De costas para a bandeira branca do Emirado Islâmico que expulsou as tropas norte-americanas de Cabul, Amir Khan Muttaqi colocou uma oferta inesperada sobre a mesa: o regresso dos Estados Unidos ao Afeganistão — com diplomatas e dólares, mas sem armas. Em entrevista ao The New York Times (NYT), o chefe da diplomacia afegã afirmou que “o capítulo da guerra chegou ao fim” e que “daqui para frente”, quer “relações baseadas no respeito mútuo e um novo capítulo de envolvimento positivo”.
Durante a conversa em Cabul, em que Muttaqi preferiu ignorar as perguntas sobre a repressão contra mulheres e raparigas no país, o ministro talibã concentrou-se numa proposta pragmática dirigida a Washington: reabrir a embaixada dos EUA e, ao mesmo tempo, as portas das vastas jazidas minerais do país, cinco anos após a retirada das tropas ocidentais — jazidas essas que estiveram nos projetos milionários de três administrações americanas e aliados, mas que a insurgência talibã passou duas décadas a desmantelar.
De qualquer das formas, nas salas do poder em Cabul onde outrora se planeava a insurgência contra as forças ocidentais, o discurso de hoje é outro: a abertura económica. E esta é apenas a mais recente ofensiva do Governo afegão no seu esforço de tirar o país do isolamento internacional. Mas não é a única. Além do apelo a Washington, Amir Khan Muttaqi abriu os braços ao investimento de outros países para responder à escassez de capital estrangeiro em Cabul.
No último ano, o regime talibã já se tem aproximado da Rússia e dos vizinhos da Ásia Central, além de negociar acordos de migração com Governos europeus — incluindo reuniões bilaterais com Alemanha e França e contactos em Bruxelas com representantes da União Europeia sobre a repatriação de requerentes de asilo rejeitados, de acordo com o mesmo jornal, que cita três participantes e um funcionário informado sobre as discussões.
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E o calendário não é por acaso. Fontes diplomáticas norte-americanas e afegãs indicam ao NYT que Cabul vê uma eventual aproximação à administração Trump como a sua derradeira vitória diplomática, apostando no perfil de pragmatismo comercial de Washington em detrimento das preocupações com os direitos humanos.
A linha vermelha de Cabul mantém-se, contudo, inegociável: o acolhimento à diplomacia e ao investimento não inclui o regresso de soldados. “Nenhum afegão quer ou pode tolerar a presença militar de outro país em solo afegão, como a história demonstrou”, frisou Muttaqi.
Por seu lado, o Governo Trump tem mantido o distanciamento, motivado em parte pela recusa dos talibãs em aceitar os pedidos vindos de Washington. Entre eles constavam a devolução do armamento norte-americano, o controlo da histórica Base Aérea de Bagram e a libertação de um prisioneiro norte-americano — cuja detenção o regime recusa confirmar.
Numa troca inicial de mensagens com o jornal no início deste ano, Muttaqi mantinha a esperança. Nessa altura, apontava as minas terrestres do Afeganistão como o possível ponto de partida para desbloquear o diálogo e abrir um “novo capítulo para os dois países”.
Mas do lado de Washington, a porta ainda não abriu. Em resposta escrita a perguntas do NYT, o Departamento de Estado dos EUA rejeitou qualquer normalização de relações, acusando os talibãs de falharem na estabilização do país e de permitirem que grupos terroristas continuem a usar o território afegão como base operacional. “Ninguém [em Washington] quer tocar neste assunto”, explica o académico Hassan Abbas ao NYT. “Todos querem esquecer o Afeganistão.”









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