As redes europeias de telecomunicações estão a entrar num período de transformação estrutural. À medida que a conectividade se torna indispensável ao funcionamento da economia, dos serviços públicos e da sociedade, a segurança e a capacidade de resistência das infraestruturas digitais passaram a ocupar um lugar central nas prioridades políticas da União Europeia.
É neste contexto que surge a proposta de revisão do Regulamento Europeu da Cibersegurança, denominada Cybersecurity Act 2 ou CSA2. O novo enquadramento prevê o reforço dos requisitos de segurança e poderá obrigar os operadores a remover, dentro de prazos definidos, os equipamentos críticos fornecidos por empresas classificadas como fornecedores de alto risco.
A medida abrangeria as redes móveis e fixas, incluindo as infraestruturas de transporte que asseguram a circulação de dados entre diferentes pontos da rede. Caso seja aprovada nos termos apresentados, a retirada obrigatória destes equipamentos representará uma das intervenções mais profundas e mas caras já realizadas no setor europeu das telecomunicações nas últimas décadas.
O objetivo político é reduzir a dependência de fornecedores considerados suscetíveis de colocar em causa a segurança das redes. O problema está na dimensão económica e operacional de uma substituição desta escala, sobre a qual continua a existir pouca informação pública.
Com base em dados fornecidos por grupos europeus de telecomunicações, a GSMA Intelligence estima que o custo direto da remoção e substituição dos componentes críticos poderá situar-se entre 30 mil milhões e 40 mil milhões de euros. A estimativa da associação internacional de operadores é aproximadamente três vezes superior ao valor considerado pela Comissão Europeia.
Este cálculo contempla essencialmente o chamado processo de rip and replace, que consiste em retirar os equipamentos instalados e substituí-los por soluções de outros fabricantes. Não inclui, porém, custos como as amortizações antecipadas de ativos ainda em utilização, as interrupções provocadas pelas intervenções técnicas ou a reorganização das redes durante a migração.
O impacto financeiro final poderá, por isso, ultrapassar de forma significativa o valor da substituição física. Equipamentos instalados há poucos anos podem ainda não ter sido totalmente amortizados, obrigando os operadores a reconhecer perdas contabilísticas antes do fim previsto do seu ciclo de vida.
A redução do número de fornecedores disponíveis poderá igualmente alterar as condições de negociação no mercado europeu. Com menos concorrência entre fabricantes, os operadores ficam com menor capacidade para obter preços favoráveis, diversificar contratos ou adaptar as aquisições às características de cada rede.
A remoção dos fornecedores classificados como de alto risco não se limita a uma decisão técnica de cibersegurança, podendo modificar os custos, a concorrência e o planeamento de investimento de todo o setor.
A eficiência energética constitui outro elemento da equação. Segundo os dados apresentados, alguns dos equipamentos de substituição poderão consumir mais energia do que as soluções atualmente instaladas. Esta diferença traduzir-se-á em custos operacionais superiores num setor que já enfrenta uma utilização crescente das redes e uma pressão continuada para reduzir o consumo energético.
Os prazos definidos para a substituição serão determinantes. Uma transição demasiado rápida pode obrigar os operadores a realizar intervenções simultâneas em múltiplos pontos da infraestrutura, aumentando a possibilidade de interrupções, falhas de serviço e dificuldades na disponibilidade de equipamentos e técnicos especializados.
Esta concentração de trabalhos também pode criar um efeito contrário ao pretendido. Durante o período de migração, as redes podem ficar mais expostas a incidentes operacionais, sobretudo quando componentes críticos são substituídos antes de estarem concluídos os testes de integração e de compatibilidade.
Existe ainda o risco de os recursos financeiros e humanos destinados à modernização das redes serem desviados para cumprir as obrigações regulatórias. Projetos relacionados com a expansão da fibra, a evolução das redes móveis ou a melhoria da cobertura podem ser adiados para acomodar os custos de substituição.
Para os operadores, a principal dificuldade será financiar a remoção dos equipamentos sem comprometer a modernização das redes, a qualidade dos serviços e o investimento em novas áreas de cobertura.






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