Europa reforça domínio no futebol mundial


O Mundial de 2026 voltou a confirmar uma realidade que atravessa gerações: o centro de gravidade do futebol mundial continua na Europa. A Espanha sagrou-se campeã mundial, a Inglaterra terminou no terceiro lugar e a França foi quarta. Entre as quatro melhores seleções do torneio, apenas a finalista Argentina escapou ao domínio europeu.

A superioridade tornou-se ainda mais evidente nos quartos de final. França, Espanha, Bélgica, Noruega, Inglaterra e Suíça garantiram seis dos oito lugares disponíveis, com Argentina e Marrocos como únicos representantes dos restantes continentes. Três quartos das equipas ainda em prova nessa fase pertenciam à UEFA.

Há exatamente 20 anos, no Mundial de 2006, disputado na Alemanha, o domínio europeu foi ainda mais absoluto. Itália, França, Alemanha e Portugal preencheram os quatro lugares das meias-finais. A Itália acabaria por conquistar o título, derrotando a França nos penáltis na final.

Dez anos depois, a fotografia era diferente, mas continuava a demonstrar a força do continente. Em 2016, Portugal conquistou o Europeu e, no ranking FIFA de julho, cinco das dez primeiras seleções eram europeias — Bélgica, Alemanha, Portugal, França e Espanha —, contra quatro sul-americanas, Argentina, Colômbia, Chile e Brasil, e o México.

A hegemonia europeia, contudo, percebe-se melhor quando se passa das seleções para os clubes. É aí que a diferença relativamente ao resto do mundo se tornou muito maior nas últimas duas décadas.

Na temporada 2005/06, o Real Madrid liderava a Football Money League, da Deloitte, com receitas de 292,2 milhões de euros. Barcelona, Juventus, Manchester United e Milan completavam os cinco primeiros lugares e o Benfica aparecia em 20.º, com 85,1 milhões. Os 20 clubes com maiores receitas do futebol mundial geravam pouco mais de três mil milhões de euros.

Harry Kane

Uma década depois, na época 2015/16, o cenário já tinha mudado radicalmente. Os 20 clubes da Money League somavam 7,4 mil milhões de euros de receitas. O Manchester United liderava, com 689 milhões, à frente de Barcelona e Real Madrid.

Hoje, a dimensão económica é incomparavelmente maior. Segundo a Football Money League de 2026, referente à temporada 2024/25, os 20 clubes com maiores receitas atingiram o recorde de 12,4 mil milhões de euros, mais 11% do que na época anterior. O Real Madrid voltou a liderar, com receitas próximas de 1,2 mil milhões. Só a faturação comercial do clube espanhol, 594 milhões de euros, seria suficiente para colocar um clube entre os dez primeiros da classificação atual.

Em duas décadas, o futebol europeu transformou-se numa indústria de uma dimensão que ajuda a explicar aquilo que depois acontece dentro de campo.

Brasil, Argentina, Colômbia, Marrocos, Senegal ou outros grandes produtores de jogadores continuam a formar futebolistas de elite. A diferença é que muitos acabam por desenvolver a parte decisiva das carreiras nos campeonatos europeus. O futebol do continente beneficia, assim, não apenas da formação dos seus próprios jogadores, mas também da capacidade económica para recrutar talento em praticamente todos os mercados.

Cria-se um círculo difícil de quebrar: os melhores campeonatos atraem os melhores jogadores; os melhores jogadores valorizam as competições; as competições geram mais receitas; e essas receitas permitem voltar a contratar os melhores.

Isso não significa que a Europa tenha o monopólio do sucesso. A Argentina foi campeã mundial em 2022 e voltou à final em 2026. Marrocos tornou-se, em 2022, a primeira seleção africana a atingir uma meia-final de um Mundial. E o Brasil continua a ser a seleção mais titulada da história da competição, apesar de esperar desde 2002 por um novo título.

O próprio Mundial de 2026, alargado pela primeira vez a 48 seleções e 104 jogos, tornou a competição geograficamente mais abrangente. Mas maior representação não significou necessariamente redistribuição do poder.

Há uma diferença importante relativamente a 2006: os protagonistas europeus vão mudando. Itália e Alemanha, semifinalistas há 20 anos, estiveram longe dos lugares decisivos em 2026. Espanha, França e Inglaterra assumiram posições de destaque, enquanto Portugal, Países Baixos e Bélgica permanecem entre as seleções capazes de competir no patamar mais elevado.

Há 20 anos, a Europa já dominava boa parte do futebol mundial. Hoje continua a fazê-lo, mas dispõe de uma vantagem adicional: uma máquina económica muito maior. Em 2006, menos de 300 milhões de euros de receitas colocavam um clube no topo do mundo. Duas décadas depois, o líder aproxima-se dos 1,2 mil milhões e os 20 maiores movimentam conjuntamente 12,4 mil milhões. O coração competitivo e financeiro continua a bater na Europa. O Mundial de 2026 voltou apenas a demonstrá-lo.



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