As notas que desunem a Europa


O debate em torno das novas notas de euro pode parecer um mero exercício de design gráfico. Não é. Os símbolos de uma comunidade política nunca são detalhes. São elementos que ajudam a criar um sentimento de pertença, reforçam uma identidade comum e transmitem uma ideia de continuidade. É precisamente por isso que constitui um erro a intenção do Banco Central Europeu de abandonar o conceito que acompanhou o euro desde o seu nascimento. As actuais notas são um dos maiores sucessos simbólicos da integração europeia e não deveriam ser substituídas por um conjunto de figuras históricas nacionais.

As notas que circulam desde 2002 foram concebidas com uma inteligência rara. Não representam monumentos reais, precisamente para que nenhum Estado se sentisse privilegiado. Em vez disso, apresentam janelas, portas e pontes inspiradas nos vários estilos arquitectónicos da Europa, do românico ao moderno. Qualquer europeu consegue reconhecer nelas um pedaço da sua própria História, sem que nenhuma nação se sobreponha às restantes. É um equilíbrio notável entre identidade e neutralidade.

Agora pretende-se romper esse consenso. Algumas das propostas em discussão colocam figuras históricas concretas nas notas de euro. Ninguém questiona a dimensão universal de Maria Callas, Miguel de Cervantes ou Leonardo da Vinci. São personalidades extraordinárias, cuja influência ultrapassou largamente as fronteiras dos seus países. Mas quando se pensa neles, pensa-se inevitavelmente na Grécia, em Espanha ou em Itália. Não são figuras que, à primeira vista, evoquem a construção da identidade europeia.

E aqui reside o problema. O euro não é a moeda de um Estado. É a moeda de uma comunidade de povos. O simbolismo das notas deve servir para unir europeus, não para estabelecer comparações sobre quem merece maior representação. Porque, se essa porta for aberta, nunca mais será possível fechá-la. Porque não Beethoven? Porque não Chopin? Porque não Camões? Porque não Goethe? Porque não Shakespeare se o Reino Unido voltar à UE? A lista seria praticamente infinita e inevitavelmente geraria divisões desnecessárias.

Se o objectivo fosse homenagear pessoas, existiria uma solução muito mais consensual. Porque não escolher aqueles que verdadeiramente construíram a Europa unida? Robert Schuman, Jean Monnet, Alcide De Gasperi, Altiero Spinelli, Louise Weiss, Simone Veil ou Konrad Adenauer são nomes cuja importância está directamente ligada ao projecto europeu. São personalidades que ajudaram a transformar um continente destruído pela guerra numa comunidade de paz, democracia e prosperidade. São figuras que pertencem ao património político europeu muito mais do que ao património nacional dos respectivos países.

Ainda assim, nem essa seria provavelmente a melhor solução. As actuais notas não envelheceram. Pelo contrário. Continuam elegantes, equilibradas e profundamente europeias. Atravessaram mais de duas décadas sem gerar polémica precisamente porque não representam ninguém em particular. Representam todos.

Há quem defenda que chegou o momento de modernizar a moeda. Modernizar, porém, não significa destruir aquilo que funciona. As notas de euro já sofreram alterações ao longo dos anos. As actuais pertencem à série “Europa” e não são exactamente iguais às primeiras emitidas em 2002. Melhoraram elementos de segurança, actualizaram grafismos e aperfeiçoaram vários detalhes técnicos. Tudo isso pode voltar a acontecer sem eliminar os motivos principais que fizeram destas notas um exemplo de inteligência institucional.

Basta olhar para os Estados Unidos. As figuras presentes nas notas de dólar mantêm-se praticamente inalteradas desde 1928. Washington, Lincoln, Hamilton, Jackson ou Franklin continuam a ilustrar a moeda mais importante do planeta. Nunca ninguém considerou que isso impedisse a modernização tecnológica das notas. O desenho evoluiu, os mecanismos de segurança foram reforçados, mas a identidade visual permaneceu. Porque compreenderam que a estabilidade simbólica também é um activo.

Na Europa parece existir uma estranha tentação para mudar aquilo que nunca constituiu um problema. É uma tendência recorrente das instituições europeias. Em vez de consolidarem símbolos que já foram interiorizados por centenas de milhões de cidadãos, procuram reinventá-los constantemente. Esquecem-se de que uma identidade comum demora gerações a construir e apenas alguns anos a enfraquecer.

Os símbolos contam. Contam muito mais do que muitas vezes se imagina. Uma bandeira, um hino, uma moeda ou um passaporte ajudam a criar um sentimento de comunidade que nenhuma directiva consegue produzir. É através desses pequenos elementos que os cidadãos interiorizam a ideia de pertença a um projecto político comum. Alterá-los sem necessidade é correr o risco de enfraquecer essa ligação emocional.

A União Europeia precisa hoje de mais coesão, não de novas linhas de fractura. Precisa de reforçar aquilo que une os seus cidadãos, não de criar debates sobre qual o escritor, o artista ou o cientista que merece aparecer numa nota de vinte ou cinquenta euros. As pontes e as janelas representam exactamente isso: ligação, abertura, diálogo e continuidade. São metáforas perfeitas da construção europeia.

Seria bom que ainda houvesse tempo para o Banco Central Europeu reconsiderar este processo. Pode renovar o aspecto gráfico das notas, torná-las mais modernas, mais seguras e tecnologicamente mais avançadas. Mas deverá preservar aquilo que lhes dá identidade. Porque, numa Europa onde tantas vezes prevalecem as divisões nacionais, as notas de euro continuam a recordar, de forma discreta mas poderosa, que existem símbolos que pertencem verdadeiramente a todos os europeus.

Tiago Matos Gomes é presidente do movimento Partido Democrata Europeu e tem um artigo quinzenal no SAPO // O autor escreve com o antigo acordo ortográfico



Source link

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *