, de acordo com Tudisco.

As abordagens apresentadas durante o Blockchain Leaders 2026 mostram diferentes caminhos para uma mesma discussão: como incorporar tecnologia, regulação e supervisão à transformação do sistema financeiro.

Enquanto El Salvador parte da experiência acumulada com o bitcoin para defender uma estrutura própria para o setor, o Uruguai inclui os prestadores ligados aos ativos virtuais dentro do perímetro de fiscalização de seu Banco Central.

Em suma, no centro das duas estratégias está uma questão levantada na abertura do painel: a passagem da experimentação para a infraestrutura. Portanto, para os participantes, o avanço dos ativos digitais na infraestrutura financeira da América Latina dependerá cada vez mais da capacidade de integrar tecnologia, regras e supervisão.



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