O calor na Europa e a pergunta que falta no debate sobre o ar-condicionado – Jornal da USP


Por Elaine Santos, pós-doutora pelo Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP

Nas últimas semanas, a Europa vive uma onda de calor histórica e, enquanto escrevo este texto, tenho um miniventilador à minha frente, ligado durante quase todo o dia, uma presença que passou a fazer parte da rotina deste verão, marcado por ondas de calor que encontraram muitas casas, cidades e infraestruturas europeias despreparadas.

Com os termômetros ultrapassando os 40 graus em diferentes regiões, cidades reforçaram alertas de saúde, escolas e trabalhadores precisaram de se adaptar e populações vulneráveis voltaram a enfrentar os riscos associados a episódios prolongados de calor extremo. Na Alemanha, as temperaturas elevadas provocaram danos em estradas e linhas ferroviárias, afetando viagens de longo curso, enquanto Portugal, Espanha, França e Itália estiveram entre os países mais atingidos.

Em 28 de junho, a Organização Mundial da Saúde alertou para a estimativa de mais de 1.300 mortes associadas às altas temperaturas registradas na Europa desde o dia 21 daquele mês e voltou a sublinhar que o continente aquece a um ritmo cerca de duas vezes superior à média global. Nas semanas seguintes, novas estimativas apontaram um quadro ainda mais grave em partes da Europa Ocidental, que também atravessou um dos meses de junho mais quentes já registrados.

Foi nesse contexto que o ar-condicionado passou a ser um tema quente ocupando espaço na disputa política. Na França, Marine Le Pen defendeu a instalação de aparelhos de ar-condicionado em larga escala pelo país, começando por hospitais, asilos e escolas, e atribuiu a resistência a essa expansão a um tabu ideológico da esquerda que, para ela, já deveria ter sido superado depois da onda de calor de 2003, que matou cerca de 14.800 pessoas no país. Em resposta, Marine Tondelier, dos Ecologistas, e Jean-Luc Mélenchon, da França Insubmissa, acusaram a extrema-direita de explorar politicamente uma pauta que ignorou por anos, e alertaram para o aumento de emissões que a multiplicação de aparelhos traria. Tondelier rejeitou, inclusive, a ideia de que seu partido fosse contrário ao ar-condicionado e propôs medidas voltadas à proteção de trabalhadores expostos ao calor extremo.

Enquanto os partidos discutiam o tema, o que vimos circular pelas redes sociais foi uma corrida dos consumidores para comprar aparelhos portáteis de ar-condicionado e ventiladores, porque o calor se tornou insuportável para muita gente. Porém, o que me chamou atenção foi outra coisa; em nenhum desses discursos apareceu a pergunta sobre a origem dos componentes que tornariam essa expansão possível.

Até agora, parte significativa da discussão pública permanece concentrada, compreensivelmente, na energia necessária para fazer funcionar os equipamentos, nas emissões associadas, na pressão sobre as redes e, em algumas cidades, nas próprias regras urbanísticas para a instalação de aparelhos que alteram fachadas e espaços exteriores.

Só que, antes de consumir eletricidade, um aparelho de ar-condicionado precisa ser produzido.

Um relatório do Lawrence Berkeley National Laboratory (LBNL) de junho de 2025 sobre a cadeia de suprimentos global de aparelhos residenciais de ar-condicionado mostra que sua produção depende de materiais como aço, cobre e alumínio, utilizados em motores, compressores, trocadores de calor e outros componentes. Nos equipamentos mais eficientes, os motores de ímãs permanentes usados em compressores de velocidade variável também dependem de elementos de terras raras como o neodímio e o disprósio. Já os componentes eletrônicos incorporam semicondutores e outros materiais que podem empregar elementos como gálio, germânio e paládio.

A expansão da refrigeração também depende de uma cadeia produtiva que está bastante concentrada. Em 2021, a China produziu cerca de 155 milhões de aparelhos de ar-condicionado residenciais, o equivalente a aproximadamente 82% das 189 milhões de unidades fabricadas globalmente. O mesmo relatório mostra a forte presença de fabricantes chineses no fornecimento de componentes utilizados por empresas de diferentes países.

A concentração continua quando seguimos a cadeia até a origem dos materiais: a China ocupa posição dominante tanto na mineração quanto no processamento de terras raras e em outras etapas estratégicas dessas cadeias, enquanto parte importante da produção mundial de minerais como cobalto e cobre também se concentra em poucos países. Essa estrutura teve consequências em abril de 2025: com a escalada da guerra comercial entre Estados Unidos e China, Pequim impôs restrições à exportação de sete elementos de terras raras, incluindo térbio e disprósio, exigindo licenças especiais para materiais dos quais controla a maior parte do refino global. Decisões tomadas a milhares de quilômetros de qualquer verão europeu ajudam a definir custos, disponibilidade de componentes e o ritmo de expansão das tecnologias que hoje discutimos.

Esse tema chama atenção na Europa porque a demanda por matérias-primas críticas cresce ao mesmo tempo que novos projetos de mineração enfrentam resistência social e territorial. A meu ver, a tensão não está na existência dessas resistências, que respondem a conflitos reais, mas na dificuldade de discutir simultaneamente as tecnologias que desejamos ampliar e os materiais necessários para produzi-las.

A expansão da climatização não acontece isoladamente, porque os mesmos materiais necessários para fabricar aparelhos de ar-condicionado são disputados por veículos elétricos, redes de transmissão, turbinas eólicas, equipamentos eletrônicos e inúmeras outras tecnologias. O continente discute a expansão de tecnologias sem colocar no mesmo plano a extração dos materiais necessários para produzi-las. Na prática, boa parte dessa extração, assim como suas consequências, continua ocorrendo fora das fronteiras europeias: na República Democrática do Congo, no Chile, na Argentina…

Talvez seja essa a pergunta que ainda falta no debate europeu sobre o ar-condicionado. Se as temperaturas extremas levarem à multiplicação dos sistemas de refrigeração, de onde virão os materiais necessários para produzi-los? E até quando será possível discutir e politizar as tecnologias que queremos sem discutir, ao mesmo tempo, as minas das quais elas dependem?

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