Quadrante prevê aquisições nos EUA, Europa Central e de Leste com apoio do fundo Permira


O fundo de private equity britânico Permira chegou a acordo com o private equity espanhol, Henko Partners, e com os acionistas fundadores para a compra da maioria da Quadrante. A entrada do fundo Permira tem como objetivo apoiar a expansão internacional da empresa, em particular nos Estados Unidos. Mas a Quadrante tem previsto fazer aquisições na Alemanha e na Polónia. Vai também anunciar em setembro uma aquisição em Portugal, revela em entrevista o CEO da empresa de engenharia.

O fundo de private equity britânico Permira chegou a acordo com o private equity espanhol, Henko Partners, e com os acionistas fundadores para a compra da maioria da Quadrante – empresa portuguesa de consultoria especializada em engenharia, arquitetura e sustentabilidade.

A entrada do fundo Permira tem como objetivo apoiar a expansão internacional da empresa, em particular nos Estados Unidos, explicou em entrevista ao Jornal Económico o CEO do grupo Quadrante, Nuno Costa.

A Henko Partners vendeu a maior parte da sua participação de 49,5% e os acionistas fundadores, entre eles o CEO, Nuno Costa, também venderam parte dos seus 50,5%. A transação deverá estar concluída no quarto trimestre de 2026, depois das necessárias aprovações regulatórias.

A Quadrante é uma empresa portuguesa de consultoria que é líder na Península Ibérica, trabalha principalmente com clientes internacionais e tem presença na Europa, África, Brasil e América Latina.

O fundo de private equity britânico Permira entrou no capital da Quadrante para apoiar a expansão internacional. Quais são os planos de expansão internacional em que a Permira pode ajudar?

O nosso plano estratégico prevê uma expansão mais forte nos Estados Unidos e na Europa Central e de Leste, mantendo um crescimento orgânico nos restantes mercados. Nos EUA e na Europa Central e de Leste queremos crescer tanto organicamente como através de aquisições. A Permira será o parceiro ideal para apoiar essa estratégia.

Vão comprar empresas nos Estados Unidos e na Europa de Leste e Central? Têm alguma coisa em vista?

Sim. Temos um perfil de empresas que procuramos na área da energia e da mobilidade e que, essencialmente, têm um fit cultural connosco. Ainda estamos na fase de elaboração das listas de potenciais aquisições.

Na Europa de Leste e Central, em que países concretamente?

Na Europa Central e de Leste estamos muito focados na Polónia. Também estamos atentos a oportunidades na Alemanha.

Nos Estados Unidos, o que têm em vista?

Nos Estados Unidos procuramos empresas ligadas ao setor da energia.

Quanto é que o Henko vendeu da Quadrante ao fundo Permira e porque decidiu vender parte da sua participação?

Os fundos de private equity têm como missão comprar e vender empresas. Obviamente, uma saída é a coisa mais natural de um fundo, também a Permira há-de vender um dia. Portanto, a saída parcial da Henko é um processo natural. Neste caso, o que não é tão natural é a decisão de ficarem ainda investidos na Quadrante de uma forma bastante significativa. Só ficaram no capital porque gostam do projeto e acreditam que ainda há valor a realizar na Quadrante.

“O fundo Henko tinha 49,5%, tem neste momento menos de metade disso”

Como ficou a estrutura acionista?

Não posso divulgar percentagens. Posso apenas dizer que a Permira é o maior acionista, seguida pelos fundadores e depois pela Henko. A Permira adquiriu participações tanto à Henko como aos fundadores e passou a deter uma posição maioritária. O fundo Henko tinha 49,5%, tem neste momento menos de metade disso.

Os fundadores venderam parte da sua participação ao fundo Permira?

Os fundadores venderam uma pequena percentagem. Cerca de 4%, não consigo dizer com exatidão. Mas a Permira é a maioritária, tem mais de 50%.

Qual foi o investimento da Permira na Quadrante? Qual foi a avaliação da Quadrante nesta operação?

Também é uma informação confidencial. No entanto, os meios de comunicação têm uma ordem de grandeza do valor do enterprise value.

A Bloomberg falou em 300 milhões e o Expansión em 400 milhões…

Está entre um e outro. O valor da empresa situa-se entre os 300 e os 400 milhões de euros em termos de enterprise value.

Porque optaram pela entrada de um novo acionista?

Quando uma empresa tem um elevado potencial de crescimento, faz sentido reforçar o capital para acelerar esse crescimento. Crescer apenas com os recursos gerados internamente é sempre um processo muito mais lento.

Uma empresa, quando quer crescer, precisa de capital. Há duas formas de fazer crescer uma empresa — ou cresce lentamente com os capitais que vai gerando e a capacidade de endividamento que vai gerando, o que é uma forma lenta de crescer, ou, o que é o normal quando há um potencial de crescimento mais elevado, recorre à entrada de novos acionistas e de novo capital para multiplicar o crescimento de uma forma mais rápida.

A estrutura de gestão vai manter-se a mesma ou a Permira vai ter administradores?

Sim. A Permira irá nomear administradores não executivos para o conselho de administração, onde estará representada de forma maioritária. A comissão executiva mantém-se inalterada. Eu continuo como CEO, Pedro Gomes mantém-se como CFO, os restantes fundadores continuam na comissão executiva e Ricardo Mergulhão será nomeado Chief Human Resources Officer.

Esperam concluir a operação quando?

No quarto trimestre deste ano, após as aprovações regulatórias. Esperamos que o calendário seja cumprido.

O processo de venda foi competitivo?

Extremamente competitivo. Tivemos interesse de alguns dos maiores fundos do mundo, o que demonstra o reconhecimento da engenharia portuguesa e da Quadrante.

A Permira apresentou a melhor proposta financeira?

Houve um conjunto de fatores na decisão. Curiosamente, existia uma proposta ligeiramente superior do ponto de vista financeiro, mas entendemos que a Permira era o parceiro mais adequado para o nosso projeto.

Armando Santos como CEO para o mercado de Portugal, Médio Oriente e África mantém-se?

Sim. Existe uma comissão executiva do grupo e cada mercado tem o seu CEO. Há responsáveis para a Roménia, Espanha e América Latina, Portugal, Médio Oriente e África, Brasil e Estados Unidos. O CEO na Roménia é romeno, há um CEO em Espanha e nos mercados da América Latina, que é espanhol, existe um CEO em Portugal, Médio Oriente e África, que é o Armando Santos, existe um CEO no Brasil, para o mercado brasileiro, e existe um CEO nos Estados Unidos, que é o Eduardo Llorente.

Da última vez que tínhamos falado, a Quadrante tinha aberto uma filial nos Estados Unidos. É a partir dela que vão fazer as aquisições naquele mercado?

Sim. Comprámos anteriormente uma pequena empresa chamada Right Analytics, que passou a designar-se Quadrante Right Analytics. É essa empresa que serve de plataforma para o nosso crescimento naquele mercado.

Que atividade desenvolvem atualmente nos Estados Unidos?

Estamos focados na energia. Temos acordos-quadro com clientes como Microsoft e a Tesla e trabalhamos para as maiores utilities dos Estados Unidos, como a New York Power Authority, a MISO, a ERCOT — os maiores sistemas de distribuição de energia — e estamos a iniciar projetos com a Avangrid, que é a Iberdrola nos Estados Unidos. Desenvolvemos estudos de rede elétrica para utilities e promotores de data centers, simulando digitalmente as redes para identificar onde é possível aumentar a capacidade com o menor investimento. É um serviço de consultoria de alto nível em que ajudamos a otimizar o funcionamento das redes elétricas.

Pretendem alargar essa atividade nos EUA?

Sim. Noutros mercados fazemos também projeto de sistemas de produção de energia, como parques eólicos, parques solares, centrais com baterias, distribuição de média e alta tensão, etc. — o que ainda não fazemos nos Estados Unidos, onde estamos agora a começar.

Queremos também desenvolver projetos de parques eólicos, centrais solares, sistemas de baterias e redes de média e alta tensão. Podemos crescer organicamente, mas isso é mais lento, e as aquisições permitem acelerar esse processo.

Que tipo de empresas procuram na Polónia e na Alemanha?

Empresas de projeto e fiscalização de obras nas áreas das infraestruturas de energia e mobilidade, incluindo ferrovia, metro e rodovia.

“Estamos envolvidos em projetos de alguma dimensão, como a fábrica de baterias da Calb, por exemplo, onde somos responsáveis pelo projeto global, incluindo estudos ambientais, arquitetura e engenharia”

Quais são atualmente os principais projetos da Quadrante em Portugal?

Portugal é um mercado muito importante, porque é o nosso mercado patriótico, mas, apesar disso, só vale 25% da nossa atividade, porque o mercado é pequeno. No entanto, estamos envolvidos em projetos de alguma dimensão, como a fábrica de baterias da Calb, por exemplo, onde somos responsáveis pelo projeto global, incluindo estudos ambientais, arquitetura e engenharia.

Estão envolvidos de que forma?

Somos o projetista global de tudo — fazemos estudos de impacto ambiental, projetos de arquitetura, engenharia, etc.

Estamos também envolvidos em dois contratos com o Metro de Lisboa — mas as obras estão atrasadas —, que são a Linha Vermelha e a Linha Violeta, muito importantes para a cidade de Lisboa. Fizemos também o projeto do Metro do Porto, a Linha Rubi, que está em construção — uma obra muito interessante, que vai mudar completamente a mobilidade na área metropolitana do Porto, com um impacto enorme na vida das pessoas e na qualidade de vida, poupando imensas travessias em viatura particular entre as duas margens.

Estamos envolvidos também em novos projetos industriais na área do biometano e do hidrogénio verde em Portugal. Fizemos também os estudos ambientais para a nova dessalinizadora do Algarve — um processo importante para a região, apesar de bastante polémico. E estamos no maior projeto de energias renováveis de Portugal, o projeto da Enel Green Power, na zona do Pego, que consiste na reconversão da central do Pego, substituindo a potência que anteriormente era ali produzida por potência de energias renováveis.

E relativamente às grandes infraestruturas previstas para Lisboa?

Esperamos participar tanto na terceira travessia do Tejo como nos estudos do futuro túnel submerso Algés-Trafaria. Estamos atualmente a desenvolver o projeto do túnel Santos-Guarujá, no Brasil, cuja experiência poderá ser muito útil para Portugal. Esperamos que estes projetos venham a ser atribuídos à engenharia portuguesa, porque a engenharia portuguesa consegue dar resposta a todos estes desafios.

 “Estamos envolvidos no novo aeroporto de Lisboa, no Campo de Tiro de Alcochete, nomeadamente nos estudos de engenharia que a ANA entregou ao Governo, em consórcio com outras empresas nacionais e internacionais”

Também estão envolvidos no novo aeroporto de Lisboa?

Sim. Estamos envolvidos no novo aeroporto de Lisboa, no Campo de Tiro de Alcochete, nomeadamente nos estudos de engenharia que a ANA entregou ao Governo, em consórcio com outras empresas nacionais e internacionais. Este é um dos maiores projetos aeroportuários do mundo em desenvolvimento neste momento, e requer que se juntem os melhores profissionais para entregar a infraestrutura da melhor forma possível.

Já participámos, há uns anos, no projeto para o aeroporto do Montijo, que acabou por não avançar — estava pronto a assinar-se o contrato de construção. Como isso foi há três anos, hoje provavelmente faltaria pouco para abrir o novo aeroporto de Lisboa, mas a solução mudou, de forma a retirar o atual aeroporto do interior da cidade de Lisboa.

Quando poderão avançar os concursos para a terceira travessia ou para o túnel Algés-Trafaria?

Não sabemos. Essa decisão compete ao Governo. Mas sabemos que existe vontade de avançar com os estudos de viabilidade. Se o novo aeroporto avançar, haverá necessariamente um conjunto de infraestruturas de acessibilidade, energia e água que terão de ser construídas.

O acordo entre a ANA e o Governo, para que o novo aeroporto avance, exige que sejam feitas um conjunto de infraestruturas importantes para assegurar a conectividade do novo aeroporto.

Aguardamos que, rapidamente, se lancem os estudos de viabilidade técnica, para saber se é tecnicamente viável, quais são os custos, quais são as vantagens para as populações, etc.

E, se tudo avançar, a Quadrante vai participar?

Vamos participar na licitação, não sabemos se vamos ganhar. Gostaríamos muito de contribuir para este estudo e para a terceira travessia, porque são projetos estruturantes, não só para a área metropolitana de Lisboa, mas para o país. E devem ser feitos de forma muito responsável, assegurando que as questões ambientais e as questões económicas da sua necessidade, ou não, são bem acauteladas antes de se avançar.

“Prevemos encerrar o ano com uma faturação entre 160 e 170 milhões de euros”

Pode revelar os resultados financeiros da Quadrante?

Não divulgamos resultados porque somos uma empresa privada. Posso dizer que continuamos a apresentar resultados positivos e sustentáveis, permitindo investir em tecnologia, inteligência artificial e nas pessoas.

Nem quanto à faturação?

Prevemos encerrar o ano com uma faturação entre 160 e 170 milhões de euros.

Distribuem dividendos?

Não. Os resultados são reinvestidos na empresa. Distribuímos bónus aos colaboradores, mas os acionistas reinvestem sempre os lucros.

Quantos colaboradores têm?

Atualmente cerca de 1.550 pessoas e esperamos terminar o ano com aproximadamente 1.800 colaboradores.

“Portugal precisa de ter empresas como a Quadrante ou como a Mota-Engil, que têm uma ambição forte de crescimento e fazem esse esforço sem qualquer apoio público”

Que significado tem esta operação para a engenharia portuguesa?

Demonstra que a engenharia portuguesa pode ser um setor estratégico para Portugal. Empresas internacionalizadas levam conhecimento português para todo o mundo e criam valor para o país. Portugal precisa de ter empresas como a Quadrante ou como a Mota-Engil, que têm uma ambição forte de crescimento e fazem esse esforço sem qualquer apoio público — e bem, porque as empresas não precisam de apoio público, precisam é que em Portugal exista um mercado competitivo e sólido que permita às empresas ganhar escala antes de crescerem internacionalmente.

A engenharia pode ser um game changer da economia portuguesa?

É um complemento muito importante para outros setores estratégicos, como o turismo, a agricultura, a indústria e a energia, por exemplo, onde podemos ter campeões globais que trazem muito valor para a economia portuguesa.

Qual é a posição da Quadrante no mercado?

Apesar de sermos a maior empresa portuguesa do setor, temos apenas cerca de 1% a 2% de quota de mercado, porque este é um setor extremamente fragmentado.

“Estamos interessados em adquirir empresas portuguesas e temos uma operação praticamente concluída na área da engenharia para infraestruturas de energia”

Continuam à procura de aquisições em Portugal?

Sim. Estamos interessados em adquirir empresas portuguesas e temos uma operação praticamente concluída na área da engenharia para infraestruturas de energia, que será anunciada em setembro.

Quantas aquisições já realizaram?

Desde a fundação da Quadrante, em 1998, realizámos 12 aquisições a nível global, cinco das quais em Portugal. A operação que será anunciada em setembro será a sexta aquisição em território nacional.





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