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Quando Donald Trump anuncia que, sem um acordo, vai promover a “decapitação” do regime iraniano, recebe uma saraivada de críticas, chamando-o de belicista e agressor. Quando diz que prefere um acordo negociado com o Irã e suspende um iminente ataque, também recebe pancadas por recuar e passar uma imagem de fraqueza. Faz parte do trabalho de presidente dos Estados Unidos sempre ser criticado, mas mesmo analistas que não se identificam com o antitrumpismo militante acham que Trump tem atitudes erráticas – ou, pior ainda, não sabe como resolver a encrenca em que se meteu ao atacar o Irã.
Não são apenas analistas políticos que apontam incongruências. Até aliados mais próximos, como os países árabes do Golfo Pérsico, se sentem desprotegidos pelos Estados Unidos e procuram ajuda da China para abrir o Estreito de Ormuz, uma via de importância existencial para eles.
Não existem ingênuos no Oriente Médio, mas a realidade é que a China não tem o menor interesse em ajudar Trump a sair do atoleiro – a palavra que voltou a circular, associada a uma guerra, como no Vietnã, num péssimo sinal para o presidente. Ao contrário, mesmo que seu abastecimento energético sofra, a China só tem a lucrar com o problema que Trump criou para si mesmo. No grande embate geopolítico para definir o ganhador na corrida das grandes potências, é bom para a China ver os Estados Unidos em posição de fraqueza.
E esta posição é incontestável, para alegria dos que execram os Estados Unidos e tristeza dos que acham que o país tem um papel insubstituível na manutenção de uma ordem mundial que tende a favorecer valores positivos, como democracia e direitos humanos. A situação da guerra no Irã pode mudar, mas até agora os resultados foram “perda estratégica e constrangimento”, disse ao New York Times um ex-diretor da Chatham House, importante centro de estudos internacionais que funciona em Londres, Robin Niblett.
Ele vê até uma mudança na ordem global. Muitas pessoas, disse, não gostavam de como ela era, mas pelo menos era um tipo de ordem. “Agora, a América foi confirmada como uma força da desordem e todo mundo está tirando suas conclusões, tentando ser menos dependente. Ninguém quer ser submetido a uma política externa oscilante que não conhece seus limites e criou uma derrota estratégica”.
SÓ OPÇÕES RUINS
São palavras fortes, talvez exageradas, mas a realidade é que Trump colocou a si mesmo numa posição de fraqueza e o cartaz em que aparece esganado por várias mãos, da série de outdoors agressivos erguidos em Teerã, tem uma relação simbólica com a realidade: o presidente americano, com as forças armadas mais poderosas da história, vem sendo sufocado pela estratégia iraniana de absorver os golpes militares, interferir no Estreito de Ormuz e negar categoricamente qualquer negociação. Inclusive quando está negociando, como a nova proposta de um fundo “voluntário” bancado por países do Golfo e da Europa para permitir a livre navegação por Ormuz. Os Estados Unidos teriam que suspender o bloqueio aos portos iranianos e fingir que os novos pagamentos não são um pedágio.
As posições oscilantes de Trump também são criticadas no país que parecia ter realizado seus sonhos quando desfechou o ataque conjunto com os americanos, Israel. Escreveu o comentarista Lazar Berman: “Israel, não o Irã, está encurralado enquanto Trump continua a perseguir frágeis acordos”.
Os Estados Unidos podem absorver uma situação negativa ou até perdedora no Irã – só para lembrar, o país tem um PIB de 300 bilhões de dólares, contra os 32 trilhões da economia americana.
Mas para Israel, um regime iraniano que não só sobreviva como se fortaleça com o aperto em Ormuz é uma ameaça existencial de enormes proporções. Israel acha que os americanos precisam terminar o que começaram e desfechar uma nova onda de ataques que garanta a exaustão bélica do Irã.
O que é melhor para os Estados Unidos? Acertar um acordo que deixe o regime iraniano inteiro, apesar das enormes perdas sofridas, ou atacar o país de novo, reafirmando seu poder?
O dilema é que as duas opções têm enormes desvantagens. E é só ver quem está comemorando a encrenca de Trump para concluir, mesmo entre os que não simpatizam com ele, que isso é ruim para o mundo. É um argumento a ser levado em consideração, inclusive pelo Brasil, nesse momento de grave crise diplomática, com a revogação do visto da embaixadora em Washington, Maria Luiza Viotti. Um Trump altamente frustrado com a situação no Irã só aumenta o potencial de conflito com o Brasil.











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