Festivais independentes são trincheiras da liberdade, diz Limongelli – Opera Mundi


“Diante do avanço de pautas conservadoras e autoritárias que tentam sufocar a diversidade, os festivais literários e culturais independentes assumem o papel vital de trincheira e refúgio da liberdade de expressão”. A afirmação é de Rafael Limongelli, co-fundador da Festa Literária Pirata das Editoras Independentes (Flipei), que começa na próxima quarta-feira (05/09), em São Paulo, a Opera Mundi.

Para ele, então, a relação do festival pirata com a América Latina — tanto no campo editorial quanto no artístico ou de movimentos — parte do princípio de que a Flipei busca a aproximação entre os trabalhadores do livro, trazer a cultura e outras línguas para dentro da mesma conversa política e colocar em contato experiências concretas de organização, memória e resistência produzidas em diferentes territórios.

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“A América Latina compartilha problemas, mas também compartilha repertórios de resistência. Se ela se internacionaliza, nossas formas de imaginação, cultura e resistência também precisam atravessar fronteiras”, disse.

Compreendendo que a liberdade de expressão não pode ser um privilégio econômico, Maruscka Grassano, do núcleo de Comunicação da Flipei, disse que a ideia é “promover a democratização real da cultura por meio de uma programação totalmente gratuita e descentralizada”, articulando literatura, música, esporte popular e movimentos sociais em redes de solidariedade e resistência coletiva.

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A edição deste ano também terá outra novidade. Inspirada na ética pirata de “dividir o butim”, a Flipei assumiu uma operação própria para garantir acesso à leitura de diferentes públicos, driblando os grandes monopólios corporativos do mercado editorial. “É um programa inédito que vai doar livros novos e lançamentos para educadores e estudantes da rede pública por meio de parcerias com as Editoras Camaradas”, explicou Grassano.

Os espaços Galpão Elza Soares, Café Colombiano, boteco Pratododia e Sol Y Sombra, na capital paulista, serão a casa da 8ª edição da Festa Literária Pirata das Editoras Independentes, que acontece de 5 a 9 de agosto.

Confira a entrevista na íntegra de Opera Mundi com Rafael Limongelli e Maruscka Grassano:

Opera Mundi: a edição deste ano traz a exposição censurada sobre o Funk, políticos e intelectuais progressistas nacionais e internacionais. O que podemos esperar da programação deste ano?

Rafael Limongelli e Maruscka Grassano: uma programação vibrante, combativa e profundamente conectada com as urgências do nosso tempo. Para além da exposição censurada sobre o Funk e da presença de políticos e intelectuais progressistas de destaque nacional e internacional, fazemos questão de amplificar vozes de periferias, aldeias e quilombos, bem como de pessoas com corpos dissidentes, com deficiência, garantindo a pluralidade de visões que o conservadorismo tenta silenciar.

Outras grandes novidades são a incorporação do esporte antifascista com o pebolim e o boxe popular.

A nossa grade de debates vai navegar por temas centrais da atualidade: desde discussões sobre experiências de gênero na América Latina e violência masculina até os impactos da inteligência artificial no contexto das guerras, da exploração e da luta de classes. Saúde e psicoativos, questões raciais, ecologias políticas, abolicionismo penal, o cenário eleitoral, perpassando ainda por mesas dedicadas a pensar as infâncias resistentes, entre muitos outros. É preciso subir no barco para ver!

Flipei 2025

Edição de 2025 da Festa Literária Pirata das Editoras Independentes
Foto: Pedro Ivo / @zpdrz

A edição de 2025 sofreu uma censura de última hora da prefeitura de São Paulo. Essa movimentação, de alguma forma, incentivou a continuidade da festa?

Apesar de todo o desgaste e do retrabalho de última hora provocados pela tentativa de censura à realização do nosso evento no Theatro Municipal (fruto da articulação do lobby sionista em conjunto com a prefeitura de São Paulo), a tentativa de nos calar teve o efeito oposto, o que, no bom português, costumamos chamar de “tiro no pé”: ela amplificou a nossa voz.

Tivemos um disparo histórico na cobertura sobre a Flipei, alcançando um espaço inédito nos principais veículos de comunicação do país, tanto na mídia hegemônica quanto nos meios independentes.

Para além da visibilidade, fomos abraçados por uma verdadeira tsunami de solidariedade. Dezenas de pessoas se voluntariaram em diversas frentes para erguer a nossa flotilha em apenas dois dias. E, claro, batemos recordes de público (mais de 50 mil nos 5 dias de eventos) e de vendas de livros pelas editoras independentes.

Essa não foi a primeira tentativa de censura que enfrentamos ao longo da nossa trajetória. Em 2019, em Paraty, por conta de uma mesa sobre a Vaza-Jato com Glenn Greenwald, nossa flotilha foi alvo de perseguição por grupos bolsonaristas que tentaram interromper o evento com alto-falantes em volume máximo com o Hino Nacional e xingamentos, além de disparar rojões diretamente contra a embarcação e os espectadores reunidos no local.

Mas esses episódios nos dão ainda mais combustível para continuar navegando nos rumos do pensamento disruptivo, do questionamento do status quo e da democratização do acesso ao livro.

A Flipei é descrita como um dos principais palcos de resistência cultural e pensamento crítico da América Latina. Como o festival se relaciona com movimentos editoriais, artísticos e políticos de outros países da região?

Essa relação acontece de um jeito muito orgânico, porque a Flipei nunca separou o mundo do livro das lutas políticas e das experiências artísticas que estão acontecendo ao redor dele. Quando nos aproximamos de outro país, raramente é apenas para trazer uma autora para uma mesa: tentamos entender o que as editoras estão publicando ali, quais movimentos estão produzindo pensamento, quais artistas estão traduzindo aquele momento histórico e quais debates ainda circulam pouco no Brasil.

Por isso, nossa relação com a América Latina acontece em várias camadas. No campo editorial, buscamos circulação de catálogos, intercâmbio entre editoras, traduções e aproximação entre trabalhadores do livro. No campo artístico, trazemos música, literatura e outras linguagens para dentro da mesma conversa política. E no campo dos movimentos, nos interessa colocar em contato experiências concretas de organização, memória e resistência produzidas em diferentes territórios.

Acho que a Flipei funciona um pouco como uma zona de encontro dessas três coisas. Uma pesquisa sobre as insurreições chilenas pode dividir espaço com uma editora independente; uma artista pode trazer para o palco questões que também estão sendo elaboradas nos livros; e militantes de diferentes países podem encontrar aqui experiências brasileiras que dialogam com as suas.

Isso parte de uma convicção: a América Latina compartilha problemas, mas também compartilha repertórios de resistência. Vimos levantes populares, novas formas de organização feminista, indígena e antirracista, disputas pela memória das ditaduras e, simultaneamente, uma extrema direita que aprendeu a operar internacionalmente. Se ela se internacionaliza, nossas formas de imaginação, cultura e resistência também precisam atravessar fronteiras.

Talvez seja essa uma boa definição da relação da FLIPEI com o continente: somos contrabandistas de ideias latino-americanas. Queremos que experiências políticas, livros, músicas e formas de organização atravessem nossas fronteiras com muito mais facilidade do que atravessam hoje.

Pela primeira vez, a Flipei incorpora o esporte popular — com campeonatos de pebolim e boxe — como ferramenta de ação social e resistência. Como essa aposta se articula com a proposta literária do evento e com o momento político do país?

Essa aposta parte do entendimento de que a disputa de ideias não acontece apenas no campo teórico, mas nos contextos dos campos de futebol, dos ringues… Para além disso, enfrentar tudo o que o status quo nos impõe exige corpos preparados. Vivemos um momento político de avanço de posturas autoritárias e, simultaneamente, de uma forte mercantilização do esporte, que muitas vezes o afasta de seu caráter popular e borra a paixão genuína. Ao trazer o pebolim e o boxe popular, a FLIPEI busca justamente politizar essa paixão nacional e levar o debate crítico para além dos círculos literários tradicionais.

O pebolim, por exemplo, resgata uma origem historicamente rebelde — criado pelo poeta anarquista Alejandro Finisterre durante a Guerra Civil Espanhola. Já o boxe popular responde à urgência de construir ferramentas de autodefesa, saúde e cuidado coletivo diante das opressões do nosso tempo. Para a FLIPEI, o corpo que brinca, joga e luta é uma extensão direta do corpo que lê e pensa: ambos são territórios de resistência, autonomia e formação política.

A Flipei se consolida como um território livre para manifestações culturais. Qual é o papel dos festivais literários e culturais na defesa da liberdade de expressão diante do avanço de pautas conservadoras no âmbito municipal e estadual?

Diante do avanço de pautas conservadoras e autoritárias que tentam sufocar a diversidade, os festivais literários e culturais independentes assumem o papel vital de trincheira e refúgio da liberdade de expressão. Nossa atuação se consolida ao ocupar e reivindicar espaços no centro da cidade como territórios de resistência, garantindo que o pensamento crítico e a diversidade continuem em circulação justamente quando o poder público ou grupos de pressão tentam vetar debates e cercear expressões artísticas.

Ao funcionar como uma antítese aos monopólios editoriais e ao moralismo institucional, asseguramos a bibliodiversidade e a amplificação de vozes dissidentes, dando visibilidade a autores negros, indígenas, periféricos, LGBTQIA+ e intelectuais radicais cujas obras o conservadorismo tenta invisibilizar ou criminalizar.

Entendendo que a liberdade de expressão não pode ser um privilégio econômico, promovemos a democratização real da cultura por meio de uma programação totalmente gratuita e descentralizada (como ocorre nos Estaleiros Pirata pelo interior — e de ações como a Livraria Camarada, que distribui livros sem custo para estudantes e educadores da rede pública). Dessa forma, ao articular literatura, música, esporte popular e movimentos sociais em redes de solidariedade e resistência coletiva, provamos que a tentativa de impor a censura e o medo serve apenas de combustível para fortalecer nossa autonomia e manter viva a defesa do pensamento libertário.

A presença de pesquisadores chilenos e a discussão sobre insurreições sociais e memória indicam um olhar atento às transformações políticas na América Latina. A Flipei pretende estabelecer uma rede de festivais independentes no continente?

Sim, e acho que esse é um dos próximos saltos que a Flipei quer dar. Nós já estamos construindo essa rede latino-americana na prática, antes mesmo de nomeá-la. Temos aproximações com a feira internacional de livros do Chile, assim como livrarias e editoras independentes no Chile, Argentina e Uruguai. E queremos que essas relações se tornem circulação efetiva: livros atravessando fronteiras, autoras circulando, traduções, coedições, intercâmbio entre trabalhadores do livro e participação cruzada em feiras e festivais.

Isso também está acontecendo dentro da programação. A Flipei já recebeu Verónica Gago, da Argentina, e Silvia Rivera Cusicanqui, da Bolívia. Neste ano teremos Flavia Córdova, Almendra García-Huidobro, Vicente Montecinos e Lina Flórez, além da Sara Hebe, da Argentina, que é uma das grandes atrações musicais da FLIPEI 2026. Em 2025 tivemos também a cantora chilena Claudia Manzo. Então essa conexão não acontece só entre instituições: ela passa pelos livros, pelo pensamento, pela música, pela pesquisa e pelas insurreições culturais que estão acontecendo no continente.

E tem uma ponte interessante para fora da América Latina. A READ, em Barcelona, reúne um fórum internacional importante do mercado editorial independente. Cauê Seigner Ameni esteve lá representando essa experiência em 2025 e eu, como co-fundador da Flipei, vou participar como palestrante em 2026. É uma oportunidade de colocar essas articulações latino-americanas em conversa com redes independentes de outras partes do mundo.

Há uma questão de fundo aí: por que nossas editoras, feiras, autoras e artistas precisam passar sempre pelos grandes centros do Norte para se encontrar? São Paulo precisa conversar diretamente com Santiago, Buenos Aires, Montevidéu, Bogotá, La Paz. Temos histórias políticas que se atravessam, mercados editoriais que enfrentam problemas semelhantes e uma produção cultural gigantesca que ainda circula muito menos entre nossos países do que deveria.

Então, sim: queremos ajudar a construir essa rede. A ideia é fazer da Flipei um porto brasileiro para essa circulação latino-americana — e fazer os livros, as ideias e as pessoas atravessarem essas fronteiras cada vez mais.



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