A Europa é uma potência assumidamente colonial. Ceuta e Melilla lembram-nos de algo que, por vezes, preferimos esquecer: este pedaço de terra a que chamamos Europa — que nem sequer é, em rigor, um continente — mantém bem viva a velha lógica do “espaço vital”, o odioso Lebensraum de Ratzel.
Além de Ceuta e Melilla, Espanha mantém sob domínio colonial o Peñón de Vélez de la Gomera, o Peñón de Alhucemas e as Ilhas Chafarinas, ironicamente designadas Praças de Soberania.
A França de Macron (le petit Napoléon), por sua vez, continua a exercer soberania sobre Mayotte, Reunião e as Ilhas Esparsas, no oceano Índico. A dimensão talassocrática da França – e, por extensão, da própria União Europeia – assenta também nesses territórios ultramarinos, que lhe garantem vastíssimas zonas económicas exclusivas e uma presença geoestratégica à escala planetária. Trata-se, além disso, de espaços marítimos extremamente ricos em recursos naturais, incluindo recursos marinhos com elevado potencial científico e farmacêutico.
O Reino Unido continua a manter Santa Helena, Ascensão e Tristão da Cunha, bem como o Arquipélago de Chagos, onde se situa Diego Garcia, uma das mais importantes bases militares anglo-americanas do mundo.
Quando falamos da persistência do colonialismo e da necessidade de reparação – que muitos, incluindo alguns dos chamados “aliados”, insistem em reduzir à dimensão cultural, nomeadamente museológica – estamos também a falar de um facto muito concreto: mais de meio século após as independências africanas, potências europeias continuam a controlar territórios estrategicamente fundamentais no espaço africano. Historicamente, as ilhas, pela sua localização, funcionaram como verdadeiras fortalezas naturais, permitindo projetar poder militar sobre o continente. A título de curiosidade, Kabu Verdi esteve na mira não apenas da Alemanha nazi, mas também dos dois blocos durante a Guerra Fria.
Ceuta, 31 de julho 2026
O facto de a Europa continuar a controlar vários arquipélagos e territórios insulares africanos faz com que o continente permaneça permanentemente sujeito às suas estratégias de poder. É por isso que a unidade africana continua a ser uma questão decisiva. Só uma África politicamente coesa, capaz de agir como um único sujeito internacional, poderá conferir maior peso às reivindicações territoriais das Maurícias sobre o Arquipélago de Chagos ou das Comores sobre Mayotte. A unidade serve, antes de mais, para produzir ganhos concretos nas grandes negociações internacionais.
O mundo está em chamas e é inconcebível que África permaneça à margem dos grandes debates que decidirão o futuro do planeta ou que, quando está presente, a sua voz continue a ser marginal. Fala-se frequentemente do “futuro de África”, associando-o ao crescimento demográfico do continente. Mas esse discurso é profundamente utilitarista. Interessa-se menos pelos africanos do que pelo enorme mercado consumidor que África poderá representar. É uma visão profundamente capitalista que, à semelhança do diktat de Berlim, continua a excluir os próprios africanos da definição desse futuro.
Precisamos de pensar estrategicamente uma política externa panafricana capaz de projetar os interesses de África no tempo e no espaço. Mas, para isso, teremos também de enfrentar os desafios colocados por Estados africanos cujas políticas colidem com esse horizonte de unidade. Marrocos, Estado marcado por profundas formas de discriminação racial e que tem instrumentalizado os fluxos migratórios ao serviço dos seus interesses diplomáticos, é um desses casos. A decisão do Governo espanhol de acolher Brahim Ghali, líder da Frente Polisário, em abril de 2021, teve consequências políticas evidentes. As ambições marroquinas sobre o Saara Ocidental continuam a colidir frontalmente com os princípios da unidade africana. Recorde-se que Marrocos abandonou a Organização da Unidade Africana em 1984, em protesto contra a admissão da República Árabe Saarauí Democrática, regressando apenas à União Africana em 2017.
Marrocos, tal como outros Estados africanos frequentemente apresentados pela Europa como modelos de desenvolvimento – como o Ruanda -, mantém relações estratégicas estreitas com Israel e com os Estados Unidos, atores cuja influência no continente suscita fortes críticas entre muitos setores do pensamento panafricanista. As vidas perdidas em Ceuta são também consequência das políticas de Rabat, guardião da fronteira externa da União Europeia. Temos denunciado a presença de bases militares estrangeiras em África; importa igualmente prestar atenção aos acordos de mobilidade celebrados entre vários Estados africanos, sobretudo do Norte do continente, e a União Europeia, verdadeiros instrumentos de externalização e securitização da política migratória.
A migração é uma das grandes questões do nosso tempo porque os migrantes se tornaram o bode expiatório preferencial da extrema-direita. E importa também acompanhar o avanço das direitas autoritárias em África. O caso da África do Sul mostra que não podemos ignorar a crescente articulação internacional entre projetos conservadores, xenófobos e de apartheid social que procuram enraizar-se no continente. Precisamos de escrutinar os nossos governos, os partidos políticos e todos aqueles que, através de financiamentos opacos, contribuem para normalizar agendas contrárias à unidade e à soberania africanas.
Há igualmente instituições e figuras africanas que, para ocultarem projetos de recolonização política e ideológica das nossas sociedades, instrumentalizam discursos antiocidentais e banalizam o nome do panafricanismo. Também contra isso devemos permanecer vigilantes.
Camaradas panafricanistas de todo o mundo, chegou o momento de voltar a pensar geopoliticamente a nossa luta e de recolocar a abolição das fronteiras africanas no centro do debate. Sim, a cultura, mas uma cultura política, geopolítica e internacionalista. A revolução africana será geopolítica ou não será.
“Invasão de Ceuta”, dizem. A Camões se referem?
Porque, afinal, mesmo quando parece não ser sobre Ceuta, continua a ser sobre o longo empreendimento colonial europeu em África. E, por isso mesmo, tudo isto é sobre Ceuta.










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