Um penálti defendido aos 118 minutos. Três grandes penalidades travadas no desempate. Uma baliza inviolável na final. E, no fim, Camarões campeões africanos pela primeira vez.
Michaely Bihina foi decisiva em praticamente todos os momentos que marcaram a caminhada das Lionesses Indomptables no CAN 2026 e terminou a competição com o prémio de melhor guarda-redes do torneio.
Aos 22 anos, a guarda-redes do Benfica foi muito mais do que uma especialista em defender remates. Foi a segurança de uma seleção que eliminou a Nigéria, afastou Marrocos em casa e, finalmente, ultrapassou o peso de três finais perdidas para conquistar um título inédito. Ao longo da competição, sofreu apenas um golo (de penálti) e terminou com 19 defesas.
Tudo começou longe da baliza
A história de Bihina começou longe dos grandes palcos africanos. Em Ekounou, uma zona de Yaoundé, a jovem Michaely imaginava o futebol de outra forma. Começou como avançada, até que um treinador reparou numa característica que viria a mudar-lhe a carreira: a altura.
«Disse-me que era demasiado alta para ser avançada e que seria melhor como guarda-redes», contou, anos mais tarde. A mudança aconteceu e, apenas seis meses depois de trocar o ataque pela baliza, já estava a ser chamada à seleção dos Camarões. Uma decisão aparentemente circunstancial acabaria por definir toda a sua carreira.
Aos 19 anos, atravessou o continente para continuar o percurso em Portugal. Chegou ao Racing Power, onde rapidamente deixou de ser apenas uma promessa. Em 2022/23, ajudou o clube a conquistar a Segunda Divisão e a subir ao principal escalão. Na época seguinte, já entre as melhores equipas do futebol feminino português, foi eleita a melhor guarda-redes da Liga BPI, apesar do terceiro lugar do Racing Power.
O crescimento levou-a ao Benfica no início de 2026. O clube da Luz apostou na guarda-redes camaronesa e assinou um vínculo de três temporadas, numa mudança que Bihina descreveu como «um sonho tornado realidade».
Não precisou de muito tempo para transformar a oportunidade em troféus. Na primeira temporada em Lisboa, fez parte do plantel que conquistou o Campeonato e a Taça de Portugal – sendo que apenas alinhou por 19 minutos de águia ao peito -, completando uma dobradinha antes de partir para o grande desafio do verão: representar os Camarões no CAN.
Chegava a Marrocos depois de uma época de afirmação em Portugal, mas o que aconteceu na competição africana elevou-a para outro patamar.
A noite em que derrubou a Nigéria
Na primeira jornada, diante do Mali, Bihina sofreu o único golo que viria a encaixar durante toda a competição e de grande penalidade. A partir daí, fechou a baliza.
O primeiro grande teste surgiu nos quartos-de-final. Do outro lado estava a sempre poderosa Nigéria, campeã africana em título e um adversário que há décadas atormentava os Camarões. Era, além disso, uma rivalidade com uma enorme carga histórica: as nigerianas tinham vencido as camaronesas nas finais de 2004, 2014 e 2016.
Bihina respondeu com uma exibição monumental. Fez nove defesas, um recorde numa só partida em fases finais do CAN, e ajudou os Camarões a vencer por 1-0. A vitória colocou a seleção nas meias-finais e garantiu, simultaneamente, o regresso ao Mundial, pela primeira vez desde 2019.
«Tínhamos um objetivo: mudar a história da nossa seleção, especialmente contra a Nigéria», explicou depois do encontro.
O significado daquela noite não passou despercebido. Quando as estatísticas de Bihina apareceram no ecrã do estádio, os adeptos levantaram-se para a aplaudir. Nas bancadas, ouviam-se cânticos com o nome da guarda-redes. No relvado, Christy Ucheibe, sua antiga colega no Benfica e internacional nigeriana, fez questão de a abraçar e felicitar.
No entanto, se contra a Nigéria Bihina tinha sido decisiva, frente a Marrocos tornou-se protagonista absoluta. A meia-final foi equilibrada e chegou aos minutos finais sem golos. Já no prolongamento, aos 118 minutos, as anfitriãs tiveram uma oportunidade de ouro para chegar à final. Fatima Tagnaout assumiu a responsabilidade da grande penalidade. Bihina lançou-se para a direita e defendeu.
«Quando defendi o primeiro penálti durante o jogo, pensei que, se fôssemos para os penáltis, conseguiria fazer mais. Disse a mim própria que tinha de defender pelo menos três», revelou.
O jogo foi mesmo para o desempate. E a guarda-redes do Benfica cumpriu a promessa. Travou três grandes penalidades marroquinas, de Kenza Chapelle, Maryame Atiq e Sakina Ouzraoui, e ajudou os Camarões a vencer por 3-1.
A exibição valeu-lhe novamente o prémio de melhor jogadora em campo. Mais importante, colocou os Camarões numa final do CAN pela primeira vez desde 2016.
Finalmente, o título
Restava um último obstáculo: o Malawi. Depois de três finais perdidas, os Camarões tinham finalmente a oportunidade de conquistar pela primeira vez a competição. E não deixaram escapar a ocasião. As Lionesses Indomptables venceram por 3-0 e fizeram história. Na baliza, Bihina voltou a não sofrer golos.
Terminou assim o CAN com cinco jogos disputados, 19 defesas e apenas um golo sofrido de penálti, frente ao Mali. Na fase a eliminar, manteve sempre a baliza inviolável. Foi uma das principais razões para os Camarões chegarem ao título e, naturalmente, recebeu a distinção de melhor guarda-redes do torneio.
«Eu tinha prometido a mim própria que seria a melhor guarda-redes deste torneio. Consegui. Estou muito feliz», afirmou.
O sucesso de Bihina também a coloca numa linhagem importante. Os Camarões construíram parte da sua reputação futebolística através dos guarda-redes, com nomes como Thomas N’Kono, Joseph-Antoine Bell, André Onana ou Fabrice Ondoa. «É uma honra estar na mesma frase que estes grandes guarda-redes que representaram o nosso país», admitiu.
A comparação não é apenas simbólica. Bihina começa agora a construir o seu próprio lugar nessa história e, sobretudo, a tornar-se uma referência para uma nova geração de futebolistas camaronesas.
A história que começou com um treinador a dizer-lhe que era demasiado alta para jogar na frente acabou com Bihina a levantar a maior taça do futebol feminino africano.
Aos 22 anos, já é campeã portuguesa, vencedora da Taça de Portugal e campeã africana. Tem contrato com o Benfica até 2029 e acaba de completar um torneio que a colocou definitivamente no mapa do futebol feminino internacional.










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