Nepobaby, abreviação de “nepotism baby” (bebê do nepotismo), entrou na moda quando passou a designar atores, cantores e celebridades que iniciaram a carreira impulsionados pelo sobrenome da família. O termo nasceu com uma carga claramente pejorativa: a ideia de que alguns chegam mais longe porque largam muitos metros à frente dos demais.
O conceito logo escapou do entretenimento e encontrou na política latino-americana um terreno surpreendentemente fértil. Isso porque carregar o nome de ancestrais pode ser útil ou muito pouco conveniente numa campanha.
Na política, sobrenomes raramente são neutros: podem abrir portas, render votos, despertar rejeições ou se transformar em um fardo difícil de carregar.
Um dos que fizeram barulho nesta semana foi Santiago Peña. Sempre me impressionou a ênfase que dá, toda vez em que fala da Guerra do Paraguai (perdida para Brasil, Argentina e Uruguai). É curioso porque já o vi fazendo essa introdução para um público humilde em seu país, mas também diante de empresários, milionários e em fóruns internacionais.
Peña é descendente de José Gaspar Rodríguez de Francia, o mais sanguinário dos ditadores paraguaios, morto em 1840. Sua trajetória inspirou o monumental “Eu, o Supremo”, de Augusto Roa Bastos. Antes de uma entrevista, Peña havia pesquisado sobre mim no Google e acabamos passando quase 20 minutos falando de Francia e do romance. Foi uma das entrevistas mais delirantes que fiz com um chefe de Estado. Fui checar, e resulta que Pena é parente longínquo do ditador em questão.
Boa parte dos “nepobabies” da política latino-americana está hoje alinhada à direita impulsionada por Donald Trump, ou ao menos vê nele uma referência política. É o caso de Daniel Noboa, no Equador, conhecido como o “príncipe das bananas”, já que foi nesse ramo que sua família construiu sua fortuna.
Seu pai, Álvaro Noboa, disputou a Presidência cinco vezes sem vencer. Apesar das derrotas nas urnas, permaneceu como uma das figuras mais influentes da política equatoriana. O discurso duro na área da segurança aproxima Daniel Noboa do trumpismo.
No Peru, Keiko Fujimori voltou a disputar a Presidência carregando um dos sobrenomes mais conhecidos do país. Sua trajetória ilustra como um legado político pode sobreviver por décadas. Seu discurso, centrado na segurança pública, também é frequentemente associado à nova direita latino-americana.
Na Guatemala, Bernardo Arévalo representa um caso diferente. Filho de Juan José Arévalo, presidente de 1945 a 1951, herdou um sobrenome ligado a um dos períodos mais emblemáticos da história do país. Juan José inaugurou a chamada Primavera Democrática, abrindo caminho para as reformas aprofundadas por Jacobo Árbenz.
A experiência, porém, foi interrompida pelo golpe de Estado de 1954, apoiado pelos Estados Unidos. Décadas depois, Bernardo chegou ao poder tentando resgatar parte daquele legado reformista, mas encontra um Congresso, um Judiciário e setores do establishment que limitam fortemente sua agenda. O sobrenome, nesse caso, é menos um privilégio do que uma responsabilidade histórica.
Também temos o caso boliviano de Rodrigo Paz, filho do ex-presidente Jaime Paz Zamora. No Uruguai, tivemos recentemente Luis Lacalle Pou, cujo pai, Luis Alberto Lacalle Herrera, governou o país nos anos 1990.
Diferentemente de outros ex-presidentes, Lacalle Herrera prometeu que não interferiria no governo do filho —e cumpriu. Preferiu preservar a autonomia da nova geração, mostrando que nem toda herança política significa tutela permanente.
No fim das contas, a América Latina continua demonstrando que, na política, sobrenomes raramente pertencem apenas ao passado. São ativos eleitorais, heranças, fardos e, às vezes, plataformas de lançamento.
O Brasil talvez esteja prestes a escrever mais um capítulo dessa história, com Flávio Bolsonaro sendo apontado por aliados como herdeiro político do pai e carregando, mais do que um projeto, o peso simbólico de um sobrenome.
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