Não é a primeira vez que a Europa sofre com este fenómeno, que desta vez pode ser mais uma “crise geopolítica” do que uma “crise migratória”
A relação entre Espanha e Marrocos enfrenta um sério teste após cerca de 60 mil marroquinos terem entrado ilegalmente em Ceuta esta quinta-feira.
Os laços bilaterais entre os dois países são historicamente frágeis devido à posição espanhola sobre o Saara Ocidental – que Marrocos considera ser seu -, mesmo após Pedro Sánchez ter apoiado o plano marroquino de autonomia para a região, em 2022, mudando décadas de políticas bipartidárias sobre o tema.
Há quase duas semanas, a 20 de julho, o presidente do governo espanhol visitou a Argélia, com quem Marrocos também tem relações tensas. Pedro Sánchez e o chefe de Estado argelino, Abdelmadjid Tebboune, tiveram conversações “frutíferas e francas”, disse o próprio líder do Estado africano. Sánchez, por sua vez, falou mesmo de um “ponto de inflexão” na relação entre Madrid e Argel. Esse pode ter sido o gatilho para os eventos de quinta-feira, explica Miguel Baumgartner.
“Isto não é uma crise migratória, é uma crise geopolítica”, defende o comentador da CNN Portugal. “Quando Espanha se aproxima mais de Marrocos, nomeadamente por causa do Saara Ocidental, Marrocos o que é que faz? Controla a imigração, controla a proliferação do terrorismo e controla e pacifica o norte de África. E Marrocos apercebeu-se que a Europa precisa desse trabalho”, prossegue.
“Sempre que Espanha se afasta da relação que é tida por Marrocos como a relação que Marrocos acha que Espanha tem de ter, existe esta conivência e esta permeabilidade [no controlo de fronteiras]”.
Há um nome para esta prática, diz Miguel Baumgartner: “migração instrumentalizada”. E não é a primeira vez que a Europa é vítima dela. No verão de 2021, a Bielorrússia facilitou a chegada de fluxos de migrantes do Médio Oriente e Norte de África às fronteiras com a Polónia, Lituânia e Letónia. Só nesse ano, diz o portal Notes From Poland, houve cerca de 40 mil tentativas de entrada no país a partir da Bielorrússia. O próprio exclave de Ceuta foi, em 2021, alvo de outra vaga de migração ilegal, então com menos de 10 mil pessoas, também com a conivência de Marrocos.
“Não é a primeira vez que países hostis à União Europeia, nomeadamente a Rússia, que está numa guerra híbrida contra a Europa, utiliza a questão dos fluxos migratórios”, afirma, apontando também a legalização de cerca de meio milhão de imigrantes sem documentos em Espanha como um fator que incentiva as travessias. “Esta instrumentalização migratória não acontece num momento em que nada se passa na Europa. Acontece num momento em que nós estamos a discutir a questão da Ucrânia, em que nós estamos a reforçar a capacidade de segurança na Ucrânia e em que existem fragilidades dentro da própria União Europeia”, explica.
“[A migração instrumentalizada] serve para dividir os aliados europeus, obter concessões diplomáticas, sobrecarregar as forças de segurança e serviços públicos, obrigando os países a desviarem-se daquilo que são as reais situações de crise ou operações militares, e a testar a capacidade de resposta das autoridades de segurança europeias”.
Miguel Baumgartner reafirma que esta não é uma crise migratória internacional. “Muitas daquelas pessoas são pessoas pobres e fáceis de instrumentalizar. (…) E obviamente que estas 60 mil pessoas não decidiram todas no mesmo dia ir a nado para Ceuta à procura de uma vida melhor”.











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