A JAC Motors, uma das chinesas mais antigas em atividade no país, está passando pela maior reestruturação de toda a sua história no Brasil. Presente por aqui desde 2011, a empresa já atacou em diferentes frentes, planejou ter fábrica nacional e apostou pesado nos elétricos. Agora, a nova empreitada passa por concentrar boa parte de suas operações no ambiente online.
Recentemente, a Autoesporte apurou que a marca encerrou a venda de dois dos três carros de passeio elétricos que oferecia no país: o SUV E-JS4 e o sedã de caimento cupê E-J7. Ambos já eram figurinha rara havia alguns anos e deixam a JAC agora focada no subcompacto E-JS1, derivado do antigo J2 vendido na década passada, e na picape média Hunter, oferecida em versões a diesel e também numa curiosa configuração elétrica, ainda que sem muito alarde.
A redução da gama, porém, é apenas uma parte dessa transformação. A rede física também está mudando radicalmente e, para entender o tamanho dessa reorganização, Motor1.com Brasil foi até dois endereços da JAC em São Paulo.
O primeiro foi a antiga concessionária da avenida Gastão Vidigal, na zona oeste da capital. Antes uma das principais lojas da chinesa, o endereço fica praticamente ao lado da Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo (Ceagesp) e sempre dividiu a avenida com diversas outras concessionárias. Era também uma localização capaz de chamar a atenção de produtores rurais, motoristas profissionais e outros clientes que circulam diariamente pela região. Ou, ao menos, era.
Por fora, a identidade visual continuava praticamente intacta. Já por dentro, fomos recebidos pelo único funcionário que ainda permanecia no local, além de três unidades do hatch E-JS1. Segundo ele, já não há venda de carros novos ou seminovos, trabalhos na oficina ou qualquer serviço de pós-venda.
Toda a operação foi transferida para a sede da empresa na avenida Engenheiro Caetano Álvares, no bairro do Limão, onde também ficam os escritórios de Sérgio e Nicolas Habib, CEO e COO da operação brasileira.

Concessionária e sede da Jac Motors no bairro do Limão, em SP
Foto de: Thomas Tironi
Toda a JAC agora cabe no Limão
Se a Gastão Vidigal parecia um retrato do que a JAC está deixando para trás, o Limão mostra aquilo que a empresa pretende ser daqui para frente. O prédio concentra hoje a única concessionária física remanescente da marca no país, além de call center, escritórios, engenharia, executivos e a principal oficina da operação brasileira.
Durante nossa visita, funcionários ocupavam as mesas enquanto diferentes gerações de produtos da JAC dividiam espaço no complexo. Encontramos desde unidades antigas do T40 em revisão até vários E-JS1, exemplares da Hunter, veículos comerciais preparados para grandes empresas de logística e até um carro-forte.

Equipe presencial cuida das vendas presenciais e também no resto do país
Foto de: Thomas Tironi
No Limão, a cerca de 11 km dali, fomos recebidos pela equipe de assessoria da empresa que confirmou as mudanças e explicou como a JAC pretende funcionar daqui para frente.
Por lá, aliás, também estavam algumas unidades do E-JS3, elétrico maior do que o E-JS1 que chegou a ser preparado para o mercado brasileiro, mas teve seu processo de homologação interrompido por tempo indeterminado.

Rede de assistência conta com caminhões e o inédito E-JS3
Foto de: Thomas Tironi
Segundo Nicolas, a nova realidade tributária dos elétricos importados, que desde julho pagam 35% de Imposto de Importação, fez com que as contas para que o carro ficasse competitivo frente a BYD Dolphin Mini e Geely EX2 não fechassem.
A equipe comercial que trabalha no local também atende clientes de outras cidades e estados por telefone e pelos canais digitais da marca. Segundo a JAC, o modelo de vendas online e a distância já vinha sendo desenvolvido havia cerca de dois anos e passa agora a ocupar um espaço muito maior dentro da operação.

Foto de: Thomas Tironi
Carro on-line?
A concentração no Limão não significa, porém, que a JAC esteja tentando transformar suas oficinas em pontos de venda. Questionamos como esse modelo de negócios se enquadraria na Lei Ferrari, que regulamenta a relação entre fabricantes e concessionários no país, no que Nicolas afirma que o novo formato está dentro dos limites previstos pela legislação, sem maiores explicações.
Na estrutura desenhada pela empresa, o Limão permanece como a única concessionária física da marca, enquanto as oficinas credenciadas espalhadas pelo país ficam restritas ao atendimento e pós-venda. Elas não comercializam veículos novos.

Foto de: Thomas Tironi
O número dessas oficinas, por sinal, fez o caminho inverso ao das concessionárias. Em março de 2024, a JAC anunciava que chegaria a 110 pontos de atendimento até maio daquele ano. Agora, Nicolas fala em cerca de 150 oficinas credenciadas, acima inclusive das 142 ainda relacionadas no site da própria fabricante.
É essa rede que deverá dar capilaridade a uma operação que terá cada vez menos dependência de grandes lojas físicas. Para quem quiser efetivamente comprar um carro da marca, o negócio poderá ser conduzido a distância. Para manutenção, revisão e atendimento, a ideia é que o cliente continue contando com uma oficina credenciada mais próxima.
Segundo a JAC, E-JS1 continua à venda
Por falar em modelos disponíveis, a marca bate o pé que o subcompacto E-JS1 permanece à venda no mercado. Vendido em versão única, o rival de BYD Dolphin Mini ainda tem unidades 25/26 em estoque e está tabelado em R$ 119.900. O modelo recebeu linha 2027 recentemente, mas está sendo vendido só sob encomenda.
Ele chegou em 2021 e não teve grandes atualizações desde então, basicamente limitadas ao logo da marca, volante, rodas de liga leve e à disponibilidade de cores. 100% elétrico, traz um motor de 45 kW, ou cerca de 62 cv de potência e 15,3 kgfm de torque, instalado no eixo dianteiro. Oficialmente, alcança 181 km e acelera de 0 a 100 km/h em 10,7 s.



Na cabine, traz espaço só para quatro passageiros, enquanto o pacote de equipamentos possui multimídia com tela de 10,25″ em LCD e cluster de instrumentos para o motorista de 6,2″, ar-condicionado digital, piloto automático, espelho retrovisor interno antiofuscante e rodas de liga leve aro 14” diamantadas com pneus 165/65 e disco nas quatro rodas.
Em porte, são 3.650 mm de comprimento, 1.670 mm de largura, altura de 1.540 mm e distância entre os eixos de 2.390 mm. O porta-malas não esconde o foco urbano do hatch, contando com apenas 121 litros sem estepe.
Ele também está bem longe dos principais elétricos da categoria em vendas. Segundo dados da Fenabrave, foram 119 emplacamentos durante o primeiro semestre do ano, contra 42.946 do BYD Dolphin Mini no mesmo período.
Hunter virou carro-chefe
Oferecida desde meados de 2024, a picape média Hunter marcou o retorno da JAC aos carros a combustão após uma fase praticamente toda dedicada aos elétricos na virada desta década. Com carroceria sobre chassi, ela disputa espaço com Chevrolet S10, Ford Ranger, GWM Poer e outras médias, tendo emplacado 175 unidades durante o primeiro semestre do ano.
Durante toda a conversa sobre a nova fase da empresa, o modelo apareceu como protagonista da operação daqui para frente. Não por acaso, enquanto E-JS4 e E-J7 deixam o catálogo e o E-JS1 sobrevive na própria sorte entre os automóveis de passeio, a Hunter foi justamente um dos produtos que recebeu reforços mais recentemente.

Foto de: Motor1.com
Na linha 2026, apresentada em junho do ano passado, a picape ganhou a versão 4Work, criada justamente de olho em frotistas e produtores rurais. Na época, ela chegou por R$ 244.900 com bônus aplicado, posicionada, na época, abaixo das configurações HD e HDX.
Hoje, ao menos segundo o site oficial da marca, a 4Work está disponível tanto em versão manual, por R$ 219.900, enquanto a automática sai por R$ 239.900. As HD e HDX, por sua vez, custam R$ 259.900 e R$ 264.900.

Foto de: Motor1.com
A mecânica é compartilhada entre as versões a diesel. O motor 2.0 turbodiesel entrega 191 cv e 46 kgfm, sendo associado, nas versões automáticas, a um câmbio ZF de oito marchas. A tração permite escolher entre 4×2, 4×4 High e 4×4 Low, enquanto há ainda os modos Eco, Normal, Sport e Lama.
Com 5,33 metros de comprimento, 1,96 m de largura, 1,92 m de altura e 3,11 m de entre-eixos, a Hunter 4Work pode levar até 1.460 kg na caçamba de 1.135 litros. Para chegar a essa proposta mais voltada ao trabalho, ela abre mão de itens como santantônio, estribos e teto solar elétrico.

Foto de: Motor1.com
Mesmo assim, não é exatamente uma picape espartana. Traz cluster de instrumentos digital de 7″, central multimídia vertical de 13″ com Android Auto e Apple CarPlay, carregador de celular por indução, chave presencial, rodas de liga leve de aro 18″, piloto automático e ajuste elétrico para o banco do motorista.
Todas as versões também contam com seis airbags, controles eletrônicos de tração e estabilidade, assistente de partida em rampa e freios a disco nas quatro rodas. Outro argumento usado pela JAC é a garantia de oito anos sem limite de quilometragem para uso particular ou 250 mil km para utilização comercial.

Foto de: Motor1.com
Tanto ela como o hatch estão sendo oferecidos no modelo de negócios on-line, que passa pelo call center alocado na concessionária. Funciona assim: o interessado entra em contato pelos canais digitais da JAC e passa a ser atendido pela equipe comercial instalada no Limão. Dessa forma, a negociação pode ser conduzida a distância mesmo para quem está em outra cidade ou estado, sem depender de uma concessionária física próxima.
É justamente aí que entra uma das principais diferenças para a antiga operação. A única concessionária remanescente continua sendo a do Limão, enquanto as oficinas credenciadas espalhadas pelo país não participam da comercialização de veículos novos.

JAC e-JS4 foi um dos modelos oficialmente retirados de linha
E a Lei Ferrari?
Como só sobrou uma concessionária física para atender todo o Brasil, uma dúvida é inevitável: como esse modelo se encaixa na chamada Lei Ferrari? Questionamos Nicolas Habib sobre o assunto e, segundo o COO, a estrutura adotada pela JAC está dentro dos limites previstos pela legislação brasileira, embora ele não tenha entrado em maiores detalhes sobre a questão jurídica.
A própria Lei nº 6.729/1979, posteriormente alterada pela Lei nº 8.132/1990, faz uma distinção entre concessionário e serviço autorizado. Enquanto o primeiro é responsável também pela comercialização de veículos novos, o segundo pode ser contratado para prestar assistência técnica e vender peças e componentes. O artigo 28 é explícito ao excluir a distribuição de veículos novos das atividades de um serviço autorizado.
É justamente nessa categoria que entram as oficinas credenciadas pela JAC. Elas ampliam a cobertura de pós-venda e podem fazer a ponte entre um interessado e a equipe comercial, mas não se transformam em concessionárias.

Foto de: InsideEVs Brasil

JAC JS8 Pro é um dos SUVs vendidos pela marca lá fora
Foto de: Reprodução
Marca fala em novos lançamentos
Por fim, a JAC reforça que a reestruturação não significa uma despedida do mercado brasileiro. Segundo Nicolas, a empresa segue com planos para o país e já estuda a chegada de novos produtos para complementar a gama formada hoje por E-JS1 e Hunter, ainda que não tenha especificado, no momento, qual (ou quais) produtos pretende oferecer.
Tudo dependerá, novamente, dos rumos do mercado, algo reiterado por Nicolas. No mercado externo, a marca também não conta com muitos produtos além da Hunter. Mas há três SUVs, sendo um deles a versão a combustão do finado E-JS4, um modelo PHEV e um a gasolina de sete lugares que podem aparecer no radar.









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