EUA querem produzir robôs humanoides e desafiar a China – 14/08/2026 – Tec


Teddy Haggerty sabia exatamente o que enfrentaria quando decidiu construir robôs humanoides nos Estados Unidos.

Desde 2022, Haggerty era o principal distribuidor americano da Unitree Robotics, a principal fabricante chinesa de robôs humanoides. Essa função lhe proporcionou uma visão privilegiada de uma indústria que as empresas chinesas dominam, produzindo robôs de forma mais barata e em uma escala que os fabricantes americanos ainda não conseguiram alcançar.

“Na China, essas coisas estão simplesmente andando pelas ruas”, disse ele. “Eles têm muito mais experiência do que nós.”

Mas, em um galpão localizado em um arborizado parque industrial nos subúrbios de Long Island, Haggerty, de 30 anos, está tentando realizar uma tarefa que parece quase impossível —produzir robôs semelhantes a humanos nos Estados Unidos.

Sua nova empresa, a Robo Inc., é o mais recente empreendimento de um empreendedor que passou a década anterior perseguindo a próxima grande oportunidade, da fotografia com drones e mineração de bitcoin à importação de equipamentos de proteção durante a pandemia de Covid-19. Construir robôs, porém, significa enfrentar uma indústria que a China declarou uma prioridade estratégica. Esse é um desafio de outra magnitude.

Haggerty planeja adquirir componentes de várias partes do mundo e fabricar alguns deles internamente. Mas, mesmo enquanto tenta estabelecer uma base para a robótica nos Estados Unidos, ele se deparou com uma constatação difícil: a China tem domínio quase total da cadeia de suprimentos. Portanto, construir um robô completamente livre de peças chinesas não era algo viável.

Empresas que fizeram grandes esforços para eliminar a China de suas cadeias de suprimentos acabaram, no fim, apenas produzindo um produto mais caro, disse ele. Era muito mais econômico importar determinadas peças, como baterias e o esqueleto de alumínio que forma o corpo do robô.

“Há algumas peças que já estão perfeitamente ajustadas — por que você iria querer mudá-las?”, disse ele. Seu escritório, em Plainview, Nova York, divide espaço com uma oficina repleta de cabeças e mãos de robôs sobressalentes, onde uma pequena equipe de engenheiros constrói peças personalizadas para adaptar robôs humanoides e quadrúpedes ao trabalho em armazéns e na área da saúde.

De certa forma, Haggerty está preso entre a China e Washington, onde autoridades têm pedido que mais robôs sejam fabricados nos Estados Unidos. Ele acredita que o resultado será um mercado global de humanoides mais fragmentado: as empresas chinesas de robótica continuarão vendendo em seu mercado doméstico, enquanto empresas como a dele disputarão clientes nos Estados Unidos.

Os Estados Unidos e a China já disputam a supremacia em inteligência artificial (IA) e semicondutores. Agora, robôs que se parecem e se movem como seres humanos estão cada vez mais surgindo como outra frente dessa competição. Empresas dos dois países veem cada vez mais os robôs como a manifestação física da IA e seu próximo passo evolutivo.

As tensões geopolíticas ganharam ainda mais destaque no mês passado, quando a Comissão Federal de Comunicações anunciou uma proibição à importação de novos modelos de robôs humanoides fabricados no exterior para os Estados Unidos, citando preocupações de segurança nacional. A medida não tinha como alvo explícito a China, mas a maioria dos novos robôs humanoides é fabricada por empresas chinesas.

Essa tecnologia ainda está nos estágios iniciais de desenvolvimento, mas seus defensores imaginam um futuro em que robôs humanoides se tornarão comuns: limpando casas, verificando sinais vitais em hospitais e realizando trabalhos perigosos em minas e fábricas químicas. Essas atividades também dariam aos robôs acesso a enormes quantidades de dados sobre onde e como as pessoas vivem. Para o governo americano, isso é potencialmente sensível demais para máquinas que não sejam fabricadas nos Estados Unidos.

Por enquanto, porém, são poucas as que são.

A indústria de robótica da China foi construída com bilhões de dólares em financiamento estatal e cresceu a partir da indústria de veículos elétricos do país, líder mundial. A principal startup chinesa de robôs humanoides, a Unitree, está se preparando para abrir seu capital em Xangai com uma avaliação de US$ 9 bilhões (R$ 47,1 bilhões).

As jovens fabricantes americanas de robôs precisarão de um apoio financeiro e político significativo para competir, disse Sunny Cheung, pesquisador da Jamestown Foundation, um think tank que estuda a influência do governo chinês. “Simplesmente proibir os robôs chineses é apenas o primeiro passo”, afirmou.

Nos Estados Unidos, a robótica humanoide ainda está em sua infância. Analistas estimam que as principais empresas de humanoides produziram apenas algumas centenas de robôs no ano passado. A maioria não está disponível para compra pelo consumidor comum, mas faz parte de projetos de teste com outras empresas em armazéns e fábricas. Em comparação, a Unitree e outra empresa chinesa, a Agibot, produziram juntas cerca de 10 mil.

Até mesmo a linha de robôs humanoides Optimus, de Elon Musk, que ele recentemente previu que seria “o maior produto de todos os tempos”, depende fortemente de componentes fabricados na China.

E fabricantes de robôs não humanoides, como a iRobot, empresa americana responsável pelo Roomba, tiveram dificuldades para competir com rivais chineses. O fornecedor chinês da iRobot assumiu o controle quando a empresa entrou com pedido de falência em dezembro.

Os humanoides chineses também são muito mais baratos e amplamente disponíveis do que seus equivalentes americanos. O principal robô humanoide da Unitree é vendido por menos de US$ 14 mil (R$ 72.800).

Haggerty disse que, depois de participar de uma feira comercial em Las Vegas ao lado de um robô da Unitree no ano passado, recebeu uma enxurrada de consultas de empresas como Amazon e OpenAI que queriam testar humanoides. Elas queriam mais robôs do que ele conseguia importar.

Fundadores de startups e investidores dizem que é praticamente impossível montar fábricas nos Estados Unidos capazes de competir com a produção da cadeia de suprimentos chinesa em termos de custo. É mais caro pagar trabalhadores americanos. E as matérias-primas, do lítio usado nas baterias ao alumínio moldado no esqueleto, ainda precisam ser obtidas da China.

O domínio chinês sobre a cadeia de suprimentos de robôs que agem como seres humanos está intimamente ligado à sua indústria de veículos elétricos. A China se tornou a maior exportadora de veículos elétricos ao se concentrar na produção doméstica de praticamente todos os componentes, de parafusos a baterias de íons de lítio. Agora, muitas das mesmas empresas que fabricam peças para veículos elétricos também fornecem componentes para fabricantes de robôs.

“Se você está na China e precisa de um componente, consegue obtê-lo imediatamente —enquanto nos Estados Unidos talvez precise esperar alguns dias”, disse Brad Porter, CEO da Cobot, uma empresa de robótica de Santa Clara, Califórnia.

Porter passou anteriormente mais de uma década na Amazon, onde liderou os esforços da empresa para utilizar robôs. Ele apontou a fábrica da Amazon em Massachusetts, onde a empresa produz equipamentos para seus armazéns, como um exemplo de fabricação de robôs bem-sucedida nos Estados Unidos. Mas esses não são robôs humanoides. São dispositivos robóticos que transportam grandes cargas pelo chão das fábricas. Porter afirmou que robôs humanoides não eram a solução adequada para a maioria das situações na Amazon.

“Não havia nenhum caso de uso na Amazon em que ter pernas oferecesse alguma vantagem”, disse ele.

A utilidade real dos humanoides continua sendo motivo de debate. Até mesmo executivos de empresas de robótica admitem que os seres humanos ainda são trabalhadores muito mais eficientes do que os robôs, que têm dificuldade para tomar decisões complexas em ambientes que mudam rapidamente.

Embora as empresas chinesas tenham vantagem na produção de robôs humanoides, nenhuma demonstrou claramente um caso de uso convincente para a tecnologia.

Robôs chineses, incluindo os da Unitree, chamaram atenção internacional por apresentações de dança sincronizada em programas de televisão chineses e no Super Bowl. Mas esses robôs estão seguindo roteiros pré-programados. Criar robôs capazes de tomar decisões complexas em resposta a um mundo em constante mudança continua sendo um desafio.

De forma mais ampla, a China estabeleceu outra vantagem importante na robótica: o uso de robôs para automatizar a fabricação. Em 2024, segundo um relatório da Federação Internacional de Robótica, uma associação comercial sem fins lucrativos, mais de 2 milhões de robôs trabalhavam em fábricas chinesas, e outros 300 mil foram instalados —mais do que no restante do mundo somado.



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