Em coletiva de imprensa no AIDS 2026, lideranças da África do Sul, da Zâmbia e do Quênia relatam as dificuldades sofridas após Trump suspender o PEPFAR e apontam a necessidade de financiar programas com recursos próprios

O mundo começa a sentir os resultados do desmantelamento da cooperação internacional pelos Estados Unidos, anunciados logo no início do segundo mandato de Donald Trump. Para expôr as consequências dos cortes no financiamento de programas de combate ao HIV/aids, foi realizada uma coletiva de imprensa na conferência internacional AIDS 2026, que realiza sua 26ª edição no Rio de Janeiro. Estavam presentes representantes do Quênia, da Zâmbia e da África do Sul – países onde, somados, vivem quase 9,5 milhões de pessoas com a IST, em números de 2020.
A coletiva debatia os cortes no Plano de Emergência do Presidente para o Combate à Aids (Pepfar, na sigla em inglês), programa norte-americano constituído em 2003. “Imaginem acordar e descobrir que um mundo que estava mais ou menos estável e seguro desapareceu”, declarou Florence Riako Anam, representante queniana da ONG internacional Global Network of People Living with HIV.
Florence, ela mesma soropositiva, trabalhava junto às comunidades do Quênia no combate ao HIV. A ativista descreveu um cenário estarrecedor, em que medicamentos de prevenção, testes, tratamentos e outros serviços tiveram seus orçamentos cortados a zero da noite para o dia. “Não é como se os governos não estivessem se preparando para reduzir a dependência dos recursos dos EUA, já estávamos seguindo um plano de transição”, explicou, “mas um processo que deveria durar 5 anos aconteceu em 2 dias”.
A preparação dos países para fortalecer a capacidade doméstica de resposta ao HIV também foi relatada por Lloyd Mulenga, diretor de Doenças Infecciosas do Ministério da Saúde da Zâmbia. “Tivemos que nos ajustar rapidamente, reduzir serviços, reduzir o apoio a comunidades. Foi algo muito difícil para o governo. O primeiro reflexo é o aumento do número de infecções – e nós não estamos tendo capacidade de testar e fazer o acompanhamento delas.” Não há mais estoques de fármacos para prevenção e tratamento, contou Lloyd, e agora será necessário unir-se com outros países africanos para fechar acordos para compra. “Precisamos passar por essa fase juntos”, convocou.
Mathume Joseph “Joe” Phaahla, vice-ministro da Saúde da África do Sul, acrescentou outro elemento de complicação, após os cortes do Pepfar: a guerra no Oriente Médio. Há 18 meses, o programa estadunidense foi drasticamente reduzido, atingindo em cheio o seu país, que registra o maior número de pessoas vivendo com HIV/aids no mundo. Nos meses seguintes, o governo conseguiu começar a se reestruturar e reconstituir o orçamento. Mas então, em fevereiro deste ano, os EUA atacaram o Irã, iniciando uma abrupta alta nos preços do petróleo e do frete marítimo, dois fatores que afetam diretamente a economia sul-africana.
O Pepfar destinava US$ 400 milhões para a África do Sul por ano. Seu governo viu-se obrigado a cortar inclusive pesquisas científicas que já estavam avançadas. Segundo Joe, mesmo profissionais de saúde eram pagos com recursos do Pepfar, outras vítimas dos cortes. Ao ser questionado se o governo estadunidense ao menos explicou o motivo da restrição de recursos, o vice-ministro afirmou que a África do Sul tentou entrar em contato por diversas vezes, mas mesmo as reuniões com o embaixador foram canceladas.
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