A extrema-direita registou um forte avanço eleitoral na Europa ao longo dos últimos 15 anos. Com raras exceções, todos os partidos de extrema-direita ou neofascistas na Europa manifestam a sua simpatia pelas posições de Trump. Muitos dos seus líderes querem associar-se a Trump e adotam o seu estilo de comunicação.
No que diz respeito à Europa, a nova estratégia de segurança nacional de Trump afirma: «Queremos apoiar os nossos aliados na preservação da liberdade e da segurança da Europa, ao mesmo tempo que restauramos a confiança civilizacional da Europa e a sua identidade ocidental.» O documento acrescenta ainda: «Os Estados Unidos encorajam os seus aliados políticos na Europa a promover esta renovação, e a influência crescente dos partidos patrióticos europeus é, de facto, motivo de grande otimismo». Trump e o seu círculo são, assim, favoráveis à ascensão eleitoral da extrema-direita na Europa, numa tentativa de reestruturar a ordem política europeia e promover um bloco internacional neofascista articulado em torno do trumpismo e dos interesses das grandes empresas privadas norte-americanas.
Os partidos de direita radical ou de extrema-direita estão no governo em vários países europeus, nomeadamente na Itália, na Finlândia, na Croácia, na Eslováquia e na República Checa. Na Suécia, os Democratas da Suécia (Sverigedemokraterna) não participam formalmente no governo minoritário, mas dão-lhe o seu apoio parlamentar. Na Bélgica, a N-VA, partido nacionalista flamengo de extrema-direita (membro do grupo ECR de G. Meloni no Parlamento Europeu), lidera o governo federal com Bart De Wever como primeiro-ministro.
A extrema-direita tornou-se a principal força política em vários países europeus. Em Itália, o Fratelli d’Italia, de Giorgia Meloni, domina a vida política desde as eleições de 2022. Em França, o Rassemblement National, de Marine Le Pen, tornou-se a principal força eleitoral e está às portas do poder. Na Áustria, o FPÖ (Partido da Liberdade) ficou em primeiro lugar nas eleições legislativas de 2024. Na Flandres (Bélgica), o Vlaams Belang, partido de extrema-direita, ficou em primeiro lugar nas eleições europeias de junho de 2024, à frente do N-VA, partido nacionalista flamengo de extrema-direita. Nos Países Baixos, o PVV (Partij voor de Vrijheid – Partido pela Liberdade), de Geert Wilders, ficou em segundo lugar, atrás do D66, nas eleições de 2025. Na Hungria, o Fidesz – União Cívica Húngara, de Viktor Orbán, derrotado nas eleições de 2026, continua a ser a segunda força política do país. Na Alemanha, a Alternative für Deutschland (AfD), com 20,8 % dos votos nas eleições federais de 23 de fevereiro de 2025, tornou-se a segunda força política do país.
Após as eleições de junho de 2024, a presidente da Comissão Europeia (= a conservadora alemã Ursula von der Leyen) chegou a um acordo com o grupo parlamentar de extrema-direita liderado por Giorgia Meloni, da Itália, o que permitiu a este grupo parlamentar obter um cargo de vice-presidente executivo da Comissão Europeia [2], bem como três presidências de comissões [3] . Isto é importante porque as três comissões presididas por membros do grupo parlamentar europeu de Meloni são as de Agricultura, Orçamento e Petições. A comissão PETI, presidida pelo ultraconservador polaco Bogdan Rzońca, é responsável por analisar as petições apresentadas por cidadãos ou residentes da União Europeia [4] . Concretamente, pode declarar uma petição admissível ou inadmissível. A presidência de três comissões por um ou uma representante da extrema-direita reforça a influência institucional e a credibilidade desta corrente.
No Parlamento Europeu, em julho de 2026, os três grupos parlamentares de extrema-direita somam 196 deputados: o ECR, o grupo liderado por Meloni no PE, conta com 84 deputados [5]; o grupo «Patriotas pela Europa», de Marine Le Pen e Viktor Orbán, tem 85 [6]; e o grupo «Europa das Nações Soberanas», formado em torno do partido alemão AfD, tem 27 [7]. Se estes três grupos se unissem, a extrema-direita ocuparia a primeira posição no Parlamento Europeu com 196 eurodeputados, ou seja, mais 12 eurodeputados do que o grupo mais numeroso do Parlamento, o grupo conservador — cada vez mais à direita — do Partido Popular Europeu, que conta com 184. O grupo parlamentar dos partidos social-democratas e socialistas conta com 136 eurodeputados. O Grupo RENEW, que inclui, nomeadamente, o partido de Emmanuel Macron, conta apenas com 78 eurodeputados, uma vez que perdeu cerca de vinte lugares em 2024 em relação às eleições de 2019, principalmente a favor da extrema-direita. O grupo europeu dos Verdes conta com 53 eurodeputados, tendo perdido 17 lugares em 2024 em relação a 2019. Segue-se o grupo de esquerda no Parlamento Europeu, «The Left», com 46 eurodeputados (um aumento em relação aos 37 eurodeputados eleitos em 2019).
A maioria alternativa de direita e de extrema-direita pretendida por Ursula von der Leyen e pelo PPE
A aliança histórica conhecida como «Von der Leyen» (PPE, Socialistas S&D, Centristas do Renew Europe) mantém uma vantagem de pouco mais de 30 lugares acima do limiar da maioria absoluta. Uma maioria frequentemente reforçada pelos votos dos Verdes. No entanto, para fazer passar políticas cada vez mais extremas à direita, a presidência da UE não hesita em procurar o apoio dos três grupos parlamentares de extrema-direita quando percebe que os eleitos socialistas, ecologistas ou centristas não a apoiarão. Foi assim que surgiu uma maioria alternativa à direita. Para contornar a esquerda, o PPE recorre cada vez com mais frequência a uma «maioria de direita» (que alia o PPE aos grupos soberanistas e de extrema-direita: ECR, Patriotas pela Europa e ESN) [8]. Este bloco de cerca de 390 lugares permite-lhe aprovar textos cada vez mais desumanos sobre o controlo das fronteiras, o aumento dos orçamentos de defesa, a desregulamentação industrial e o abandono dos compromissos em matéria de proteção ambiental.
A votação do Parlamento Europeu, em março de 2026, que aprovou o reforço da política de migração desumana da UE
Um exemplo perfeito e histórico desta reviravolta concretizou-se durante a votação relativa a um novo regulamento sobre «repatriamentos» (política migratória), a 26 de março de 2026 [9]. Nesse dia, o tradicional cordão sanitário ruiu, dando lugar a uma aliança de direita sem precedentes. O Parlamento Europeu devia pronunciar-se sobre a reformulação do sistema comum de repatriamento de nacionais de países terceiros em situação irregular. Apresentado pelo relator de direita François-Xavier Bellamy (PPE / França), o projeto propunha um endurecimento drástico das regras de expulsão.
O texto aprovado prevê, nomeadamente: o alargamento da duração da detenção administrativa dos migrantes, que poderá ser prolongada até 24 meses; a possível transferência de pessoas expulsas para territórios fora da UE (os chamados «centros de regresso») com base em acordos com países terceiros; que uma decisão de expulsão tomada por um Estado-Membro (por exemplo, a França ou a Bélgica) tenha de ser automaticamente reconhecida e aplicável por outro (por exemplo, a Espanha); a limitação dos efeitos suspensivos dos recursos, o que significa que um migrante poderá ser expulso antes mesmo de o seu recurso ter sido totalmente analisado.
A esquerda (S&D), os Ecologistas e uma parte significativa dos centristas (Renew Europe) tentaram bloquear o texto, considerando-o incompatível com os direitos fundamentais. Em circunstâncias normais, esta oposição dos aliados habituais do PPE seria suficiente para levar à rejeição de um texto. Para conseguir a aprovação da sua reforma, o PPE deu uma guinada completa para a direita. O Grupo do PPE (centro-direita) obteve o apoio do grupo liderado por Giorgia Meloni (os Conservadores e Reformistas Europeus — CRE, ECR em inglês), do grupo dos Patriotas pela Europa (o grupo presidido por Jordan Bardella) e do grupo «A Europa das Nações Soberanas» (o grupo liderado pelo partido neofascista AfD). O bloqueio da esquerda fracassou. O texto foi aprovado por ampla maioria (389 votos a favor, 206 votos contra e 32 abstenções), graças à conjunção de votos que vão do centro-direita à extrema-direita. Esta votação confirma que o Parlamento Europeu funciona agora com uma geometria variável e sem complexos. O PPE já não hesita em se aliar de forma estruturada à extrema-direita para ultrapassar os obstáculos legislativos em temas soberanos (imigração, segurança) ou para congelar as normas ambientais.
Os principais pontos de encontro dos trumpistas e da extrema-direita neofascista europeia e latino-americana
Exceto no que diz respeito à questão da Gronelândia [10] e à forma como Trump conduz a guerra contra o Irão, os partidos europeus de extrema-direita simpatizam fortemente com a orientação neofascista e imperialista de Donald Trump e de outros líderes de extrema-direita noutras partes do mundo, em particular o governo de Netanyahu em Israel, o governo de Javier Milei na Argentina, o novo presidente pinochetista José Antonio Kast no Chile, o novo presidente colombiano de extrema-direita Abelardo de la Espriella, apelidado de «o Tigre», o presidente neofascista de El Salvador, Nayib Bukele, e o ex-presidente do Brasil, Jair Bolsonaro.
Para além dos apoios ideológicos e das declarações públicas, a extrema-direita europeia está agora integrada em espaços transnacionais de coordenação política diretamente ligados ao trumpismo. O principal ponto de convergência é a Conservative Political Action Conference (CPAC), um grande encontro anual da extrema-direita norte-americana, que se tem vindo a internacionalizar progressivamente. Desde o início da década de 2020, líderes e quadros do AfD, do Vox, do Rassemblement National, do Fidesz, do Fratelli d’Italia, do Chega, do Vlaams Belang ou ainda da AUR romena participam regularmente neste evento, ao lado de Donald Trump, dos seus colaboradores (Steve Bannon, J. D. Vance, Mike Flynn) e de líderes latino-americanos de extrema-direita. A CPAC funciona como uma plataforma ideológica global, onde são divulgados e harmonizados os temas centrais do trumpismo: guerra civilizacional, rejeição do multilateralismo, hostilidade para com a UE, obsessão migratória, ataques aos direitos das mulheres e das minorias, ceticismo climático e criminalização da esquerda e dos movimentos sociais.
Esta internacionalização reforçou-se ainda mais com a participação ativa de Javier Milei, de Jair Bolsonaro e do seu filho Flavio, bem como de José Antonio Kast. Estas figuras latino-americanas são sistematicamente apresentadas por Trump como modelos de «resistência ao socialismo» e de restauração da ordem autoritária. Os encontros da CPAC organizados fora dos Estados Unidos (Brasil, México, Argentina, Hungria) confirmam a existência de um eixo transatlântico e transcontinental que liga Washington, algumas capitais europeias e a América Latina reacionária. Não se trata apenas de intercâmbios simbólicos: estes espaços permitem a circulação de financiamentos, de estratégias eleitorais, de técnicas de comunicação digital e de métodos de polarização social inspirados no movimento MAGA.
Paralelamente à CPAC, o partido Vox, em Espanha, desempenha um papel central na estruturação desta rede internacional, nomeadamente através do Foro Madrid, lançado em 2020. Apresentado como uma alternativa «patriótica» aos fóruns progressistas internacionais, o Foro Madrid reúne partidos e líderes de extrema-direita europeus e latino-americanos, entre os quais Milei, Bolsonaro, Kast, bem como representantes do Rassemblement National, do Chega, do Fratelli d’Italia ou de partidos da Europa Central. O Foro Madrid e as iniciativas do Vox servem de elo entre o trumpismo, a extrema-direita europeia e as direitas radicais latino-americanas, articulando um discurso explicitamente contra a esquerda, os feminismos, a ecologia, os direitos humanos e qualquer forma de soberania popular que não seja autoritária. Embora se trate de uma justaposição de forças nacionais, a extrema-direita surge como um bloco ideológico internacional coerente, do qual Donald Trump constitui hoje o principal polo político, mediático e simbólico.
Conclusão
A ascensão da extrema-direita na Europa não constitui nem um acidente eleitoral nem um parêntese político. Tornou-se uma das principais manifestações da profunda crise que as sociedades europeias atravessam. Perante as crises econômica, social, ecológica, geopolítica e democrática, uma parte crescente das classes dirigentes e das forças conservadoras já não considera a extrema-direita como um perigo a conter, mas sim como um parceiro político legítimo. O abandono progressivo do «cordão sanitário», as alianças cada vez mais frequentes entre o Partido Popular Europeu e os grupos de extrema-direita no Parlamento Europeu, bem como o acesso destes últimos a cargos institucionais, testemunham uma transformação duradoura do panorama político europeu.
Ao mesmo tempo, estas forças inscrevem-se numa verdadeira internacional reacionária, da qual Donald Trump constitui hoje o principal polo político e ideológico. À sua volta, constrói-se uma rede transatlântica que liga governos, partidos, fundações, meios de comunicação social, grupos de influência e grandes fortunas, que trocam análises, estratégias, financiamentos e técnicas de comunicação, a fim de acelerar a sua conquista do poder.
Seria, no entanto, errado acreditar que esta evolução é inevitável. A história mostra que as ofensivas autoritárias podem ser frustradas quando os movimentos sociais, as organizações sindicais, as forças feministas, ecologistas, antirracistas e antifascistas, bem como as forças políticas de esquerda, conseguem construir mobilizações convergentes e alternativas credíveis. Perante uma extrema-direita agora organizada à escala internacional, as forças de resistência terão também de reforçar a sua capacidade de ação, solidariedade e coordenação para além das fronteiras. A questão já não é, portanto, saber se a extrema-direita está às portas do poder na Europa: numa parte do continente, já governa, e noutras partes influencia profundamente as políticas públicas. O verdadeiro desafio é agora saber se as forças empenhadas na democracia, nos direitos sociais, na igualdade, na paz e na justiça climática serão também capazes de construir um projeto suficientemente ambicioso para inverter esta dinâmica.
Adenda: Lista não exaustiva de partidos de extrema-direita ou neofascistas em 13 países da União Europeia
Eis uma lista não exaustiva dos partidos de extrema-direita ou neofascistas da União Europeia que beneficiam da simpatia da administração de Trump e que manifestam a sua afinidade com esta, apesar de se terem distanciado das pretensões de Trump em relação à Gronelândia e da guerra contra o Irão iniciada no final de fevereiro de 2026.
- Alternative für Deutschland (AfD), na Alemanha, que obteve 20,8 % dos votos nas eleições federais de 23 de fevereiro de 2025. É a segunda força política em votos e em assentos (atrás da CDU/CSU, que lidera o PPE). A AfD multiplicou os contactos e as visitas aos Estados Unidos. Conforme referido anteriormente, recebeu o apoio direto de Elon Musk quando este era conselheiro de Trump e de J.D. Vance, vice-presidente dos Estados Unidos durante a campanha eleitoral de janeiro-fevereiro de 2025.
- No Parlamento Europeu, a AfD lidera um dos três grupos parlamentares de extrema-direita. O grupo chama-se «Europa das Nações Soberanas» e conta com 27 eurodeputados (dos quais 15 são da AfD). Representantes e figuras de destaque da AfD, incluindo Christine Anderson (ex-deputada europeia) e outros membros da direção, foram convidados e participaram na Conferência de Ação Política Conservadora (Conservative Political Action Conference ou CPAC) nos Estados Unidos com Trump, ao lado de uma parte significativa da extrema-direita europeia e latino-americana, nomeadamente nas edições de 2023 e 2024.
- Rassemblement National (RN) em França. O grupo RN e os seus afins contam com 122 deputados na Assembleia Nacional desde as eleições legislativas de junho de 2024. O RN e os seus aliados obtiveram 33 % no primeiro turno das eleições parlamentares de 2024.
- É importante matizar o que foi referido anteriormente, precisando que, no segundo turno, os partidos de esquerda — unidos para as eleições legislativas de junho-julho de 2024 sob a bandeira do Nova Frente Popular (La France insoumise, o Partido Socialista, Os Ecologistas e o Partido Comunista Francês), tinham obtido cerca de 180 deputados (mais de 190 se somarmos outros eleitos próximos do NFP), ficando assim na liderança, à frente do campo presidencial (cerca de 160 lugares) e do Rassemblement National e dos seus aliados (cerca de 143 lugares). Esta aliança de esquerda sob o nome de Nova Frente Popular era, portanto, a primeira força política e Emmanuel Macron deveria ter tirado conclusões daí, nomeando a candidata do NFP para o cargo de primeira-ministra. Ele pisou este princípio democrático, recusou a candidatura legitimamente proposta pelo NFP e nomeou como primeiro-ministro Michel Barnier, membro histórico do partido Les Républicains (LR), que tinha obtido apenas 39 deputados. Desde junho de 2024, o NFP desintegrou-se infelizmente e o RN, com os seus 122 deputados, é o partido mais forte em termos de representantes eleitos na Assembleia Nacional. De acordo com o site da Assembleia Nacional, «La France Insoumise» conta com 71 deputados, os Socialistas e afins contam com 68, os Ecologistas e associados contam com 38, o PC e associados contam com 17, perfazendo um total de 194 deputados [11].
- Nas eleições presidenciais de 2027, Marine Le Pen, a candidata do Rassemblement National, poderá vencer as eleições, embora nada esteja decidido de antemão e Jean-Luc Mélenchon, candidato da France Insoumise, possa causar uma surpresa.
- Jordan Bardella, presidente do RN, felicitou Trump após a publicação da NSS 2025 em dezembro de 2025, mas distanciou-se dele a 20 de janeiro de 2026 no que diz respeito à Gronelândia. [12] Jordan Bardella preside também aos Patriotas pela Europa, o maior grupo de extrema-direita e neofascista no Parlamento Europeu, que conta com 85 eurodeputados, dos quais 30 pertencem ao RN. O RN, embora se mantenha muito próximo de Donald Trump, distanciou-se dele no que diz respeito à guerra contra o Irão, desencadeada em fevereiro de 2026. Marine Le Pen criticou os objetivos considerados incertos da intervenção norte-americana e qualificou a estratégia de Donald Trump de errática. Esta posição ilustra a tensão crescente entre o alinhamento do RN com Trump e a sua vontade de defender uma política externa soberanista.
- Fidesz (Hungria). Depois de ter dominado a vida política húngara durante dezasseis anos, o Fidesz — União Cívica Húngara, de Viktor Orbán — foi derrotado nas eleições legislativas de abril de 2026 pelo partido TISZA, de Péter Magyar (que se tinha separado de Orbán em 2024). O Fidesz continua, no entanto, a ser a segunda força política do país e mantém-se como um dos principais partidos da extrema-direita europeia. Sob o governo de Orbán (2010-2026), a Hungria destacou-se por uma política de rejeição à imigração, pelo questionamento de numerosos direitos das pessoas LGBT+, pela concentração do poder executivo, por violações da independência do poder judicial e dos meios de comunicação social, bem como por conflitos repetidos com as instituições da União Europeia em matéria de Estado de direito. Viktor Orbán tornou-se igualmente um aliado político e ideológico de Donald Trump e um dos principais lídere os europeus favoráveis a uma aproximação a Vladimir Putin. Foi um dos fundadores do grupo «Patriotas pela Europa», presidido no Parlamento Europeu por Jordan Bardella. O Fidesz conta atualmente com 11 eurodeputados. A derrota eleitoral de Orbán em 2026 não põe em causa a sua influência na extrema-direita europeia. O Fidesz continua a ser um dos principais partidos do grupo «Patriotas pela Europa» no Parlamento Europeu, que constitui agora uma das principais forças da direita radical no seio da União Europeia.
- Convém também recordar que, até março de 2021, o Fidesz fazia parte do Partido Popular Europeu (PPE).
- O Vox, em Espanha, oscila entre os 10 % e os 12 % dos votos. Conta com 33 deputados no Parlamento espanhol e 6 no Parlamento Europeu. O Vox manifestou claramente a sua admiração pelo estilo político de Trump e tem vindo a multiplicar os encontros com enviados de Trump na Europa e na América Latina. Em 2024, o Vox abandonou o grupo ECR de Meloni e juntou-se ao grupo «Patriotas pela Europa», presidido por Bardella, num sinal de radicalização para posições ainda um pouco mais neofascistas. Em janeiro de 2026, o Vox apoiou com entusiasmo a agressão militar dos Estados Unidos contra a Venezuela. Até ao momento, o Vox mantém silêncio sobre Trump e a Gronelândia e não se distancia de Washington na sua guerra contra o Irão.
- Irmãos da Itália / Fratelli d’Italia (FdI) em Itália. É o partido maioritário na coligação governamental (o FdI obteve 26 % dos votos nas eleições de 2022 e 29 % nas eleições europeias de 2024). Giorgia Meloni cultivou contactos públicos com Trump (visita a Mar-a-Lago, presença na cerimônia de tomada de posse da presidência em janeiro de 2025). O partido de Meloni lidera o grupo ECR no Parlamento Europeu, que conta com 84 eurodeputados, dos quais 24 pertencem ao seu partido. Na sequência da recusa da Itália em permitir que os Estados Unidos utilizassem as bases militares italianas na guerra contra o Irão, Trump lançou críticas contra Meloni. Este episódio ilustra as tensões entre a proximidade ideológica de Meloni com o trumpismo e a sua vontade de afirmar os interesses estratégicos italianos e europeus.
- A Lega (A Liga), liderada por Matteo Salvini, faz parte do governo italiano presidido por Giorgia Meloni. Matteo Salvini é vice-presidente do Conselho de Ministros. A Lega faz parte do grupo «Patriotas pela Europa», ao qual contribui com 8 eurodeputados. Historicamente, Matteo Salvini é um dos líderes europeus mais próximos de Donald Trump, nomeadamente em questões migratórias, na crítica à União Europeia e na rejeição do multilateralismo liberal.
- Lei e Justiça (PiS) na Polónia. Trata-se de um grande partido de governo / ultraconservador / ultranacionalista / patriarcal. O PiS, atualmente na oposição, partilha algumas convergências com a retórica nacionalista e tem frequentemente elogiado certas posições da administração Trump em matéria de soberania e segurança. É o único, entre todos os partidos desta lista, a manifestar reservas em relação à política de Trump para com a Rússia, que o PiS considera demasiado conciliatória. O PiS é o segundo maior partido do grupo ECR liderado por Meloni, contando com 20 eurodeputados.
- O Partido da Liberdade (FPÖ) da Áustria obteve um resultado histórico nas eleições legislativas austríacas de setembro de 2024, com 28,8 % dos votos, tornando-se a principal força política do país. Os seus líderes têm vindo a enviar regularmente sinais de apoio a Donald Trump desde 2016 e adotam as mesmas posições em matéria de imigração. O FPÖ contribui com 6 eurodeputados para o grupo «Patriotas pela Europa», presidido por Jordan Bardella e ao qual Viktor Orbán também presta o seu apoio político.
- Vlaams Belang (Interesse Flamengo) na Bélgica (Flandres). Nas eleições europeias de junho de 2024, o VB neofascista ficou em primeiro lugar, logo à frente da N-VA de extrema-direita, do primeiro-ministro Bart de Wever. O Vlaams Belang faz parte do «Patriots for Europe», o grupo de Jordan Bardella e Viktor Orbán. O Vlaams Belang tem felicitado regularmente Trump desde 2016 e mantém um discurso racista e anti-imigração próximo dos temas do movimento MAGA. O Vlaams Belang contribui com 3 eurodeputados para o grupo liderado por Bardella e Orbán.
- A Nieuw-Vlaamse Alliantie (Nova Aliança Flamenga, N-VA) é membro do grupo ECR de G. Meloni no Parlamento Europeu. A N-VA tem-se mostrado relativamente discreta no seu apoio a Trump, uma vez que lidera o governo do Reino da Bélgica, mas Theo Francken, um dos seus líderes mais proeminentes e ministro da Defesa, tem manifestado de forma mais aberta e regular a sua simpatia e apoio a Donald Trump, desde o primeiro mandato de 2017-2021, durante as eleições de 2024, e manifestou o seu apoio ao documento de estratégia de segurança nacional publicado pela administração de Trump [13]. Na qualidade de ministro da Defesa, está totalmente alinhado com as exigências dos Estados Unidos, nomeadamente em termos de aquisição de armamento de origem norte-americana, como, por exemplo, a compra de caças-bombardeiros F-35. A N-VA contribui com três eurodeputados para o grupo ECR liderado por Giorgia Meloni.
- PVV (Partij voor de Vrijheid – Partido da Liberdade) nos Países Baixos, liderado por Geert Wilders. Este partido obteve importantes sucessos eleitorais até 2023, integrou o governo, mas registou uma perda de votos em 2025 e já não faz parte do governo [14]. Geert Wilders apresenta-se como o «Trump holandês». O PVV contribui com 6 eurodeputados para o grupo liderado por Jordan Bardella. O PVV apoiou a agressão militar de Washington contra a Venezuela.
- Democratas da Suécia (Sverigedemokraterna) na Suécia. Depois de terem ultrapassado a barreira dos 4 % em 2010, a sua votação não parou de aumentar, atingindo 20,5 % dos votos nas eleições de 2022, tornando-se o segundo partido em termos eleitorais. Os SD desempenham um papel importante na reestruturação da direita sueca. Embora não participem diretamente no governo, desempenham um papel determinante na coligação de direita resultante do Acordo de Tidö, celebrado em 2022 com os Moderados, os Democratas-Cristãos e os Liberais. O SD é indispensável para a sobrevivência da coligação governamental minoritária e exerce uma influência ideológica e política sem precedentes na orientação do país, em particular em questões de imigração e repressão. O SD adota um discurso anti-imigração e soberanista próximo dos temas trumpistas. Os três eurodeputados do SD fazem parte do grupo ECR de Meloni no PE.
- Na República Checa, os três partidos que constituem, desde o final de 2025, o governo estão próximos das posições de Trump. Trata-se do ANO (Ação dos Cidadãos Insatisfeitos, 34,5 % dos votos nas eleições de 2025), liderado pelo bilionário Andrej Babiš, que se tornou primeiro-ministro, do Partido da Liberdade e Democracia Direta (Freedom and Direct Democracy — SPD — Svoboda a přímá demokracie, 7,8 % dos votos em 2025) e o partido AUTO (Automobilistas por Si Próprios — Motoristé sobě em checo, 6,8 % em 2025). O ANO (7 eurodeputados) e o AUTO (2 eurodeputados) fazem parte do grupo parlamentar europeu «Patriotas pela Europa», liderado por Jordan Bardella e Viktor Orbán. O partido neofascista «Liberdade e Democracia Direta» apoia o grupo «Europa das Nações Soberanas», liderado pelo partido alemão AfD, mas não tem eurodeputados.
- Na Roménia, a Aliança para a União dos Romenos (AUR / Alianța pentru Unirea Românilor) impôs-se como uma força significativa no Parlamento romeno após as eleições legislativas e presidenciais de 2025, nas quais o seu candidato ficou em primeiro lugar na primeira volta [15], antes de ser derrotado na segunda volta por um candidato pró-UE. [16] O principal líder, frequentemente descrito como «pró-Trump» na Roménia, é George Simion. Meios de comunicação internacionais como o The Guardian descrevem-no como um admirador de Donald Trump que transpõe elementos do estilo ou do movimento MAGA para o contexto romeno [17]. Simion é considerado um «aliado natural de Trump». Os cinco eurodeputados da AUR fazem parte do grupo ECR de Meloni no PE.
- CHEGA em Portugal. O Chega registou um rápido crescimento desde a sua criação em 2019, passando de 1,3 % dos votos em 2019 para cerca de 22,6 % nas eleições legislativas antecipadas de 18 de maio de 2025, onde obteve 60 lugares em 230. Este resultado o torna a segunda força política no Parlamento português e a principal força de oposição ao governo de direita, ultrapassando o Partido Socialista. Desde as eleições europeias de 2024, dois eurodeputados do Chega integram o Parlamento Europeu no grupo «Patriotas pela Europa», liderado por J. Bardella e V. Orbán. Na primeira volta das eleições presidenciais portuguesas de 18 de janeiro de 2026, André Ventura, líder do partido de extrema-direita Chega, ficou em segundo lugar com cerca de 23,5 % dos votos, atrás do candidato socialista António José Seguro, que obteve 31 %.
Artigo publicado originalmente em CADM. Eric Touissant é autor dos livros Bancocratie; Procès d’un homme exemplaire; Un coup d’œil dans le rétroviseur. L’idéologie néolibérale des origines jusqu’à aujourd’hui. É coautor com Damien Millet do livro A Crise da Dívida, Auditar, Anular, Alternativa Política e La dette ou la vie.
[1] O site Elucid publicou em primeira mão este artigo intitulado «A extrema-direita conquista a Europa: do poder nacional à internacional trumpista» https://elucid.media/democratie/l-extreme-droite-conquiert-l-europe-du-pouvoir-national-a-l-internationale-trumpiste. A presente versão, publicada no site do CADTM, inclui, num adenda, uma lista não exaustiva dos partidos de extrema-direita ou neofascistas em 13 países da União Europeia.
[2] O grupo ECR conseguiu que um dos seus membros, Raffaele Fitto (Itália), do partido de Meloni (Fratelli d’Italia), fosse nomeado vice-presidente executivo da Comissão Europeia (mandato da Comissão «von der Leyen II», que tomou posse a 1 de dezembro de 2024) para a pasta «Coesão e Reformas».
[3] Johan Van Overtveldt (membro do grupo ECR de Meloni no Parlamento Europeu e do partido N-VA na Bélgica) foi eleito presidente da comissão «Orçamento» (BUDG). Veronika Vrecionová (ECR, República Checa) foi eleita presidente da comissão «Agricultura e Desenvolvimento Rural» (AGRI). Bogdan Rzońca (ECR, Polónia) foi eleito presidente da comissão «Petições» (PETI) do Parlamento.
[4] No que diz respeito à comissão PETI, consulte o site do Parlamento Europeu:https://www.europarl.europa.eu/petitions/en/home; https://www.europarl.europa.eu/petitions/en/artcl/Submitting+a+petition+at+the+European+Parliament/det/20220906CDT10142. A comissão PETI pode declarar uma petição admissível ou inadmissível; solicitar esclarecimentos à Comissão Europeia ou a um estado-membro; organizar audições públicas; enviar missões de inquérito a um Estado-Membro; elaborar relatórios ou resoluções que convidem a Comissão ou os governos a agir; assegurar o acompanhamento das decisões do Provedor de Justiça Europeu (European Ombudsman).
[5] Entre as eleições de junho de 2024 e julho de 2026, o ECR ganhou mais 6 membros e contava com 84 deputados ao Parlamento Europeu (MEP), ver https://www.europarl.europa.eu/meps/fr/search/advanced?name=&euPoliticalGroupBodyRefNum=7037&countryCode=&bodyType=ALL (consultado a 9 de julho de 2026).
[6] O grupo «Patriotas pela Europa», de Marine Le Pen e Viktor Orbán, ganhou mais um lugar entre as eleições de junho de 2024 e meados de 2026. Conta com 85 membros no seu grupo no PE, verhttps://www.europarl.europa.eu/meps/fr/search/advanced?name=&euPoliticalGroupBodyRefNum=7150&countryCode=&bodyType=ALL (consultado a 9 de julho de 2026).
[7] O grupo «Europa das Nações Soberanas», formado em torno do partido alemão AfD, passou de 25 para 27 deputados ao Parlamento Europeu (MEP) entre junho de 2024 e meados de 2026: https://www.europarl.europa.eu/meps/fr/search/advanced?name=&euPoliticalGroupBodyRefNum=7151&countryCode=&bodyType=ALL (consultado a 9 de julho de 2026).
[8] Juliette Raulet-Descombey, «Novas alianças no Parlamento Europeu: entre a direita e a extrema-direita, a barreira cedeu», Fundação Jean Jaurès, publicado a 10 de junho de 2026, https://www.jean-jaures.org/publication/nouvelles-alliances-au-parlement-europeen-entre-droite-et-extreme-droite-la-digue-a-cede/ (consultado a 12 de julho de 2026).
[9] Esta votação ainda não confirma a adoção definitiva do novo regulamento. Tratava-se do sinal verde necessário para que o Parlamento Europeu iniciasse as negociações em «trílogo» com o Conselho da UE (os representantes dos governos dos Estados-Membros) e a Comissão, a fim de selar a versão final do regulamento.
[10] Reuters, «A extrema-direita e os populistas europeus distanciam-se de Trump em relação à Gronelândia», publicado a 21 de janeiro de 2026,https://www.reuters.com/world/europes-far-right-populists-distance-themselves-trump-over-greenland-2026-01-21/.
[11] Ver no site da Assembleia Nacional: Composição dos grupos políticos https://www2.assemblee-nationale.fr/instances/liste/groupes_politiques/effectif, consultado a 10 de julho de 2026. O total de 194 deputados é, portanto, superior aos resultados do NFP em junho de 2024, uma vez que uma série de eleitos se juntou aos Socialistas e afins, aos Ecologistas, ao PC e associados. O número de deputados da LFI manteve-se estável.
[12] JDD, «A nossa submissão seria um erro histórico»: Bardella exorta a UE a responder aos direitos aduaneiros de Trump», publicado a 20 de janeiro de 2026, https://www.lejdd.fr/politique/notre-soumission-serait-une-faute-historique-bardella-exhorte-lue-a-repliquer-aux-droits-de-douane-de-trump-166040 consultado a 19 de julho de 2026.
[13] Bertrand Henne, «Quem quer uma Europa Maga?», publicado pela RTBF a 8 de dezembro de 2025,https://www.rtbf.be/article/qui-veut-d-une-europe-maga-11644321, consultado a 19 de julho de 2026.
[14] Nos Países Baixos, a extrema-direita (= o PVV de Geert Wilders) já não faz parte do governo desde junho de 2025. E, na sequência dos resultados das eleições de 29 de outubro de 2025, nas quais os resultados deste partido registaram uma forte queda, foi formado um novo governo sem a participação do PVV. Em 2023, o PVV tinha registado um forte crescimento, passando de 17 assentos em 2021 para 37 em 2023. Em outubro de 2025, o PVV sofreu uma correção significativa, com uma perda de cerca de 11 assentos, caindo para 26. Nas eleições, o partido de centro-direita D66 obteve um sucesso eleitoral que lhe permitiu ultrapassar o PVV por cerca de 30 000 votos. O D66 obteve cerca de 1 790 000 votos, contra cerca de 1 760 000 do PVV.









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