A Europa sem bússola


Há um sintoma que atravessa todas as crises europeias dos últimos anos, da guerra na Ucrânia à corrida da Inteligência Artificial: a Europa sabe diagnosticar os seus problemas, mas hesita perante as decisões que os resolveriam. O continente vive uma mudança silenciosa de valores, nomeadamente na cultura, na família, na educação e essa mudança está a colidir com uma exigência à qual a Europa não está habituada: ter de se defender, financiar-se e inovar sem depender dos Estados Unidos.

Comecemos pelos números que raramente entram no debate político do dia a dia. Em 2025, a despesa média em Defesa dos 32 países da NATO situou-se em 2,77% do PIB, e na Cimeira de Haia os aliados comprometeram-se a chegar aos 5% até 2035, 3,5% em Defesa essencial e 1,5% em segurança alargada. Portugal atingiu a meta simbólica dos 2%, mas continua entre os países que menos gastam. Os Estados Unidos representaram, por si só, cerca de 60% da despesa total da Aliança em 2025.

Ou seja: mesmo depois de anos de retórica sobre “autonomia estratégica europeia”, a Europa continua estruturalmente dependente do guarda-chuva americano. Falar de autossuficiência sem a vontade política de a financiar é um exercício retórico, não uma estratégia.

O mesmo desfasamento entre discurso e investimento repete-se na tecnologia. Em 2025, o investimento privado em Inteligência Artificial nos Estados Unidos ascendeu a cerca de 286 mil milhões de dólares, 13 vezes mais do que o investido na União Europeia (cerca de 21 mil milhões). Entre 2019 e 2025, os EUA investiram 163,6 mil milhões de dólares em IA generativa, contra 3,2 mil milhões da UE. A resposta de Bruxelas, os 200 mil milhões de euros anunciados para o InvestAI, chega tarde e é, ainda assim, uma fração do que os concorrentes já mobilizaram.

A Europa tem densidade de talento por habitante, mas não a converte em produção tecnológica de ponta, prefere regular antes de construir. É uma escolha de valores tanto quanto uma escolha económica: entre o princípio da precaução e o risco calculado, a Europa tem historicamente preferido o primeiro.

Esta mesma lógica de subinvestimento atravessa a cultura. Em Portugal, o orçamento da Cultura para 2025 ronda os 597 milhões de euros, um aumento real, mas ainda residual face a outras rubricas do Estado. A nível europeu, o programa Europa Criativa dispõe de 2,44 mil milhões de euros para sete anos, o que equivale a pouco mais de 200 milhões anuais repartidos por mais de 30 países.

Sem investimento cultural sério, a Europa perde aquilo que mais a distingue das outras potências, nomeadamente uma narrativa própria sobre quem é e o que defende. Uma sociedade que não investe na sua cultura acaba por importar os valores de quem investe.

E é aqui que entra a mudança mais profunda, e mais difícil de medir em orçamentos: a da própria estrutura familiar e demográfica. A União Europeia deverá atingir o pico populacional por volta de 2026, segundo as estatísticas, iniciando depois um declínio prolongado até aos 419,5 milhões de habitantes em 2100. A Alemanha registou em 2025 a taxa de natalidade mais baixa desde 1946, com 1,35 filhos por mulher. Em Itália, os nascimentos continuam a cair ano após ano. As causas apontadas, por exemplo a instabilidade económica, custo de vida, incerteza climática, prioridade dada à carreira, não são apenas estatísticas demográficas: são o retrato de sociedades que reorganizaram silenciosamente as suas prioridades de vida, sem que as políticas públicas as tenham acompanhado.

Uma Europa que envelhece e encolhe terá cada vez menos margem fiscal para financiar simultaneamente defesa, tecnologia e cultura, precisamente as três frentes onde já está atrasada.

Perante este quadro, a pergunta incontornável é sobre a capacidade de liderança. Os líderes europeus falam de soberania, mas continuam presos a ciclos eleitorais curtos, a coligações fragmentadas e a uma arquitetura de decisão, à unanimidade em matérias-chave que torna qualquer estratégia de longo prazo refém do veto de um só Estado-membro. Não faltam diagnósticos, nem cimeiras; falta a disciplina de transformar objetivos em execução mensurável.

É por isso que a resposta não pode ser apenas gastar mais em Defesa, em tecnologia, em cultura, em apoio à natalidade, mas gastar melhor. As sociedades Ocidentais precisam de reorganizar as suas políticas públicas em torno de programas com objetivos claros, prazos definidos e avaliação de resultados, não de anúncios que se esgotam na conferência de imprensa. Isto significa auditar continuamente se o dinheiro da Defesa está a gerar capacidade militar real, se os fundos de inovação estão a produzir empresas competitivas, se o investimento cultural está a chegar às pessoas, e se as políticas de apoio à família estão, de facto, a alterar decisões de vida ou apenas a compensar marginalmente um problema estrutural.

A Europa não precisa de escolher entre valores e eficiência. Precisa de perceber que, sem avaliação séria das suas políticas públicas, os valores que diz querer defender, nomeadamente a cultura, a coesão familiar, a Educação de qualidade, a capacidade de se defender sem depender de terceiros, permanecerão apenas isso: discurso.

E o discurso, ao contrário do armamento, da natalidade ou da inovação tecnológica, não travará nenhuma das transformações que já estão em curso.



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