Fala de Trump sobre Ormuz se tornar dos EUA não diz nada, diz especialista


O presidente americano, Donald Trump, afirmou, durante uma convenção no estado de Nova York, que pretende declarar o Estreito de Ormuz como território americano. Thiago de Aragão, CEO da Arko Advice Internacional, comenta o tema ao Hora H.

Impasse no controle do estreito

Na prática, nenhum dos dois lados detém controle total sobre o Estreito de Ormuz. Os Estados Unidos mantêm presença militar e afirmam exercer um bloqueio sobre a via, enquanto o Irã conserva a capacidade de ameaçar embarcações com ataques de drones, mísseis e pequenas embarcações.

Desde o início do conflito, 54 navios já relataram algum tipo de dano ao transitar pelo estreito. Na última semana, pelo menos quatro embarcações de uma companhia de petróleo de Abu Dhabi foram atacadas.

O número de navios transitando pelo local caiu drasticamente: na última terça-feira (11), apenas 14 embarcações passaram pelo estreito, em comparação às 120 que o faziam diariamente antes do conflito.

Análise do especialista

Thiago de Aragão, da Arko Advice Internacional, foi categórico ao avaliar a declaração de Trump. “Nada, nada. Isso é uma coisa sem pé nem cabeça”, afirmou, comparando a fala a outras declarações do republicano, como a de que o Canal do Panamá voltaria ao controle americano, que o Canadá se tornaria o 51º estado dos EUA e que a Groenlândia seria anexada.

Segundo Aragão, esse tipo de declaração é uma técnica deliberada de geração de narrativa. “Quando ele gera narrativa, a imprensa, os analistas, principalmente o Partido Democrata, fala daquilo que ele comentou e não necessariamente das outras coisas”, explicou.

O especialista apontou que, no momento em que Trump fez a declaração, havia dois temas centrais que poderiam concentrar atenções negativas sobre seu governo: a demora para uma conclusão no conflito com o Irã e a situação do navio USS Abraham Lincoln, que está há mais de 200 dias sem atracar.

Segundo Aragão, relatos de marujos com problemas de saúde mental e condições precárias de higiene a bordo — com falta de água e comida — estavam ganhando repercussão na imprensa.

“O Trump é muito esperto em trazer essa narrativa do Estreito de Ormuz se tornar um território americano, porque ele ocupa esse espaço ao invés de falar sobre esses dois temas mais graves”, disse.

Impacto econômico e rejeição popular

O fechamento parcial do Estreito de Ormuz também tem gerado consequências econômicas significativas. Os estoques globais de petróleo estão diminuindo e o preço da gasolina nos Estados Unidos chegou a US$ 4,07 por galão na última sexta-feira (7) — ante US$ 3,85 há um mês e US$ 3,16 há um ano.

Apesar disso, Trump declarou que esse é “um pequeno preço a se pagar pelo conflito”. Uma pesquisa recente da CNN, no entanto, mostra que 74% dos americanos consideram que a guerra não vale o custo em vidas nem o peso financeiro para o governo.

Para Aragão, a administração Trump opera atualmente em modo de “apagar incêndios”, por vezes autogerados, sem conseguir manter uma agenda baseada no planejamento original.

“Nada do que hoje requer a atenção do governo americano gira ao redor daquilo que foi planejado”, concluiu o especialista, destacando que isso compromete a previsibilidade do governo tanto para eleitores quanto para aliados e mercados.



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