Stablecoins podem funcionar como uma camada de liquidação entre o Pix e sistemas de pagamento asiáticos sem exigir que o Banco Central conecte diretamente a infraestrutura brasileira a redes como Alipay e WeChat Pay.
A avaliação é de Logan Xu, Head of LATAM da Cregis, em entrevista ao Cointelegraph Brasil durante o Blockchain Rio. Segundo o executivo, pagamentos entre Ásia e América Latina ainda dependem, em muitos casos, de diversos bancos correspondentes, aumentando custos, prazos de liquidação e o trabalho de reconciliação financeira.
Com stablecoins, afirma Xu, empresas podem concluir transferências em minutos, inclusive fora do horário bancário, reduzindo o período em que o capital permanece preso durante pagamentos internacionais.
Para companhias brasileiras que importam produtos ou pagam fornecedores asiáticos, o benefício não se limita às tarifas menores. A maior velocidade de liquidação também pode melhorar fluxo de caixa, gestão de tesouraria e acompanhamento dos pagamentos.
Pix não precisa se conectar diretamente ao Alipay
Questionado sobre a possibilidade de integrar diretamente Pix, Alipay e WeChat Pay, Xu afirmou que o principal obstáculo não é tecnológico.
Cada sistema opera dentro de um ambiente regulatório diferente. Enquanto o Brasil possui suas próprias normas cambiais, requisitos de licenciamento e padrões de compliance, instituições chinesas precisam obedecer às regras locais.
Nesse cenário, stablecoins poderiam servir como infraestrutura intermediária. Segundo Xu, uma operação poderia começar em Pix no Brasil, ser liquidada por meio de blockchain e posteriormente convertida para a moeda local do destinatário.
“Essa abordagem funciona sem exigir que cada rede doméstica de pagamentos construa conexões diretas com todos os outros países.”
Para o executivo, essa característica pode transformar stablecoins em uma das peças da infraestrutura de pagamentos internacionais, embora o ativo digital sozinho não resolva todo o processo. Empresas ainda precisam de sistemas para administrar carteiras, compliance, fluxos de transações e liquidação.
Xu também diferencia essa função daquela desempenhada pelo e-CNY, a moeda digital do banco central chinês. Mesmo com uma eventual expansão do yuan digital, ele não acredita que stablecoins necessariamente perderão espaço nos corredores internacionais.
O argumento é que os dois instrumentos atendem a propósitos diferentes. Enquanto o e-CNY integra o ecossistema do renminbi, stablecoins como USDT e USDC já circulam em uma infraestrutura global formada por exchanges, custodians, empresas e provedores de pagamentos.
“Altseason” não morreu, mas pode nunca mais ser igual
A transformação da infraestrutura financeira também aparece na leitura de Xu sobre o mercado de criptomoedas. Para ele, a entrada de investidores institucionais não “matou” o restante do mercado, mas tornou a distribuição de capital mais seletiva.
Nos ciclos anteriores, a valorização do Bitcoin costumava levar recursos inicialmente para grandes altcoins e depois para praticamente todo o mercado. Projetos conseguiam registrar fortes altas simplesmente porque investidores buscavam retornos maiores em um ambiente altamente especulativo.
Agora, afirma Xu, investidores avaliam com maior atenção usuários reais, geração sustentável de receita, tecnologia e modelo de negócios.
Por isso, ele não considera que o conceito de altseason tenha desaparecido. A próxima onda, entretanto, pode concentrar capital em setores com aplicações mensuráveis, entre eles infraestrutura para stablecoins, tokenização, DeFi e soluções blockchain para empresas.
A mesma lógica aparece na tokenização. Para Xu, simplesmente colocar um ativo on-chain não resolve problemas de liquidez, comprovação de propriedade ou confiança dos investidores. A próxima etapa dependerá da construção de infraestrutura de custódia, governança, compliance e integração com o sistema financeiro tradicional.
Na visão do executivo, o mercado cripto caminha, portanto, de uma dinâmica baseada principalmente em especulação para outra cada vez mais dependente de infraestrutura, utilidade e adoção no mundo real.
Confira a entrevista completa
Stablecoins
Cointelegraph Brasil: Como as stablecoins e a infraestrutura blockchain podem reduzir custos e prazos de processamento dos pagamentos entre Ásia e América Latina?
Logan Xu: A maioria dos pagamentos realizados entre Ásia e América Latina ainda passa por diversos bancos correspondentes antes de chegar ao destino. Cada intermediário adiciona tempo de liquidação, taxas e trabalho adicional de reconciliação para as equipes financeiras.
As stablecoins oferecem outra opção às instituições. Os recursos podem ser liquidados em minutos, em vez de levar vários dias úteis, e as transações não ficam restritas aos horários de funcionamento dos bancos ou feriados. Para empresas que importam produtos da Ásia ou pagam fornecedores em diversos mercados, uma liquidação mais rápida melhora o fluxo de caixa porque o capital não fica retido enquanto os pagamentos estão em trânsito.
Muitas empresas inicialmente olham para os custos menores das transações, mas as equipes financeiras geralmente acabam se interessando mais pela eficiência operacional. Uma reconciliação mais rápida, maior visibilidade sobre o status dos pagamentos e uma gestão de tesouraria mais simples frequentemente proporcionam um valor ainda maior.
No entanto, pagamentos com stablecoins exigem mais do que apenas o próprio ativo. As empresas também precisam de uma infraestrutura confiável para gerenciar carteiras, fluxos de transações, compliance e operações de liquidação. É nesse ponto que empresas como a Cregis ajudam companhias a construir e operar fluxos de pagamentos com ativos digitais em diferentes mercados.
Pix, Alipay e WeChat Pay
Cointelegraph Brasil: Quais diferenças regulatórias dificultam a integração entre instituições financeiras asiáticas e latino-americanas, especialmente no Brasil? Por que as stablecoins são necessárias nesse corredor — não seria mais simples e fácil conectar o Pix aos sistemas Alipay e WeChat Pay?
Logan Xu: As pessoas frequentemente presumem que conectar o Pix ao Alipay ou WeChat Pay é principalmente um projeto tecnológico. Isso é apenas uma parte da questão.
Cada sistema de pagamentos funciona dentro de seu próprio arcabouço regulatório. O Brasil possui regras cambiais, requisitos de licenciamento e padrões de compliance diferentes daqueles existentes na China. As instituições financeiras ainda precisam de um método em conformidade com as regras para movimentar valores entre jurisdições e, ao mesmo tempo, atender aos reguladores de ambos os mercados.
As stablecoins simplificam a liquidação entre esses sistemas. Um pagamento pode começar pelo Pix, ser liquidado por meio de uma infraestrutura blockchain e, posteriormente, convertido para a moeda local no lado do destinatário.
Essa abordagem funciona sem exigir que cada rede doméstica de pagamentos construa conexões diretas com todos os outros países.
e-CNY
Cointelegraph Brasil: O e-CNY poderia se tornar a primeira CBDC realmente adotada como meio de pagamento? Isso poderia afetar a eficiência das stablecoins nos corredores de pagamentos ligados à Ásia?
Logan Xu: Antes de comparar o e-CNY às stablecoins, é importante compreender que eles atendem a propósitos diferentes.
O e-CNY, também conhecido como RMB digital, é a moeda digital do banco central da China, emitida pelo Banco Popular da China. Trata-se de uma forma digital da moeda soberana e foi projetada principalmente para cenários de pagamentos digitais dentro do ecossistema do RMB.
Stablecoins como USDT e USDC, por outro lado, são ativos digitais emitidos por entidades privadas e projetados para manter um valor estável em relação às moedas fiduciárias. Elas são utilizadas principalmente para liquidação baseada em blockchain e transações internacionais.
Portanto, mesmo que a adoção do e-CNY continue crescendo, isso não necessariamente reduziria o papel das stablecoins nos corredores de pagamentos internacionais. Eles estão resolvendo problemas diferentes.
Pagamentos internacionais exigem a participação de bancos, empresas, reguladores e provedores de infraestrutura em diversos mercados. O principal desafio não é apenas a moeda utilizada no pagamento, mas também a maneira como diferentes sistemas financeiros conseguem se conectar de forma eficiente e, ao mesmo tempo, atender aos requisitos de compliance.
As stablecoins ganharam espaço nos corredores internacionais porque já conectam uma rede global de exchanges, custodiantes, provedores de pagamentos e empresas. Para companhias que movimentam dinheiro entre Ásia e América Latina, interoperabilidade e eficiência operacional continuam sendo fatores importantes.
Esperamos que diferentes soluções de pagamentos digitais coexistam no futuro. Para as empresas, a prioridade será contar com uma infraestrutura confiável que permita liquidação segura, compliance e conectividade entre diferentes mercados.
Bull Market do Bitcoin
Cointelegraph Brasil: No último bull market, o preço do BTC atingiu uma nova máxima histórica, mas, diferentemente dos ciclos anteriores, esse movimento não foi acompanhado pelas altcoins e não houve uma “altseason” clássica. Como você enxerga esse cenário? A institucionalização do BTC efetivamente “matou” a dinâmica que caracterizava o mercado cripto de varejo ou os investidores simplesmente ficaram mais seletivos em relação aos projetos nos quais investem?
Logan Xu: O fluxo de capital para os ativos digitais está diferente de quatro ou cinco anos atrás.
Investidores institucionais geralmente se concentram em liquidez, custódia, governança e segurança regulatória antes de alocar volumes significativos de capital. O Bitcoin atende a muitos desses critérios, o que explica por que continua atraindo grandes fluxos de investimentos.
A participação do varejo não desapareceu, mas os investidores ficaram muito mais disciplinados depois de diversos ciclos de mercado. Os projetos agora precisam de produtos melhores, modelos de negócios sustentáveis e comunidades ativas de usuários antes de conseguirem atrair atenção significativa.
No entanto, não acredito que a participação institucional tenha “matado” o mercado cripto de maneira mais ampla. Em vez disso, ela mudou aquilo que os investidores procuram. Agora, os projetos precisam demonstrar adoção real, modelos de negócios sustentáveis e utilidade clara, em vez de depender apenas das narrativas do mercado.
Estamos observando essa mudança principalmente em áreas como infraestrutura de stablecoins, tokenização e aplicações empresariais de blockchain, nas quais a demanda é impulsionada por casos reais de uso nos negócios.
Da perspectiva da Cregis, essa transição representa a mudança de um mercado cujo crescimento era impulsionado pela especulação para outro baseado em infraestrutura e adoção orientada pela utilidade.
Altseason
Cointelegraph Brasil: Pegando a pergunta anterior, ainda podemos falar em uma “altseason” no próximo bull market ou esse conceito, da maneira como o conhecíamos, efetivamente “morreu”?
Logan Xu: Acredito que a definição tradicional de altseason mudou.
Nos ciclos anteriores, a liquidez frequentemente fluía do Bitcoin para as altcoins de grande capitalização e depois se espalhava pelo restante do mercado. Muitos projetos se beneficiavam simplesmente porque os investidores buscavam retornos maiores e o sentimento geral do mercado era extremamente especulativo.
O mercado atual está muito mais seletivo. Os investidores estão prestando mais atenção em saber se um projeto possui usuários reais, receita sustentável, tecnologia sólida e um modelo de negócios claro.
O capital continua entrando em ativos alternativos, mas está se concentrando em áreas com adoção mensurável, como infraestrutura, tokenização, ecossistemas de stablecoins e aplicações de finanças descentralizadas.
Áreas como ecossistemas de stablecoins, infraestrutura de ativos digitais, tokenização e finanças descentralizadas são exemplos nos quais o crescimento está cada vez mais relacionado a casos práticos de uso.
Portanto, eu não diria que a altseason desapareceu, mas ela pode ter uma aparência diferente. A próxima onda de crescimento provavelmente será impulsionada menos pela especulação e mais pela infraestrutura subjacente e pelas aplicações que levam a tecnologia blockchain para operações financeiras do mundo real.
É também nesse ponto que a Cregis enxerga oportunidades de longo prazo: construir a infraestrutura que ajuda empresas a administrar ativos digitais de maneira segura e adotar operações financeiras baseadas em blockchain em escala.
Empréstimos descolateralizados
Cointelegraph Brasil: Em relação a empréstimos, o mercado cripto ainda não desenvolveu soluções realmente eficazes nesse segmento. Atualmente, todos os produtos de empréstimos — e até cartões lastreados em criptomoedas — dependem de garantias. Quando você acredita que o mercado cripto ampliará sua integração com as finanças tradicionais para oferecer produtos sem garantia?
Logan Xu: As garantias continuam sendo a base dos empréstimos em criptomoedas atualmente porque representam a maneira mais direta de gerenciar riscos em um mercado no qual a infraestrutura de crédito ainda está em desenvolvimento.
O desafio dos empréstimos sem garantia não está simplesmente relacionado à tecnologia blockchain. As finanças tradicionais passaram décadas desenvolvendo sistemas de avaliação de crédito baseados em histórico financeiro, identidade, estruturas jurídicas e modelos de gestão de riscos. Os ativos digitais ainda estão construindo fundamentos semelhantes.
Acredito que os primeiros avanços significativos provavelmente surgirão em casos de uso institucionais, e não no crédito ao consumidor. As empresas já possuem históricos operacionais, registros financeiros e relações estabelecidas com instituições financeiras, fornecendo mais dados para a avaliação do risco de crédito.
Com o tempo, podemos ver a infraestrutura blockchain ajudando a melhorar áreas como transparência, verificação de dados em tempo real e gestão automatizada de riscos.
Mas os empréstimos em cripto não precisam reinventar completamente o crédito. As soluções mais robustas provavelmente combinarão a eficiência da blockchain com os princípios de gestão de riscos que as finanças tradicionais desenvolveram ao longo de décadas.
Da nossa perspectiva na Cregis, esse também é o motivo pelo qual a infraestrutura é importante. À medida que os ativos digitais se integram cada vez mais às operações financeiras tradicionais, custódia segura, controles de transações e sistemas operacionais confiáveis serão fundamentos essenciais para uma adoção institucional mais ampla.
Tokenização
Cointelegraph Brasil: O mercado de tokenização de ativos tradicionais está migrando para um ambiente on-chain, permitindo negociações 24 horas por dia, sete dias por semana. Como você enxerga esse desenvolvimento e quais desafios acompanham essa expansão?
Logan Xu: A tokenização está atraindo atenção porque tem potencial para mudar a maneira como ativos tradicionais são emitidos, transferidos e administrados.
Mover ativos para um ambiente on-chain pode melhorar a eficiência da liquidação, aumentar a transparência e permitir um acesso mais flexível aos mercados globais, que deixam de ficar limitados aos horários tradicionais de funcionamento.
No entanto, a tokenização em si é apenas o primeiro passo. Colocar um ativo on-chain não resolve automaticamente os desafios relacionados à liquidez, verificação de propriedade ou confiança dos investidores.
O mesmo nível de confiança e confiabilidade operacional existente nos mercados financeiros tradicionais ainda precisa ser incorporado à infraestrutura de ativos digitais.
Na minha opinião, a próxima etapa da tokenização estará menos relacionada a simplesmente criar representações digitais de ativos e mais à construção da infraestrutura ao redor deles, incluindo custódia segura, governança, compliance, gestão de transações e integração com os sistemas financeiros existentes.
Também é nesse ponto que enxergamos oportunidades de longo prazo na Cregis. À medida que mais instituições exploram ativos tokenizados, elas precisarão de uma infraestrutura confiável para administrar ativos digitais com segurança e operar em escala.
A tecnologia está avançando rapidamente, mas a adoção institucional dependerá, em última análise, de confiança, compliance e utilidade no mundo real.
Mercados preditivos
Cointelegraph Brasil: Os mercados de previsão se tornaram um tema importante, especialmente em torno da Copa do Mundo, mas também expuseram um lado problemático envolvendo manipulação, falta de oráculos confiáveis e endividamento das famílias. Como você enxerga esse cenário e o que podemos esperar nos próximos anos?
Logan Xu: Os mercados de previsão são interessantes porque representam uma nova maneira de as pessoas agregarem informações e expressarem suas opiniões sobre eventos futuros.
Em alguns casos, eles podem fornecer sinais em tempo real que mercados tradicionais ou pesquisas talvez não consigam captar com a mesma rapidez.
No entanto, o desenvolvimento de longo prazo dos mercados de previsão dependerá da capacidade de construir o mesmo nível de confiança e confiabilidade que os usuários esperam dos mercados financeiros tradicionais.
O desafio não está apenas em atrair participantes, mas em garantir que as informações por trás de cada mercado sejam precisas, transparentes e resistentes à manipulação.
Questões como confiabilidade dos oráculos, desenho dos mercados, liquidez e participação responsável ainda precisam evoluir. Esses não são desafios puramente técnicos — eles também envolvem governança e proteção dos usuários.
Acredito que os mercados de previsão têm potencial, mas a próxima etapa de crescimento provavelmente estará menos relacionada à especulação e mais à construção de uma infraestrutura confiável ao redor deles.
Assim como ocorre em outras áreas de adoção da blockchain, o sucesso no longo prazo dependerá da capacidade da tecnologia de criar valor sustentável e conquistar a confiança real dos usuários.











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