“A Maior Vantagem de África Não Será Escolher Lados, Mas Construir a Sua Força” • Diário Económico


A frase da directora regional do PNUD para África resume o espírito da Conferência Económica Africana de 2026: eliminar barreiras ao comércio, investir na inovação africana e capacitar os jovens para competir numa economia global em mudança.

Durante décadas, os debates sobre África centraram-se “na dependência, na vulnerabilidade e na adaptação”, mas os tempos mudaram e, mais do que nunca, a volatilidade testa a capacidade de resiliência das nações, alerta Sidi Ould Tah, presidente do Banco Africano de Desenvolvimento (BAD). “Hoje, temos de nos concentrar na autonomia, na resiliência, na competitividade e na influência. A autonomia geopolítica de África será medida pela sua capacidade de negociar a partir de uma posição de força, de definir as regras do jogo, de traduzir os seus interesses colectivos em acção colectiva e, em última análise, de influenciar os resultados”, afirma.

A posição é clara. Sidi Ould Tah acrescenta que esta visão está plenamente alinhada com o quadro estratégico delineado através dos Quatro Pontos Cardeais e Nova Arquitectura Africana de Financiamento para o Desenvolvimento (NAFAD).

As palavras do líder do BAD orientaram a Conferência Económica Africana de 2026, em Julho, em Abidjan (Costa do Marfim), um encontro que terminou com a promessa do BAD, do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) e da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) de trabalharem juntos para “uma África resiliente e próspera”. Será a promessa suficiente?

Economistas, investigadores, decisores políticos e especialistas de instituições de desenvolvimento participaram em debates, trocaram perspectivas e apresentaram recomendações práticas para o futuro do continente. Como pano de fundo, há uma certeza: “As tempestades económicas globais continuarão a pôr à prova as instituições africanas”, afirma Raymond Gilpin, economista-chefe da Equipa de Estratégia do PNUD. Para fazer face ao desafio, Gilpin defende que cada país tem de criar condições para que a resiliência das populações se torne “a riqueza fundamental” que “nunca pode ser minada”. “Com a forte parceria entre as nossas instituições, continuemos a unir esforços e a avançar juntos com urgência, clareza e determinação para construir a África resiliente e próspera que merecemos, porque essa é a África de que o mundo precisa”, sustenta o especialista.

“A autonomia geopolítica de África será medida pela sua capacidade de negociar a partir de uma posição de força, de definir as regras do jogo”

Sidi Ould Tah, presidente do BAD

“Está tudo cada vez mais interligado”

“Reforçar a Autonomia Geopolítica e a Resiliência Comercial de África num Mundo Multipolar” foi o tema-chave e a receita lançada para moldar futuras investigações e parcerias em toda a África. Ida McDonnell, consultora sénior para políticas de desenvolvimento, financiamento e desempenho na OCDE, sublinha a necessidade de abordagens “mais integradas” na elaboração de políticas. A justificação para esta abordagem é simples: todas as estruturas socioeconómicas “têm de se adaptar à realidade e à incerteza em que vivemos”.

“O comércio, a dívida, o investimento, a política fiscal, a acção climática e o financiamento do desenvolvimento estão a tornar-se cada vez mais interligados. No entanto, continuamos frequentemente a analisá-los separadamente. A complexidade dos desafios políticos actuais exige uma análise mais integrada que reflicta as escolhas reais que os decisores políticos enfrentam. Os dados são importantes, e todos concordamos. São ainda mais importantes quando partilhados para apoiar uma melhor tomada de decisões”, considera McDonnell.

Troca de ideias cada vez mais importante

Marie-Laure Akin-Olugbade, vice-presidente sénior do Grupo Banco Africano de Desenvolvimento, assinala a necessidade de as organizações estarem mais próximas com fóruns mais activos – como nesta Conferência Económica Africana, realizada anualmente – porque a troca de ideias vai ser cada vez mais necessária, tendo em conta a interligação crescente entre sectores. “Há perspectivas valiosas sobre os desafios, as oportunidades e as medidas políticas” necessárias para reforçar a posição geopolítica de África e a resiliência comercial num mundo cada vez mais multipolar e numa economia global em rápida mudança.

“Estou confiante de que os decisores políticos e os parceiros de desenvolvimento vão basear-se nestas discussões para orientar as suas acções futuras. Há uma base essencial para políticas e parcerias por forma a reforçar a capacidade de acção e aumentar a resiliência comercial de África”, afirma Akin-Olugbade.

Para Ahunna Eziakonwa, secretária-geral Adjunta das Nações Unidas e directora do Gabinete Regional do PNUD para África, o impulso e o incentivo para parcerias e construção de resiliência deve ter mais vitalidade que nunca.

“O impacto duradouro dos debates será determinado pelo que fizermos a seguir: eliminar as barreiras ao comércio, investir nas empresas e na inovação africanas, reforçar as cadeias de valor regionais e capacitar os nossos jovens para competirem numa economia global em mudança. Num mundo multipolar, a maior vantagem de África não advirá de escolher lados, mas sim de construir a sua própria força económica”, destaca.

Texto Redacção • Fotografia D.R



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