Alfredo José Caires da Costa foi um dos mais de quinhentos mil cidadãos que com a exemplar descolonização portuguesa, após o 25 de Abril de 1974 e a consequente independência das colónias foram obrigados a regressar à Metrópole. Para estes portugueses acabados os seus sonhos, em territórios onde muitos nasceram, cresceram, trabalharam e investiram são recebidos com atitudes de desconfiança, indiferenças, descriminação, sujeitos a comentários ofensivos, rancores…

Nos primeiros tempos muitos passaram fome, frio, desprezo, desemprego, amontoados em muitos edifícios degradados, em ex-prisões, pensões, ex-sanatórios…
Um dia encontrei junto à Biblioteca do Fundão o Alfredo José Caires da Costa e durante a nossa conversa verifiquei que tinha uma história interessante de contar e ficar registada para memória futura.
Passaram-se muitos dias até que num convívio de amigos, por simples coincidência, nos encontrámos de novo e conversamos longamente. Como resultado dessa conversa escrevi esta crónica, iniciando-o pela singularidade da origem do apelido Caires, muito pouco vulgar.
Diz-me o interlocutor que este apelido surge nos finais do século XVIII na Ilha da Madeira para onde uma família dos seus antepassados da freguesia minhota de Caires vai residir e trabalhar.
Os madeirenses começaram a assiduamente apelidar a família de Caires e os descendentes começaram a registar-se com aquele nome.
O seu trisavô parte para Angola (o avô então com seis anos) conjuntamente com outros madeirenses, decorria o ano de 1877, e instala-se na localidade de Humpata, Sá da Bandeia.
Anos decorridos, seu pai, Jaime Rodrigues da Costa, vem a conhecera que viria a ser a sua esposa e, posteriormente mãe do meu interlocutor. Também ela advinda de uma família com igual história de emigração – Adelaide Rodrigues da Costa, de cuja união conjugal nasce o Alfredo Caires, com mais três irmãos e uma irmã.
Os pais, em busca da melhoria de vida, mudam-se para Nova Lisboa, actual Huambo e dedicam-se a actividades na área dos transportes e da camionagem.
Alfredo Caires frequenta o Curso de Carpinteiros e Marceneiros na Escola Industrial e Comercial Sarmento Rodrigues em Nova Lisboa, curso este que lhe garantia o acesso ao Curso de Arquitectura, o seu sonho de criança.
Segue-se o serviço militar obrigatório no CSM (Curso de Sargentos Milicianos) na Escola de Aplicação Militar em Nova Lisboa.
Nas vésperas do 24 de Abril preparam-se para o juramento de bandeira marcado para o dia 25 de Abril de 1974. Na noite anterior achou muito estranho que o oficial de dia sem qualquer explicação retirasse a todos os militares os rádios e qualquer outro meio de comunicação com o exterior.
No dia 25 de Abril após o juramento de bandeira e no decurso do tradicional discurso de encerramento, o Comandante da Unidade informa que tinha acontecido na Metrópole um Golpe de Estado, e, com especial enfase, alerta todos os militares que tinham acabado de jurar obediência à bandeira nacional.
Depois de um ano de tantas aventuras e desventuras, desordens, caos, teve de fugir do território onde nasceu para a África do Sul.
Integrado numa caravana com mais de mil pessoas, iniciou uma dolorosa via-sacra e ao fim de quinze dias de viagem, (a grande parte do trajecto não tinha estradas), chegaram à fronteira da então Namíbia, território, à data, sob a égide da África do Sul, Face à proibição por parte do exército sul-africanos de deixar transpor a fronteira, vivem seis meses no deserto da Namíbia, com muitas tropelias, passam fome, comida racionada, fornecida pelo exército sul-africano, mal tratados, vivem em tendas e/ou em viaturas…cenas inacreditáveis.
Um dia, sem qualquer pré-aviso, são transportados, com o único direito de poderem levar consigo somente trinta quilos dos seus haveres para Pretória, de onde embarcam de avião para Lisboa.
Vem para o Fundão com a família e conjuntamente com mais aproximadamente, quatrocentos e cinquenta «retornados» são armazenados no velho edifício desactivado, o Abrigo de São José, o actual Lar Príncipe da Beira, propriedade da Santa Casa da Misericórdia do Fundão. Ali viveram vários meses.
Como desejava trabalhar, sujeitou-se ao que aparecia, muito embora soubesse, que só iria receber metade da jorna estipulado para os trabalhadores locais, alegando o empregador… «Vocês já roubaram muito em África!»… Enfim!
Caires, como ficou conhecido, organizou a vida, dedicou-se à sua profissão, elaborou centenas e centenas de projectos habitacionais no Fundão e periferias, e um pouco por todos o País. Hoje, desfruta de uma merecida aposentação. O mundo dá muitas voltas, haja vontade e… resiliência.
Muitos ficaram e foram bem-sucedidos, outros emigraram porque não aceitaram os vexames, a descriminação e alguns encontraram o caminho do suicídio como última solução.
A maioria não esquece o estigma da palavra «retornado», eram simples refugiados no seu próprio país. Não perdoam como foram abandonados e esquecidos.
Aqui fica a história, embora sucinta, de Alfredo José Caires da Costa e os seus familiares que conseguiram sobreviver longe da terra que os viu nascer e que muito amavam.
Felizmente há muitos escritores e homens da comunicação que com verdade nos dão a conhecer os dramas destes portugueses. Tema para muitos livros e realizações cinematográficas.

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«Aldeia de Joanes», crónica de António Alves Fernandes
(Cronista no Capeia Arraiana desde Março de 2012)
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